Na província de Manica, Moçambique, homens dispararam na noite de ontem contra o carro do jornalista Carlitos Cadangue, do canal privado moçambicano STV. Para Venâncio Mondlane, trata-se de um "ataque contra à imprensa".
O MISA-Moçambique comentou o caso, reiterando a urgência de as autoridades garantirem a segurança do jornalistaFoto: Fotolia/Aaron Amat
Publicidade
O jornalista Carlitos Cadangue, correspondente da STV em Chimoio, capital provincial de Manica, foi vítima de um atentado à mão armada na noite desta quarta-feira (04.02). A viatura em que seguia foi atingida por vários disparos no momento em que chegava à sua residência.
"Estava a conduzir e, quando faltavam cerca de 300 metros para chegar a casa, vi uma viatura à minha frente, uma Ford Ranger preta. Na matrícula só consegui ver as letras A, H e E, não consegui ver os números”, relatou o jornalista.
O atentado ocorreu no bairro de Trangapasse, nos arredores da cidade de Chimoio. Segundo informações preliminares, indivíduos desconhecidos e encapuzados abriram fogo contra a viatura e colocaram-se em fuga.
Circunstâncias
As circunstâncias e motivações do ataque ainda são desconhecidas e, apesar do ataque, ele e o filho saíram ilesos. Cadangue contou que foi depois de o filho alertar, dizendo "bandidos”, que virou bruscamente o volante e ouviu rajadas de tiros. "Foram vários disparos”, afirmou.
O atentado ocorreu nos arredores da cidade de Chimoio, provínca de ManicaFoto: DW
Segundo o jornalista, os dois homens estavam encapuzados, trajavam uniforme do tipo "pingo de chuva”, uma das fardas usadas pela polícia moçambicana, e portavam pistolas.
"Quando o tiro entrou pelo lado do passageiro, eles acreditaram que eu tinha morrido. Penso que foi isso. Então, a viatura deles saiu em alta velocidade e eu também segui rapidamente para casa”, detalhou.
O jornalista denunciou ainda que tem recebido "alertas” de que estaria a ser procurado devido às suas reportagens relacionadas com a mineração naquela província.
Publicidade
Reacções
Em reacção ao atentado, o político moçambicano Venâncio Mondlane afirmou na noite de ontem que o ataque contra o correspondente da STV constitui um atentado à liberdade de imprensa e ao direito à informação em Moçambique.
"A violência jamais silenciará as vozes que, com coragem, se colocam ao lado do povo e da verdade”, escreveu Mondlane numa mensagem divulgada nas redes sociais.
O Instituto de Media da África Austral (MISA-Moçambique) comentou o caso, reiterando a urgência de as autoridades esclarecerem o atentado e garantirem a segurança do jornalista.
Por sua vez, o Secretariado Executivo do Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) considerou inaceitável que jornalistas "continuem a ser alvos de intimidação, violência e perseguição pelo exercício do seu dever profissional de informar”. Em nota divulgada na noite de ontem, o sindicato apelou a uma investigação célere do caso.
Em comunicado, o canal privado moçambicano STV manifestou hoje "indignação e repúdio" pelo que classificou como um "atentado criminoso" contra o seu correspondente, considerando o atentado como uma "tentativa de intimidar a comunicação social".
Também o Conselho Superior da Comunicação Social (CSCS) de Moçambique repudiou hoje o atentado, a tiro, contra o jornalista, classificando-o "inadmissível e intolerável numa sociedade democrática".
Última atualização às 11h29 (Tempo Universal Coordenado - UTC)
Carregar mercadorias à cabeça é uma profissão comum em Manica. O trabalho é pesado e implica competir com colegas e transportes de passageiros pelos clientes. Ainda assim, também há crianças entre os carregadores.
Foto: DW/B. Jequete
Usar a cabeça
Os carregadores transportam diversos tipos de mercadorias ou bagagem de um ponto para o outro, usando a cabeça como suporte. Este é o ganha-pão de muitos jovens moçambicanos, que assim conseguem garantir a sustentabilidade da família. Mesmo que a bagagem seja pesada, os carregadores não têm "mãos a medir".
Foto: DW/B. Jequete
Quando não há emprego
Na maioria, os carregadores são jovens escolarizados, mas fazem carga e descarga de produtos em viaturas, usando a cabeça para ganhar dinheiro. Há também chefes de família nesta profissão: os filhos frequentam a escola graças a esta atividade. Mas muitas pessoas evitam assumir-se como carregadores, por vergonha.
Foto: DW/B. Jequete
Amigos, amigos... Negócios à parte
Os carregadores são amigos, mas apenas de "trincheira". Quando acaba de chegar um camião contendo mercadoria para ser carregada, há muitas vezes troca de "mimos" na disputa pelo trabalho. Não são raros os empurrões para decidir quem ganha mais lotes para transportar: quanto maior for o número de mercadorias, maior será o valor recebido ao final do dia.
Foto: DW/B. Jequete
Carregadores VS Chapas
Também os transportes de passageiros ou chapas são vistos como adversários diretos dos carregadores. Os motoristas acabam por usar a parte de cima dos veículos como bagageira. "Nos últimos dias, não temos tido movimento, porque muitos são enganados pelos cobradores [de bilhetes dos chapas] para que as suas bagagens sejam levadas nos <i>minibuses</i>", diz um carregador ouvido pela DW em Manica.
Foto: DW/B. Jequete
Poupar no transporte
Algumas "mamanas", mulheres moçambicanas, recusam recorrer aos serviços dos carregadores. Percorrem longas distâncias com muito peso à cabeça, mas não desistem de o fazer para poupar dinheiro. Por vezes, os carregadores cobram valores que chegam quase à metade do preço do produto a ser transportado. "Não faz sentido mandar carregar, preferimos fazê-lo sozinhas", afirmam.
Foto: DW/B. Jequete
Descansar o pescoço
Elídio Morais, pai de três filhos, decidiu comprar uma bicicleta após cinco anos a carregar mercadorias à cabeça, numa altura em que já sentia que "o pescoço se atrofiava". Usa a bicicleta para fazer o mesmo trabalho e consegue alimentar a sua família. Encoraja os jovens que se envolvem na criminalidade alegando a falta de emprego a enveredar pela ocupação de carregador: "Há espaço para todos".
Foto: DW/B. Jequete
Trabalho infantil
No Mercado 38mm, o maior mercado grossista em Chimoio, há quem pague às crianças que por ali circulam em busca de produtos rejeitados para carregarem mercadorias. Nestes casos, é o proprietário da carga quem estipula o preço. Mas há quem "contrate" estas crianças a baixo custo. E muitas acabam por abandonar a escola. O peso excessivo das cargas é um risco nesta fase de desenvolvimento.
Foto: DW/B. Jequete
Carregar para estudar
Zacarias Fombe, de 16 anos, é carregador. Frequenta a 10ª classe e carrega mercadorias para pagar os estudos. Quer ser funcionário público e ajudar os irmãos a estudar. "Um dia estava a passear neste mercado e um senhor chamou-me para transportar a sua bagagem. Vi que o meu problema seria resolvido com esta atividade", conta.
Foto: DW/B. Jequete
Pagar para carregar: um desperdício?
Joelma Banda, acompanhada pela irmã, conta à DW que está na fase inicial do seu negócio e, por isso, opta por carregar sozinha o produto. Pagar a um carregador é um desperdício: o valor cobrado pode ser usado para investir no seu negócio ou comprar comida para casa. Quando o negócio aumentar, diz Joelma, já poderá contratar carregadores.
Foto: DW/B. Jequete
A alma do negócio
Abrãao Fazbem, de 18 anos, foi carregador. Mas não por muito tempo. Entrou na atividade com o intuito de ganhar dinheiro para começar o seu próprio negócio. "Fi-lo durante alguns meses. Quando consegui juntar um valor, deixei e parti para o mundo do negócio. Vendo sacos de plástico e temperos", conta o jovem. De manhã, trabalha no mercado, à tarde vai à escola.
Foto: DW/B. Jequete
De carregador para "tchoveiro"
Os "tchovas", carrinhos de mão de tração humana, mudaram a vida de alguns carregadores. Mas os velhos hábitos mantêm-se: quando a carga é pouca, os "tchoveiros" ainda usam a cabeça. Estes e outros veículos são competição direta para os carregadores. Em Manica, cidadãos com viatura própria aproveitam para passar no mercado a caminho do trabalho para carregarem produtos e ganharem um dinheiro extra.
Foto: DW/B. Jequete
As vantagens dos carrinhos de mão
Por vezes, a carga é muita e os carregadores recusam transportar a mercadoria. É aqui
que entram em ação os "tchovas" - um serviço mais caro, mas, ainda assim, mais barato do que alugar uma carrinha. Os carrinhos de mão são os mais solicitados pelos agentes económicos para fazer o transporte dos produtos do mercado grossista para as suas lojas.