Mercenários russos no conflito da RDC?
21 de janeiro de 2023
A clientela do Hotel Mbiza, localizado numa rua lateral não pavimentada perto do aeroporto internacional de Goma, no leste da República Democrática do Congo (RDC), é geralmente composta por empresários ou delegações governamentais da capital, Kinshasa.
Desde dezembro passado, o hotel está completamente ocupado por homens armados da Europa do Leste, "São dezenas, talvez até uma centena de homens brancos em uniforme", disse um jornalista local, que pediu o anonimato por razões de segurança. "Envergam uma variedade de uniformes sem distintivos nacionais, e pistolas em cintos", revelou.
A entrada do hotel é guardada por soldados da guarda presidencial congolesa, acrescentou o jornalista. Disseram-lhe que os estrangeiros tinham reservado todos os quartos por um período prolongado. "Agora é o quartel-general dos brancos", explicou um soldado, que se recusou a adiantar mais informação.
Há semanas que círculos diplomáticos especulam sobre o significado da presença destes homens armados da Europa do Leste em Goma, no meio de renovados combates no leste do país. A guerra regressou na primavera passada, quando rebeldes tutsis do Movimento 23 de Março (M23) ocuparam uma faixa vasta de terreno ao longo da fronteira com os vizinhos Ruanda e Uganda.
O exército da RDC tem vindo a incorrer em baixas pesadas nos combates. A presença de homens brancos armados no Hotel Mbiza desencadeou rumores de que o Governo tinha contratado o famoso grupo mercenário russo Wagner para ajudar a combater os rebeldes.
Grupo Wagner cada vez mais presente em África
O Grupo Wagner é considerado o "exército sombra" da Rússia. É suspeito de ter cometido crimes contra a humanidade na frente da guerra contra a Ucrânia. Em África foram contratados mercenários do Wagner para ajudar a combater os insurgentes islamistas no Mali e os rebeldes na República Centro-Africana.
Nos meios de comunicação social ruandeses circulam rumores de que os mercenários Wagner chegaram ao Congo. Acusado pelas Nações Unidas de apoiar os rebeldes M23 na RDC, o Ruanda está interessado em embaraçar o Governo de Kinshasa, fomentando a noção de possíveis laços com o Grupo Wagner.
O Presidente congolês Félix Tshisekédi desmente a presença de mercenários do Wagner no território do seu país. "Sei que isso agora está na moda", disse Thisekédi numa entrevista recente, acrescentando: "Não, não temos de recorrer a mercenários".
Em janeiro, começaram a circular fotos nas redes sociais digitais, exibindo o cadáver de um homem branco com camuflagem militar. Alguém comentou por baixo: "Eis o que acontece aos russos do Wagner".
Numa reportagem recente, o diário alemão taz, afirma que a liderança do M23 confirmou que o homem branco foi morto na aldeia de Karenga a 30 de dezembro. Mas o jornalista que falou com a DW sublinhou que a maioria dos congoleses não distinguir entre russos ou e pessoas de outras nações da Europa Leste. Ainda assim, os congoleses em Goma referem-se aos mercenários como "russos", ligando-os claramente ao Grupo Wagner.
O Governo congolês desmente a presença do Grupo Wagner
O Governo da RDC explicou, recentemente, que não fazia sentido contratar mercenários do Grupo Wagner. "Se obtivéssemos aviões Sukhoi [aviões de caça russos], precisaríamos do pessoal técnico para os manter. O que faríamos sem sem pessoal?", disse o Ministro das Comunicações, Patrick Muyaya.
O porta-voz governamental acrescentou que os militares nacionais devem ser treinados com os recursos existentes, como, por exemplo, antigos membros da Legião Francesa.
Em maio, o Ministro da Defesa Gilbert Kabanda assistiu a uma demonstração aérea dos jatos Sukhoi no aeródromo da Força Aérea Congolesa em Kinshasa. Na pista estavam homens brancos com uniformes ostentando a insígnia da companhia privada búlgara "Agemira". Kabanda elogiou-os por terem conseguido tornar operáveis antigos helicópteros de combate em apenas 57 dias.
Investigadores das Nações Unidas confirmaram que a Agemira estacionou cerca de 40 engenheiros e técnicos de voo no aeroporto de Goma para efetuarem reparações. Entre eles estão búlgaros, georgianos e bielorrussos, todos familiarizados com aeronaves russas. A força aérea do Congo emprega também georgianos para pilotar os aviões de caça.
Mercenário romenos
Outra fotografia, colocada online a 2 de janeiro por Fiston Mahamba, o jornalista que administra o portal de verificação de factos Congo Check, forneceu pistas mais concretas, diz a reportagem do taz. A imagem é de um homem branco, já de certa idade, entre dois soldados e armado com uma AK-47 entre dois soldados, numa estrada presumivelmente a norte de Goma. Há indícios de que se trata de Horatiu Potra, um mercenário experiente da Roménia.
Potra foi membro da Legião Estrangeira Francesa nos anos 90 e muito ativo em África nas décadas seguintes. Formou os guarda-costas do então Presidente centro-africano Ange-Felix Patasse e treinou insurgentes no Chade.
Conhece bem a RDC, onde, em 2002, contactou o líder rebelde Jean-Pierre Bemba, que apoiou Patasse na vizinha República Centro-Africana, de acordo com o artigo do taz. Nenhum dos vários peritos internacionais interrogados pela publicação pôde confirmar uma ligação entre Potra e o Grupo Wagner.
Potra é o diretor-geral do grupo mercenário romeno Asociatia RALF, com sede em Sibiu. O website da empresa afirma que treina guarda-costas para VIPs, protege "áreas sensíveis" como minas, e treina forças especiais. A Asociatia não respondeu a inquéritos por correio eletrónico.
O aeroporto de Goma é guardado por mercenários romenos da companhia de Potra, onde técnicos da Agemira supervisionam a manutenção dos aviões. O exército congolês quer garantir que a pista estrategicamente importante, a apenas algumas dezenas de quilómetros da linha da frente, não volte a cair em mãos rebeldes, como aconteceu na última guerra, em 2012. na altura, o M23 saqueou os depósitos do exército no aeroporto, apoderando-se, inclusive, de mísseis de médio alcance russo.
Um funcionário da autoridade de imigração do Congo no aeroporto de Goma confirmou que carimbou passaportes romenos do pessoal militar branco à chegada.
A necessidade de armas russas
Ao longo do último ano, Kinshasa reforçou os laços com a Rússia. Em Agosto, o Ministro da Defesa, Kabanda, foi convidado a participar numa conferência de segurança em Moscovo, onde elogiou o apoio da Rússia.
Moscovo, por sua vez, há muito prometera ajudar a equipar o exército congolês com material bélico moderno, especialmente tanques, helicópteros e aviões de combate.
A promessa não pôde ser cumprida até há pouco tempo, devido ao embargo de armas que o Conselho de Segurança da ONU impôs à RDC em 2003.
Após a passagem de uma nova resolução adotada pelo Conselho de Segurança a 20 de dezembro, os países deixaram de ser obrigados a informar a ONU sobre vendas de armas ou apoio militar ao governo congolês. Dois dias mais tarde, começaram a chegar a Goma mercenários brancos com passaportes romenos.
O exército da RDC precisa urgentemente de ajuda. A sua força aérea é constituída principalmente por aviões russos antigos. Um dos seus dois helicópteros de transporte despenhou-se em ação no ano passado. O resto do equipamento, em emprego constante na luta contra o M23, carece de manutenção. Mas a Rússia precisa das suas próprias armas na guerra contra a Ucrânia. O que reduziu a oferta no mercado mundial diminuiu e fez subir em flecha os preços do armamento.