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ConflitosMédio Oriente

Irão: Apesar de frágil, trégua alivia mercados africanos

Benita van Eyssen | Michael Oti
11 de abril de 2026

A trégua entre os EUA, Israel e o Irão aliviou a pressão sobre os mercados africanos. No entanto, economistas alertam que fragilidades estruturais profundas podem fazer com que essa recuperação seja de curta.

Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz é uma importante rota para o comércio marítimo de petróleo Foto: Stringer/REUTERS

Um alívio cauteloso é o que muitos países da África Subsaariana estão a sentir após o anúncio de um cessar-fogo entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, e a reabertura parcial do Estreito de Ormuz ao comércio marítimo. No entanto, apesar da reação rápida dos mercados, economistas alertam que uma recuperação mais ampla levará tempo.

Daniel Silke, diretor da consultora Political Futures, com sede na Cidade do Cabo, afirmou que, após a pandemia, muitos países em desenvolvimento conseguiram algum sucesso na redução da inflação, mas isso poderá ser revertido com a subida dos preços globais "não apenas do petróleo, mas também dos fertilizantes, do gás natural liquefeito (GNL) e de outros fornecimentos energéticos críticos".

A situação é particularmente difícil para as famílias que gastam grande parte do rendimento em energia e transporte, "o que deverá travar a procura em África, que vinha a crescer até esta crise", disse à DW.

África do Sul 

Este é o caso da África do Sul, que anunciou aumentos históricos nos preços dos combustíveis a 1 de abril. Antes disso, o governo tinha assegurado um acordo que permitiu a passagem de navios com carga e combustível pelo estreito.

Em meados de março, o embaixador do Irão na África do Sul, Mansour Shakib Mehr, indicou que o país não era um alvo, numa altura em que Teerão bloqueava os EUA, Israel e os seus aliados.

À medida que o conflito se prolongava, a embaixada iraniana na África do Sul divulgou uma declaração firme: "O Estreito de Ormuz situa-se nas águas territoriais do Irão e de Omã. Navios sul-africanos podem atravessar o Estreito de Ormuz."

Ainda assim, isso pouco contribuiu para travar a subida dos preços. Mas muitos sul-africanos que abasteceram os seus veículos antes do aumento, no início de abril, mostraram algum alívio.

Foto: Esa Alexander/REUTERS

"Pensávamos que ia subir seis rands, mas afinal foram apenas três rands para a gasolina. Não devíamos envolver-nos em conflitos noutras regiões quando temos os nossos próprios problemas", disse um automobilista da Cidade do Cabo, que preferiu não ser identificado.

O preço do gasóleo, por sua vez, subiu acentuadamente, cerca de 7 rands (0,41 dólares; 0,36 euros) por litro. Em comunidades carenciadas da Cidade do Cabo, alguns residentes disseram à DW temer que o pior ainda esteja por vir, enquanto o conflito no Médio Oriente continua.

"Vamos ter de pagar mais pela eletricidade, pela comida, pelo transporte para ir ao hospital", afirmou Wela Lawrence, pensionista em Mitchells Plain. "O governo só olha para os seus próprios interesses. Nós, os pobres, é que sofremos."

Agora, porém, há algum alívio. A notícia do cessar-fogo está a ter impacto positivo no país: o rand, os títulos do governo e as ações registaram valorização. Silke acredita que os consumidores sentirão o efeito imediatamente nos preços dos combustíveis.

Ainda assim, numa perspetiva mais ampla, especialistas alertam que os consumidores devem moderar as expectativas.

O economista Abdul Hakim Ahmed, especialista em economia política internacional da Universidade de Winneba, no Gana, explica que, sendo o cessar-fogo ainda frágil, qualquer descida de preços é imprevisível. Segundo ele, quando os preços sobem, demoram a baixar.

Foto: Siphiwe Sibeko/REUTERS

Um ponto de viragem?

Ambos os especialistas defendem que a crise deve levar a uma reflexão mais profunda no continente.

Silke argumenta que choques globais sucessivos estão a obrigar os países africanos a reconsiderar a sua dependência de centros energéticos externos.

"Acho que os países africanos terão de fazer uma nova reflexão sobre como se encontram à mercê de polos económicos-chave", afirmou.

Ahmed reforça a necessidade de mudanças estruturais, destacando a produção e refinação internas.

"Precisamos revitalizar a nossa capacidade de refinação e, onde ela não existe, investir para refinar mais petróleo bruto e tirar partido das grandes reservas de petróleo e gás na Nigéria, Líbia e Angola”, disse, sublinhando também a importância de diversificar para fontes alternativas, como a energia nuclear.

Por agora, o cessar-fogo traz alívio financeiro imediato, mas os analistas sublinham que o cenário geral permanece incerto.

À medida que as negociações prosseguem e as tensões persistem, as economias africanas continuam expostas — não apenas ao desfecho deste conflito, mas também às fragilidades estruturais que ele volta a evidenciar

Apesar da guerra entre EUA, Israel e Irão e das restrições seletivas de Teerão no Estreito de Ormuz, navios com carga e combustível destinados à África do Sul têm sido autorizados a transitar.

Em meados de março, Mansour Shakib Mehr reiterou que a África do Sul não era um alvo, mesmo com o bloqueio imposto pelo Irão aos EUA, Israel e aliados.

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05:12

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Gesto político?

No início do conflito no Médio Oriente, e com as cadeias globais de energia sob pressão, Pretória apelou à contenção e ofereceu-se para mediar.

A África do Sul depende da importação de petróleo e gás, mas apenas uma pequena parte do seu transporte passa pelo estreito. Cerca de 24% do petróleo bruto importado provém da Arábia Saudita, sendo os produtos refinados transportados pelo Mar Arábico.

"Irão é apenas uma das várias fontes de petróleo da África do Sul, que também importa da Nigéria, Argélia e Angola, entre outros”, explicou o economista Lumkile Mondi, docente da Wits Business School.

"Creio que o anúncio de que um navio com petróleo destinado à África do Sul foi autorizado a passar foi, sobretudo, uma declaração política.”

Segundo Mondi, os preços dos alimentos deverão subir, e os sul-africanos poderão enfrentar mais dificuldades devido ao conflito.

Reavaliação política

A guerra com o Irão tem dominado o debate público na África do Sul, com especulações sobre os seus impactos no país, fortemente dependente de importações energéticas.

Também tem havido discussão sobre se o Irão, tradicional aliado, se tornou um fator de risco.

Numa conferência do setor realizada na Cidade do Cabo, em março, o ministro dos Recursos Minerais e Petróleo, Gwede Mantashe, defendeu que África deve apostar nos seus próprios recursos.

"Temos de aproveitar estes recursos de forma responsável para impulsionar o crescimento económico inclusivo, criar empregos e erradicar a pobreza”, afirmou.

As relações entre a África do Sul e o Irão remontam à Guerra Fria, quando o Congresso Nacional Africano, hoje partido no poder, combatia o regime do apartheid.

"Essas relações continuam, e não apenas ao nível dos negócios", concluiu Mondi.