M23 alastra ataques ignorando acordo de paz
12 de dezembro de 2025
Os rebeldes do M23 vasculharam as ruas de Uvira, na RDCongo, para expulsar os combatentes inimigos restantes, um dia depois de tomarem o controlo de partes importantes da cidade, segundo fontes de segurança e locais.
A última ofensiva, lançada no início de dezembro foi descrita pelo ministro das Relações Exteriores do Burundi como uma"humilhação" para os Estados Unidosque promoveu o acordo de paz entre a RDC e o Ruanda, assinado diante do Presidente dos EUA, Donald Trump.
As lojas estão fechadas há vários dias e apenas algumas motocicletas circulam nas ruas, enquanto tiros esporádicos ainda ecoam, disseram representantes da sociedade civil local.
"Em relação aos tiros ouvidos, eles [o M23] disseram-nos para não termos medo e que podíamos continuar com as nossas atividades, porque eles são o Exército de libertação. Eles vieram para nos libertar do sofrimento que temos suportado e agora estão aqui e pedem-nos para fazermos o nosso trabalho em paz", relata um residente.
Caos em Uvira
As conquistas dos rebeldes levam o conflito às portas do vizinho Burundi, que há anos mantém tropas no leste do Congo, o que alimenta os temores de uma nova expansão dos combates na região, que desde janeiro já custaram a vida a milhares de pessoas e deslocaram centenas de milhares.
Esta quinta-feira (11.12), quase todas as partes da cidade de Uvira sofreram cortes de energia, com muitos residentes dependentes de telemóveis a bateria para se comunicarem com o mundo exterior.
"Desde que fugi, não sei onde está o meu marido. Perdemos-nos quando fomos obrigados a abandonar a nossa casa no meio do caos e não o vejo desde que saímos de Sange. Procurei-o por todo o lado e até perguntei a amigos, mas ainda não tive notícias dele", conta outra moradora.
A última ofensiva do grupo armado antigovernamental e dos seus aliados ruandeses visa inicialmente privar a RDCongo do apoio militar do Burundi, de acordo com especialistas e fontes de segurança. Algumas das 18 000 forças burundianas presentes na província de Kivu do Sul, no leste da RDCongo, já atravessaram a fronteira de volta à capital económica do Burundi, Bujumbura, disseram fontes do Exército burundês.
ONU pede fim das hostilidades
O Exército burundês perdeu várias centenas de homens nos combates, segundo várias fontes militares. Um general burundês, contactado pela AFP, reconheceu estas como "derrotas humilhantes”.
O Exército ruandês utilizou drones, morteiros guiados por GPS e bloqueadores durante a ofensiva em Uvira, disseram fontes de segurança.
Mais de 200 000 pessoas, a maioria civis, foram deslocadas na província de Kivu do Sul desde 2 de dezembro, segundo a ONU e situação humanitária volta a agravar-se.
"Aqui falta-nos tudo, não temos abrigo, as crianças já não podem ir à escola e também não temos nada para comer. Um dos meus filhos está doente e precisa de cuidados médicos, mas não tenho dinheiro para isso", queixou-se uma residente de Uvira.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou, através de um comunicado, a nova ofensiva e pediu "a cessação imediata e incondicional das hostilidades".