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Memba: Pobreza e desigualdade estão por trás da insurgência?

2 de dezembro de 2025

Memba, em Nampula, volta a sofrer ataques armados. Investigador aponta pobreza e desigualdade como combustível da violência. Mais de 80 mil deslocados pedem comida e querem regressar. Governo promete segurança.

Deslocados internos em Alua, no distrito de Memba, onde mais de 80 mil pessoas procuraram refúgio após a nova vaga de ataques armados em Nampula
Mais de 80 mil pessoas fugiram de MembaFoto: Sitoi Lutxeque/DW

Em Moçambique, o distrito de Memba, em Nampula, volta a ser palco de ataques de grupos armados. Um investigador liga a nova vaga de violência à pobreza extrema e às desigualdades sociais numa zona que já era apontada como corredor de recrutamento para ainsurgência de Cabo Delgado. A crise humanitária cresce, enquanto o governo diz estar a reforçar meios militares e prepara o regresso gradual das famílias.

Os primeiros ataques em Memba, no posto administrativo de Chipene, aconteceram em setembro de 2022, com mortos e destruição. Depois de um período de relativa calma, a violência reapareceu de forma esporádica e intensificou-se nas últimas semanas, empurrando populações inteiras para fora das suas aldeias.

O académico Wilson Nicaquela diz que havia sinais de criação de células armadas na fronteira com Cabo Delgado: "Memba foi um dos centros de recrutamento deterroristas que engrossavam as fileiras lá do lado de Cabo Delgado. E é do conhecimento de todos que muitos dos terroristas que foram pressionados de Cabo Delgado preferiram mudar-se de lá e/ou simularam o abandono das suas fileiras. Depois regressaram às zonas de origem", disse.

Raízes sociais e corredor de recrutamento

Memba tem potencial turístico e recursos naturais, com destaque para reservas de petróleo. Em 2017, segundo noticiou a VOA, a Petrona, uma empresa da Malásia, era apontada como a empresa que iniciaria a prospeção e a exploração de uma área entre Pemba e Memba. Sobre isso, não há informações mais atualizadas. Ainda assim, falta quase um pouco de tudo. A precariedade e falta de infraestruturas associadas aos difíceis acessos rodoviários são alguns dos maiores problemas que tiram o sossego às populações.

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O pesquisador Wilson Nicaquela entende que além dos recursos naturais, com destaque para a provável ocorrência dos hidrocarbonetos, a pobreza extrema e as desigualdades sociais são uma das causas do terrorismo na região. Mas também há um outro elemento a considerar; uma mensagem política.

"Embora o modo de atuação seja similar, no caso de Memba eu acho que tem uma outra mensagem; uma é a de vincular à pessoa da Presidente da Assembleia da República [Margarida Talapa, nascida na região] e outra de chamar atenção de que se o poder político acha que eles estão confinados, têm condições de alastrar a guerra e ir ao encontro de outros espaços geográficos. Acham que a Presidente da Assembleia tem essa competência necessária para decidir resolver os problemas por iniciativa própria”, disse.

Crise dos deslocados

Os recentes ataques já causaram pelo menos uma dezena de mortes e forçaram o deslocamento de mais de 80 mil pessoas, de acordo com dados recentes. Muitos dos deslocados internos foram acolhidos em Alua.

Mariano Saíde Salimo é uma das vítimas deslocadas da região de Mazua, distrito de Memba, acolhido em Alua. Lamenta a situação que se vive na região. Mas a dor aumenta com a fome e as precárias condições que passam para sobreviver diante das incertezas.

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"Somos muitos, outros estão nas aldeias. Mesmo se trouxessem três camiões de produtos, podem não resolver. Assim estamos espalhados, numa casa pode encontrar 60 a 70 pessoas".

Messias Cassimo é um outro deslocado. Saiu de Namajuba junto com a sua família à procura de abrigo seguro. "Queimaram todas as casas que estão lá, infelizmente ninguém está. Estamos a pedir ajuda em alimentação e construção de casas”, pediu. 

Planos de regresso

Apesar disso, a população que foge dos terroristas quer voltar para dar continuidade a sua vida e Mariano Saíde Salimo reforça apelos. 

"Nós estamos a pedir ao governo que nos ajude, queremos voltar a casa. Mas aqui [em Alua] receberam-nos bem e agradecemos", exortou.

As autoridades governamentais continuam a mobilizar apoio para os deslocados nos centros transitórios de deslocados. Na semana passada, um grupo de deputados liderados pela respectiva presidente foi entregar em Alua mais de 60 toneladas de produtos alimentares.

O governador de Nampula, Eduardo Abdula, garantiu que as forças de defesa e segurança trabalham para perseguir e tirar fora de combate os terroristas e que, nesta semana, a região poderá acolher os primeiros regressados.

"Dentro da primeira semana de dezembro, começam a regressar e os primeiros a regressar sou eu e os jornalistas. Vamos entrar lá e vamos trabalhar lá. Eu não vos levaria se não houvesse condições", assegurou.

Na passada quinta-feira, o governador de Nampula ofereceu às forças armadas de Moçambique drones para uso na perseguição e combate ao terrorismo, nas regiões afetadas na província de Nampula.

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