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Literatura

Mia Couto prepara livro sobre memórias na Beira

27 de abril de 2018

Depois da trilogia "As Areias do Imperador", Mia Couto quer assentar os pés na terra e escrever sobre a cidade onde cresceu, a Beira, no centro de Moçambique. Escritor pretende "reinventar" as memórias de infância.

Escritor Mia Couto durante apresentação de livro em Colónia, na quarta-feira (25.04)Foto: DW/J. Beck

Mia Couto terminou, no ano passado, a trilogia "As Areias do Imperador", que tem como pano de fundo os últimos dias do segundo maior império em África governado por um africano, Ngungunyane, no final do século XIX. O escritor moçambicano diz agora que a sua próxima obra será diferente - mais pessoal.

"Depois de viajar por tempos tão distantes, por gente tão antiga, apeteceu-me tomar uma coisa mais com chão, mais concreta, que seriam as minhas memórias", afirma em entrevista à DW África.

Mia Couto prepara livro sobre memórias na Beira

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O autor quer reinventar o lugar onde nasceu e cresceu: a cidade da Beira, no centro de Moçambique. O próximo livro não será autobiográfico. Mia Couto pretende, antes, celebrar a sua infância.

"Estou a reinventar aquele lugar [a Beira], para que ele permaneça vivo dentro de mim", conta o escritor. "Não vou falar de mim nem da minha família, mas desse tempo terminal de um mundo colonial e como é que ali já se adivinhava qualquer coisa que vinha. São mais as minhas lembranças. Não quero falar de mim. A minha história não interessa tanto assim."

É o que diz Mia Couto. Outras pessoas, particularmente os seus fãs, poderão discordar.

Digressão na Alemanha e 25 de Abril

Mia Couto está a fazer uma digressão pela Alemanha. Em cinco dias, o escritor visita cinco cidades, de leste a oeste do país: Berlim, Leipzig, Colónia, Heidelberg e Frankfurt. É uma maratona, mas o escritor moçambicano parece fazê-la com gosto.

"Eu acho notável que haja gente que se interesse. Há 15 anos não havia tanta gente com interesse por África e por alguma coisa que ainda continua a ser desconhecida. Acho que isso é muito bom num momento em que se criam tantos muros e se procura empurrar o outro para longe", afirma. "A literatura contraria um pouco essa distanciação."

Foto: DW/J. Beck

Em Colónia, Mia Couto apresentou o seu último livro publicado em alemão, "Imani" ("Mulheres de Cinza" no título original). Dezenas de fãs - sobretudo alemães, portugueses e brasileiros - foram ver o escritor.

Apesar da agenda cheia, Mia Couto arranjou tempo para todos os que quiseram falar com ele. Assinava cada livro que lhe era dado para assinar (às vezes, uma mão cheia deles) e respondia a todas as perguntas do público - sobre a sua obra, mas também sobre as suas vivências. Um dos tópicos abordados pelo escritor foi a revolução do 25 de Abril, que os portugueses comemoram esta semana.

"Sem desvalorizar esta festa, para nós, em Moçambique, esse dia foi vivido de uma outra maneira", contou ao auditório em Colónia, que o escutava em silêncio absoluto. "Aqueles que apareciam anunciando o 25 de Abril estavam misturados. Havia inclusive rostos nesse movimento de militares que tinham chefiado o regime colonial em Moçambique e na Guiné. Portanto, não conseguíamos ter completa confiança em relação ao nosso grande objetivo, que era, além de fazer cair aquele regime, conseguirmos a independência nacional."

Há um mês, Mia Couto esteve na sua cidade natal, a Beira, a revisitar os lugares da sua infância e a preparar o livro baseado nas suas memórias. A digressão na Alemanha termina esta sexta-feira (27.04) em Frankfurt. Talvez depois o escritor possa ter mais tempo para continuar a escrever.

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