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Moçambique: "Governantes não se interessam por bem público"

António Cascais
12 de julho de 2023

O regresso da TotalEnergies à exploração de gás em Moçambique é uma boa ou má notícia? Depende muito do comportamento dos responsáveis no país, diz a analista Fátima Mimbire em entrevista à DW África.

Exploração de gás natural em Moçambique
Foto: Roberto Paquete/DW

Segundo agências de notícias internacionais, a TotalEnergies só deverá voltar a Moçambique em 2024 e produzir gás apenas a partir de 2028. A multinacional francesa de energia e petróleo suspendeu as suas atividades no país depois de sofrer um ataque armado em março de 2021 no distrito de Palma, no norte de Cabo Delgado.

Em entrevista à DW África, Fátima Mimbire, consultora na área das indústrias extrativas, ativista e jornalista moçambicana, analisa as consequências no atraso da produção de gás liquefeito em Moçambique, detetando vantagens e desvantagens.

DW África: O atraso na produção de gás no norte de Moçambique por parte da TotalEnergies é boa ou má notícia?

Fátima Mimbire (FM): Eu diria que é ao mesmo tempo uma boa e má notícia. É uma má notícia na medida em que atrasa a perspetiva de ganhos para Moçambique dentro do cronograma esperado inicialmente. Ou seja, se as coisas tivessem corrido a contento, estaríamos agora a fazer a contagem decrescente para o início da extração. Infelizmente, ficou adiado. Há outra implicação negativa bastante imprevisível, que tem a ver com as mudanças que vão acontecendo no próprio mercado com o passar do tempo e que podem ter impacto sobre os ganhos possíveis para Moçambique. À medida que a agenda da transição energética vai ganhando corpo, haverá cada vez menos investidores interessados em colocar dinheiro nas energias não renováveis, como é o caso do gás natural. Vimos ao longo dos últimos anos que há uma migração por parte dos doadores tradicionais dos combustíveis fósseis para as energias novas renováveis. O que significa que nós vamos ter cada vez menos tempo para poder explorar o nosso gás, tendo em conta esta agenda. Portanto, esta é uma má notícia.

Fátima Mimbire: "É preciso reorganizar o setor extrativo"

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DW África: Mas dizia que o atraso pode ser também uma boa notícia?

FM: É uma boa notícia, na medida em que isso nos dá também, como Estado moçambicano e como país, a oportunidade de nos organizarmos bem. Porque eu creio que, ainda que a Total anunciasse que vai iniciar hoje, e a previsão de arranque fosse para 2025 ou 2027, nós não estaríamos preparados para poder maximizar os ganhos resultantes da indústria extrativa e, portanto, do gás natural. Ainda temos sérios problemas ligados à certificação de custos. Temos sérios problemas ligados à monitoria das próprias atividades de exploração, das quais depende a arrecadação de receitas justas para o Estado moçambicano.

DW África: Ou seja, o atraso pode ser uma boa notícia, porque Moçambique vai ter a oportunidade de se preparar melhor?

FM: Se calhar é o momento de nós pararmos de brincar com os desafios que vêm aí da transição energética. O que é que isso significa? Como é que nós podemos maximizar os ganhos do gás natural? Quais são as alternativas que nós temos? Então, peguemos esta oportunidade para tentar refletir sobre o setor: o que é que precisa ser melhorado? O que é que nós precisamos de reorganizar dentro da própria estrutura de gestão dos projetos de gás natural, ao nível do próprio Estado, do próprio Governo? Como é que nós mobilizamos as comunidades e a sociedade para participar, para contribuir?

DW África: E acha que o Governo moçambicano vai aprender a lição? Vai aproveitar esta oportunidade?

FM: Infelizmente eu sou muito cética em relação a isso. Porque, historicamente, os nossos governantes não estão muito preocupados em trabalhar para o bem público. Estão mais preocupados em saber com "como é que eu tiro o benefício privado para mim e para os meus familiares e para os meus amigos?" Nós vamos perder mais uma oportunidade de nos organizar, para podermos maximizar os benefícios para o Estado.

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