O economista português Jorge Fonseca de Almeida lançou, em Lisboa, o livro "Jornal O Negro e o Movimento Negro da I República", uma obra que resgata o papel do periódico na mobilização anticolonial africana.
Apesar do seu impacto, o jornal "O Negro" viria a ser abalado com a chegada do Estado Novo, liderado por Oliveira SalazarFoto: João Carlos/DW
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Foi há mais de um século, em 1911, que nasceu em Lisboa um pequeno jornal de grandes ambições. O "Jornal O Negro" tornou-se, rapidamente, muito mais do que uma publicação periódica: foi o embrião de um movimento que desafiaria abertamente o regime colonialista português e lançaria as bases de um forte movimento antirracista, anticolonial e de emancipação negra.
"Este movimento do jornal 'O Negro' representou um primeiro passo dado aqui em Lisboa na organização e na luta da comunidade negra que se assumia como portuguesa em prol da autonomia e, nalguns casos, quase ao limite da independência dos territórios ocupados por Portugal em África", explica o economista e investigador Jorge Fonseca de Almeida, em entrevista à DW.
Apesar do seu impacto, a publicação viria a ser abalada com o fim da I República e a chegada do Estado Novo, liderado por Oliveira Salazar. No entanto, o espírito que o jornal havia despertado não foi silenciado. O movimento que daí nasceu ganhou força nas décadas seguintes, tendo influenciado diretamente as lutas de libertação nas ex-colónias portuguesas.
Ideias progressistas
Segundo Fonseca de Almeida, pós-graduado em Estudos Estratégicos e de Segurança, as ideias que o movimento defendia eram das mais avançadas: "Eles próprios participaram em movimentos internacionais como o movimento dos Congressos Pan-africanos que, hoje toda a gente reconhece, estiveram na base de muitas independências africanas."
Segundo Fonseca de Almeida, as ideias que o movimento defendia eram das mais avançadas para a épocaFoto: João Carlos/DW
Embora marcado por algumas contradições internas e marcado por uma "identidade dividida", como assinala o investigador, o movimento negro da Primeira República estabeleceu uma linha de continuidade com os posteriores movimentos de libertação africanos.
"Encontramos na sua ação uma certa linha de continuidade entre o movimento negro da I República e os movimentos de libertação dos territórios ocupados por Portugal em África", acrescenta.
Durante a sua existência, o movimento lançou outros jornais, fundou partidos políticos, elegeu representantes parlamentares e moldou correntes de pensamento internacional. Tornou-se uma rede ativa e representativa de agremiações negras nos territórios colonizados.
A sua influência atravessou fronteiras e resistiu ao tempo, deixando o que Fonseca de Almeida descreve como "uma marca duradoira" na História de Portugal.
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Liga Africana
Um dos braços mais organizados do movimento foi a Liga Africana, composta maioritariamente por estudantes negros oriundos da elite africana. Apesar de não defenderem abertamente a independência, apostavam no regionalismo e na autonomia.
Entre eles destacava-se Ayres de Menezes, natural de São Tomé e Príncipe, estudante de Medicina e editor do "Jornal O Negro". "Ayres de Menezes na altura era estudante de Medicina, depois formou-se e regressou a São Tomé, onde se envolveu na política local, de reivindicação de autonomia para as populações africanas e acabou por ser perseguido pelo regime fascista e inclusive deportado para Angola", recorda o académico.
A luta de Ayres de Menezes transmitiu-se às gerações seguintes. "Os filhos também participaram. Há aqui uma continuidade geracional”, aponta Fonseca de Almeida, referindo que alguns deles viriam a integrar oMovimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). E acrescenta outra figura marcante da história: "Referência também a Juvenal Cabral, o pai de Amílcar Cabral.”
O movimento negro da I República, apesar de pioneiro, enfrentava um dilema identitário que atravessaria décadas. "Por um lado, as pessoas sentiam-se portuguesas e, por outro, africanas. Uma identidade um pouco dividida, como depois mais tarde veio a analisar Frantz Fanon que se reparte, por um lado na pertença ao Estado em que nasceram e, por outro, aos povos de que vinham", explica Jorge Fonseca de Almeida.
Exposição em Lisboa revela as facetas do colonialismo português com imagens que poderão ser vistas pelo público ao longo de 2021. Muitas fotos foram cuidadosamente recuperadas. Algumas estavam esquecidas e danificadas.
Foto: AHU/EGEAC
Padrão dos descobrimentos
No Padrão dos Descobrimentos, situado em Belém, à margem direita do rio Tejo, está aberta ao público uma exposição inédita, que reúne um conjunto de imagens fotográficas a retratarem momentos diversos da história colonial portuguesa nos territórios outrora dominados por Portugal. Entre elas, estão expostas imagens que também serviram para denunciar a iniquidade e a violência da colonização.
Foto: Joao Carlos/DW
Imagens que passaram de mão em mão
Esta fotografia do Sebastião Langa, feita em Lourenço Marques, Moçambique [1962, Centro de Documentação e Formação Fotográfica], abre a mostra. Na composição da exposição é possível encontrar imagens que passam de mão em mão, oficial ou clandestinamente. Muitas fotos foram esquecidas ou até mesmo destruídas. São imagens que documentam sonhos e memórias individuais e coletivas.
Foto: José Frade/EGEAC
A visão do outro diferente
A exposição pode ser visitada ao longo de 2021. Os curadores Joana Pontes e Miguel Bandeira Jerónimo [ao centro] consideram que as imagens contribuíram para uma visão do "outro" como essencialmente diferente nos seus modos de vida, costumes e mentalidade, concorrendo para estabelecer leis e práticas de discriminação política, social, económica e cultural, desenhadas ao longo de linhas raciais.
Foto: José Frade/EGEAC
Legitimar o domínio colonial
Para o Estado imperial, a “ocupação científica” das colónias foi um desígnio importante. O trabalho de campo e o alegado progresso científico ajudaram a legitimar o domínio português sobre terras e gentes dos territórios africanos reclamados por Portugal, nomeadamente em África.
Foto: IICT-MAEG Archiv
Interagir com usos e costumes
Para governar populações muito diversas, o regime colonial considerou necessário alargar o conhecimento sobre as suas "tradições, usos e costumes”, bem como as suas formas de organização e interação social. Sem esse conhecimento, de acordo com os curadores, a recolha de impostos, a obtenção de mão de obra ou a exploração das matérias-primas coloniais seriam impossíveis.
Foto: Joao Carlos/DW
Poder, ordem, lealdade e obediência
A foto documenta a viagem do ministro das Colónias à Guiné, em 1935. A imagem do Arquivo Histórico Ultramarino traduz a "projeção da autoridade e da soberania, por vezes laboriosamente encenada". Naquele contexto, a imagem foi decisiva porque contribuiu para estimular visões de poder e ordem, lealdade e obediência, além das ideias de alegada "civilização" e "progresso".
Foto: AHU/EGEAC
"Levar os indígenas a trabalhar"
Para o regime colonial português, a dificuldade era levar os indígenas a trabalhar. As autoridades portuguesas sabiam que "sem os braços africanos, a criação de novos Brasis em África era impossível". A mão de obra africana foi decisiva nas missões alegadamente "científicas”, assim como na construção de infraestruturas, na extração das matérias-primas e nas plantações.
Foto: Joao Carlos/DW
Escravatura no império colonial
A escravatura está bem documentada com imagens de trabalho forçado nas roças de cacau em São Tomé e Príncipe, onde também foi usada mão de obra infantil. A abolição do tráfico de escravos e da escravatura no império português, no século XIX, não conduziu ao fim de formas de trabalho coercivas e de condições laborais desumanas.
Foto: Joao Carlos/DW
Educar e evangelizar
Desde muito cedo, a educação e a evangelização foram proclamadas por governantes, autoridades religiosas e educativas como objetivos da chamada "missão civilizadora". A sua concretização, contudo, esteve longe de corresponder à retórica imperial, como referem no seu texto Miguel Jerónimo e José Pedro Monteiro.
Foto: Joao Carlos/DW
A batalha do desenvolvimento
A promessa de progresso e elevação material esteve intrinsecamente ligada à expansão portuguesa em África. O chamado "fomento colonial" foi sobretudo encarado como crescimento económico. Mas, a "batalha do desenvolvimento", que incluiu o uso sistemático da fotografia, foi um fator importante na resistência aos "ventos da mudança". Assim referem os organizadores da exposição.
Foto: Joao Carlos/DW
Pôr fim à guerra colonial
Portugal envolveu-se num conflito colonial em três territórios africanos a partir de 1961-1964. Foi necessário que o Movimento das Forças Armadas, em 25 de abril de 1974, tomasse o poder para que Portugal abrisse negociações com os movimentos de libertação, pondo fim à guerra para concretizar as aspirações dos povos colonizados.
Foto: Joao Carlos/DW
Visões da independência
A fotografia, de acordo com os curadores, não deixou de desempenhar um papel importante na documentação da emancipação política associada à descolonização. Esta imagem, por exemplo, mostra colonos portugueses no porto de Lourenço Marques, despachando os seus haveres para Portugal, na sequência da independência, em junho de 1975.
Foto: Joao Carlos/DW
Novas nações
Com significados e usos diversos, as imagens da parte final da exposição, forjadas nas lutas anticoloniais, marcaram o período da descolonização e continuam a condicionar as memórias do passado colonial. A descolonização abriu portas às independências. Os países que lutaram pela conquista da soberania e da autodeterminação aspiraram erguer novas nações, como representa esta instalação mista.