MISA – Moçambique denuncia tortura psicológica, intimidação e confisco de material de jornalistas por militares em Cabo Delgado. A organização exige respostas do Ministério da Defesa.
Sede do MISA-Moçambique em Maputo (foto de arquivo)Foto: Nádia Issufo/DW
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O Instituto para a Comunicação Social da África Austral (MISA - Moçambique) condenou o que descreve como atos de tortura psicológica, intimidação e confisco ilegal de equipamento jornalístico por parte de agentes das Forças de Defesa e Segurança (FDS), contra 16 jornalistas moçambicanos no distrito de Macomia, em Cabo Delgado, na semana passada.
Num comunicado à que a DW teve acesso, datado de 03 de julho, a organização exige que o Ministério da Defesa Nacional se pronuncie com urgência sobre a ação, que o MISA considera uma grave violação da liberdade de imprensa e dos direitos fundamentais dos profissionais da comunicação.
Segundo documento da organização MISA Moçambique, o incidente envolveu jornalistas que tinham autorização oficial para captar imagens de infraestruturas destruídas por terroristas na região de Macomia, em Moçambique.
Após entrevista com o administrador distrital, Tomás Badae, os jornalistas foram impedidos por agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) de filmarem as infraestruturas destruídas - apesar de apresentarem a devida autorização.
A equipa de jornalistas obteve autorização expressa do administrador distrital de Macomia para captar imagens de infraestruturas destruídas, incluindo a Secretaria Distrital e a residência oficial do próprio administrador.
Segundo documento do MISA-Moçambique, o incidente envolveu jornalistas que tinham autorização oficial para captar imagens (foto de arquivo)Foto: DW
Agentes
No entanto, ao chegarem à residência – atualmente ocupada por agentes da Unidade de Intervenção Rápida (UIR) – foram interpelados por cerca de cinco agentes, alguns à paisana. Apesar de apresentarem a autorização e reconhecerem que a gravação dependia da anuência dos militares, a equipa foi impedida de prosseguir, uma vez que os agentes alegaram não poder autorizar a filmagem sem ordens superiores.
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Os jornalistas optaram por abandonar o local sem realizar as imagens. Pouco antes de deixar a vila, um homem à paisana, supostamente ligado às Forças de Defesa de Moçambique (FDS), sinalizou para a viatura dos jornalistas como se pedisse boleia. Ao não ser atendido, o indivíduo fotografou a matrícula da viatura.
Horas depois, já em Miangaleua, a cerca de 70 quilómetros de Macomia, o grupo foi novamente interpelado por militares das FDS. Os jornalistas foram forçados a sair da viatura, tiveram os documentos recolhidos e foram alinhados para serem fotografados.
Parte do material de trabalho foi temporariamente confiscado, sem mandado ou explicação legal. Em seguida, foram levados de volta a Macomia, onde alegam terem enfrentado interrogatórios e tortura psicológica por parte das forças militares.
Cabo Delgado tem sido considerada uma província quase "proibida" para jornalistas, marcada por casos de desaparecimento. A vítima mais recente é Arlindo Chissale, do portal Pinnacle News, desaparecido em 7 de janeiro. À época, também apoiava o partido Podemos.
Antes dele, em 7 de abril de 2020, o jornalista Ibrahimo Mbaruco, de uma rádio comunitária em Palma, também desapareceu sem explicações. Segundo o MISA-Moçambique, que pede esclarecimento sobre o caso, o episódio retrata uma grave violação à liberdade de imprensa e aos direitos dos jornalistas moçambicanos.
O rasto do terrorismo em Macomia teima em não desaparecer
O rasto do terrorismo em Macomia teima em não desaparecer
Foto: DW
Quarta invasão
No dia 10 de maio de 2024, um grupo de terroristas invadiu Macomia, naquela que foi a quarta vez consecutiva que aquela vila de Cabo Delgado se viu entregue aos terroristas. Permaneceram na sede distrital por cerca de dois dias. Após confrontos com as tropas moçambicanas e aliados, o grupo armado abandonou a vila. Mas a destruição permanece.
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Rasto de destruição
Ao abandonarem o local, os terroristas deixaram edifícios públicos como registo civil, a direção de infraestruturas e a secretaria distrital completamente vandalizados. Alguns desses locais continuam de porta fechadas. O comércio vai reabrindo a conta-gotas e a medo.
Foto: DW
Agências humanitárias não escaparam
Também os escritórios e infraestruturas que albergam organizações humanitárias como a Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, entre outras, foram arrasados pelos terroristas. Desses locais, foram subtraídos medicamentos, viaturas e outros bens.
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Reconstrução é urgente
Autoridades governamentais de Cabo Delgado visitaram Macomia no início de junho para avaliar os danos causados pela presença terrorista. Apesar de admitirem que é uma "prioridade repor aquelas infraestruturas para gradualmente os funcionários prestarem os serviços necessários à população", os serviços continuam a funcionar a meio-gás.
Foto: DW
Paz e medo entre os habitantes
A vila tenta regressar à normalidade, mas o clima ainda é de medo. Os residentes reativaram as atividades de autossuficiência, mas não escondem o receio de um novo ataque, preocupação que paira a todo o instante.
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Chitunda, em Muidumbe, sem serviços públicos
Os cerca de 11 mil habitantes que tinham saído do posto administrativo de Chitunda, em Muidumbe, devido à insegurança, voltaram a casa. Mas nenhuma escola ou hospital está neste momento a funcionar, deixando milhares de crianças fora das salas de aula e os residentes sem acesso a cuidados de saúde.
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Governo promete reabrir escolas e hospitais
Para aceder a cuidados de saúde, a população da aldeia de Miangaleua, no posto administrativo de Chitunda, em Muidumbe, recorre ao distrito de Macomia. Mas o governo local garante que em breve os centros de saúde e as escolas na região voltarão a funcionar.
Foto: DW
Chuvas intensas agravaram a fome
A população de Miangaleua, em Muidumbe, que regressa paulatinamente a casa está a dedicar-se à produção agrícola. Porém, as chuvas intensas que caíram entre finais de 2023 e princípios deste ano arrastaram vários hectares de campos agrícolas junto ao rio Messalo. A produção de arroz e de outras culturas perdeu-se, aumentando a fome na região.
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Autoridades exortam população a produzir comida
O governo local ofereceu sementes de milho e feijões, enxadas, catanas e outros materiais de produção para que os camponeses voltem a semear.
Foto: DW
Corrente elétrica em falta
Os habitantes expressam também o desejo de ver restabelecida a corrente elétrica em Macomia, uma vez que as instalações elétricas também foram afetadas pelos ataques terroristas dos últimos anos. Pequenos painéis solares garantem serviços mínimos, mas não permitem a conservação do peixe que é retirado do rio, por exemplo.
Foto: DW
Mais segurança
Os residentes da aldeia de Miangaleua, em Muidumbe, pedem o reforço da presença das Forças de Defesa e Segurança, para que nunca mais tenham de fugir das próprias terras devido ao terrorismo. Mas a ajuda tarda em chegar.