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DesastresMoçambique

Moçambique: Ativista acusa Chapo de usar cheias para "likes"

19 de janeiro de 2026

Ativista Fátima Mimbire critica políticos moçambicanos por usarem as cheias para autopromoção nas redes sociais. Ela acusa sobretudo o Presidente Daniel Chapo de priorizar a popularidade em vez de soluções para a crise.

Moçambique, Boane 2026 | Habitantes atravessam água da inundação a bordo de um veículo militar
Até agora, há registo de mais de 100 mortes devido às cheias em Moçambique, segundo dados oficiaisFoto: Amilton Neves/AFP/Getty Images

Multiplicam-se nos últimos dias - nas redes sociais de partidos e figuras políticas - publicações sobre as chuvas e inundações que assolam Moçambique. Também partidos como a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder) e a Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) anunciaram a transformação temporária de algumas sedes em centros de abrigo para as vítimas.

Vozes críticas acusam os partidos de estarem a usar a calamidade para autopromoção e aproveitamento político. É o caso da ativista moçambicana, Fátima Mimbire, que fala em "populismo barato".  Mimbire condena, em particular, a postura do Presidente Daniel Chapo e sublinha que falta, por parte das autoridades, uma "comunicação institucional coordenada" e informativa.

DW África: Como avalia a comunicação sobre as cheias em Moçambique?

Fátima Mimbire (FM): Constatamos algum populismo. E o mais preocupante desse populismo é quando ele vem do próprio Estado, por exemplo. Para mim é bastante arrepiante quando o Presidente da República pega num helicóptero para sobrevoar as zonas afeadas com a primeira-dama, sem que esteja acompanhado de pessoal técnico, que realmente analisa e explica o que está a acontecer.

No meio do caminho encontraram pessoas sitiadas – e socorrer aquelas pessoas foi um gesto muito oportuno do Presidente da República – mas acho inadequado que a Presidência da República tenha logo feito um comunicado de imprensa a anunciar que Daniel Chapo salvou 12 pessoas. Esta é que é a questão de fundo. Aquele helicóptero poderia estar nas mãos de quem tem como função principal fazer as buscas e salvamento.

DW África: Tem havido, na sua opinião, um aproveitamento político diante desta situação?

FM: O Presidente da República está preocupado em fazer vídeos e fotos para alimentar a sua página no Facebook. E eu acho que o populismo por parte dos gestores públicos é muito mais imoral e inaceitável do que por parte de privados. O papel de gestor público é implementar medidas arrojadas, assertivas, expeditas, para minimizar o sofrimento das pessoas.

A vida tem de estar em primeiro lugar e não os "likes" ou a busca a todo o custo por reconhecimento público.

DW África: Pegando no que está a dizer, acha então que tem havido mais preocupação em usar, por exemplo, as redes sociais para exibir os feitos do que uma aposta numa comunicação efetiva?

FM: Sim, o poder das redes sociais podia ser usado para assegurar que as pessoas, de facto, tenham acesso à informação que precisam para poderem ser acolhidas e atendidas, mas também para informar a sociedade sobre o que está realmente a acontecer – sobre as medidas do Estado, as necessidades e os locais de entrega de ajuda.

Estima-se que mais de 173 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas e inundações em MoçambiqueFoto: Carlos Uqueio/AP Photo/picture alliance

Falta aqui uma comunicação institucional coordenada. Se se usasse o poder de alcance nas redes sociais para o que é útil, isso seria mais-valia. Mas esta forma de populismo, de autopromoção, não ajuda muito. Precisamos de coordenar e orientar a comunicação. Claro que o Presidente da República pode fazer publicações, mas não da forma como temos acompanhado.

DW África: Em relação à resposta que tem sido dada, ainda faltam preparação e meios, especialmente de prevenção?

FM: Parece que o Governo não se preparou como deve ser para esta situação. Tudo indica que o Governo foi apanhado de surpresa, do ponto de vista da magnitude do problema. Outra pergunta que surge é onde está o plano de contingência?

O que deveríamos estar a ver acontecer neste preciso momento era termos o Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE) a funcionar ininterruptamente, informando os cidadãos sobre o evoluir da situação, as medidas que estão a ser adotadas, onde estão os centros de realojamento, onde buscar ajuda, para onde ligar, quem está sitiado. Não é aceitável que um país que enfrenta ciclicamente estes momentos de chuvas, inundações e ciclones seja apanhado de surpresa, com pessoas a morrer de qualquer maneira.