Meios de comunicação dão pouco destaque à fome em África?
12 de fevereiro de 2026
Amina Suleman fugiu com a sua família dos ataques de grupos jihadistas da sua aldeia Tangille, em Maradun, uma localidade no estado de Zamfara, no noroeste da Nigéria. "Eles mataram muitos de nós, saquearam os nossos bens e animais, queimaram tudo, inclusive os nossos alimentos", disse à DW.
Os ataques ocorreram há sete anos, mas a situação de segurança ainda não melhorou: tropas governamentais lutam contra milícias jihadistas e bandidos para reprimir sequestros e extorsões de moradores das aldeias.
Suleman vive com os seus sete filhos num edifício abandonado perto de Sokoto. "As crianças têm de mendigar para conseguirmos algo para comer. Não temos outra fonte de alimento além da mendicância. Quando conseguem algum dinheiro, compramos garri (mingau de mandioca, nota do editor)", diz.
Antes, comiam o que queriam e cultivavam a sua terra. Agora, mal dá para uma refeição por dia. "Ontem, adormeci com o estômago vazio, porque não havia nada para comer", comnta. O marido está desempregado e não há ajuda. "A minha esperança é que os meus filhos possam ir à escola e que recebamos apoio financeiro e uma casa", afirma Amina.
Meios de comunicação "ocultam o tema da fome"
Estima-se que 318 milhões de pessoas em todo o mundo vivam em situação de fome aguda, sobretudo em África. No entanto, esta é uma realidade alheia a muitas pessoas no mundo. Porquê? Porque os meios de comunicação social não a reportam. Quem o diz é Ladislaus Lubescher, um investigador alemão que descreve no seu mais recente livro a fome como "o maior problema com solução do mundo".
"A fome global é um problema fundamental e enorme. Morrem mais pessoas das consequência da fome do que de tuberculose, SIDA e malária juntas. Aproximadamente a cada 13 segundos, morre uma criança com menos de cinco anos com fome. É um problema grave, mas que poderia ser resolvido se fossem disponibilizados recursos suficientes", afirma Lubescher.
Em entrevista à DW, o investigador explica que, após analisar milhares de programas de 39 meios de comunicação da Alemanha, chegou a uma conclusão: a solução para o problema da fome é uma questão de vontade política.
No entanto, o tema é negligenciado, tanto por parte dos políticos, como dos meios de comunicação. "A política e os media estão interligados. Ou seja, os meios de comunicação noticiam o que os políticos fazem e quais os problemas e questões que abordam. Por outro lado, os políticos também observam quais os temas que estão em destaque meios de comunicação e posicionam-se de acordo com isso. Assim, os temas abordados pelos media são de considerável importância", refere.
A "crise silenciosa" no Malawi
Pamela Kuwali é diretora da CARE Malawi, uma ONG que combate a pobreza no mundo, concorda com Lubescher. À DW, dá o exemplo precisamente do país onde trabalha. "O Malawi está a atravessar uma das piores crises de fome dos últimos anos devido a secas prolongadas, chuvas imprevisíveis e dificuldades económicas. Milhões de famílias simplesmente não têm o que comer. (…) Quando os media não noticiam uma crise, esta torna-se invisível e torna-se mais difícil angariar fundos ou mobilizar apoios. Sem histórias, sem imagens, sem manchetes, o mundo simplesmente não percebe a urgência."
Face à situação, o governo do Malawi declarou estado de calamidade no ano passado. O que, para Kuwali, é positivo, mas insuficiente, uma vez que poucas pessoas falam ou sabem da existência desta crise.
Lubescher entende que mais notícias sobre a fome no mundo poderiam aumentar a sensibilização pública sobre o tema e levar a processos de tomada de decisão política.
Segundo o seu estudo, seriam necessários relativamente poucos recursos financeiros para resolver o problema – entre 10 e 50 mil milhões de dólares americanos a mais por ano, estima. Um valor bastante realista quando comparado ao que o mundo gasta anualmente em armamento.