Língua portuguesa ou "língua geral" como sugere Agualusa?
1 de julho de 2026
José Eduardo Agualusa defendeu recentemente que a língua portuguesa deveria passar a designar-se "língua geral". O escritor angolano sustenta a proposta contra aquilo a que chama de "nacionalismo linguístico".
Daí a imperiosidade de refletir o idioma como um território de encontros das comunidades que partilham a língua de Camões, defende Agualusa: "A minha preocupação é com a unidade da língua, com a integridade de língua."
Não uma língua portuguesa, não um idioma colonial de opressão e de exploração, como sustentou o escritor lusófono num encontro literário na Embaixada do Brasil, em Lisboa.
"Já existe esta língua portuguesa global, fosse chamada assim: geral, maior, grande, como você quiser chamar. Obviamente que em Portugal isso nunca esteve em causa. A variedade do português europeu é e será sempre a língua portuguesa", afirmou.
Polémica imediata
A ideia suscitou polémica de imediato, no ano em que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) assinala 30 anos de existência. O conceituado escritor guineense Tony Tcheka considera que as línguas não são fechadas e intocáveis, mas não acolhe a sugestão de Agualusa.
"Eu penso que não colhe, não cabe e não será, de facto, uma proposta que me possa merecer grandes contribuições. Não acredito que se vá constituir num debate sobre a mudança da designação 'língua portuguesa' para 'língua geral'", considera o autor.
Tony Tcheka defende sim, na atualidade, o debate sobre os contributos dos utentes para o maior acesso e utilização da língua portuguesa, de forma que ela possa, juntamente com as línguas locais dos países lusófonos, ganhar uma maior dimensão e expansão.
O jornalista angolano Carlos Gonçalves também discorda da ideia: "Não concordo que a língua portuguesa passe de um contexto de identidade para um contexto de abstração como língua geral. A ter um novo contexto que seja para uma nova identidade, talvez mais justa e integrativa de língua veicular, como já dizia Agostinho Neto."
"Isso significa que nós africanos, aceitando a língua portuguesa como tal, fazemo-lo dentro da nossa dupla dimensão, aceitando a influência do colonizador, mas também a nossa influência e a nossa dimensão sobre o colonizador", argumenta Gonçalves.
"Uma língua que se enriquece todos os dias"
Para o jornalista angolano, "o português que se fala hoje já é uma nova língua com uma personalidade diversa luso-afro-brasileira. Não precisa de rótulos para uma afirmação."
António de Almeida Lima, representante de Portugal junto da CPLP, evita aprofundar comentários sobre a proposta de José Eduardo Agualusa.
"É uma língua rica, que se enriquece todos os dias com a contribuição das nossas sociedades e das nossas comunidades, não só nos nossos países como no estrangeiro. E eu não acho que estejamos na fase do batismo. Para quê estar a mudar, não vejo razão para isso. Mas, enfim, isto não é uma coisa que me compete a mim. Os Estados decidirão o que quiserem", declarou.
O diplomata olha com esperança e entusiasmo para o previsível crescimento sustentado da língua portuguesa no plano internacional, pelo seu dinamismo e variedade, porque hoje ela não é apenas pertença de Portugal.