Moçambique: Pagamento ao FMI agrava escassez de divisas
25 de maio de 2026
A crise combinada de divisas, combustíveis e transportes parece estar a arrastar Moçambique para o colapso. Desde o ano passado, o país tem vindo a gerir, de forma paliativa, a escassez de divisas.
Mas o recente pagamento antecipadao da dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) terá esvaziado as reservas públicas, o que está a afetar a economia nacional, já marcada pela crise dos combustíveis, dos transportes e pelas limitações das importações de bens e serviços.
A falta de divisas em Moçambique não é um problema novo. Um estudo do Centro de Integridade Pública (CIP), de 2025, aponta a estabilidade artificial da taxa de câmbio como a principal razão dessa escassez. Ainda assim, Moçambique conseguiu gerir as poucas reservas de que dispunha, apesar das recorrentes reclamações do empresariado nacional quanto ao acesso à moeda estrangeira.
Agora, as coisas parecem ter mudado. O jornal Evidências, na sua última edição, na passada quarta-feira (20.05), escreve que o pagamento dos 700 milhões de dólares da dívida ao FMI terá esvaziado as reservas internacionais do banco central. Perante isso, os bancos comerciais não conseguem emitir garantias para as importações.
O que é que isso significa?
Para a economista e investigadora do Centro de Integridade Pública (CIP), Teresa Boene, significa que "pode haver impacto, inclusive nas finanças públicas, porque estas são as divisas que o Estado usa para pagar a dívida externa”.
Com poucas divisas para suportar as importações, o país enfrenta há quase dois meses uma grave crise de combustíveis e de transportes. Para minimizar os danos, o Executivo aprovou o aumento dos preços dos combustíveis e prometeu subsidiar os transportes públicos. Entretanto, pouco ou nada mudou. Continua a faltar combustível, o que está a sufocar os transportadores de mercadorias e de longo curso.
"Este é um problema sério de dificuldade de importação de mercadorias porque não temos moeda estrangeira. Está difícil trabalhar nas condições em que estamos, e tudo isso tem um impacto negativo no bolso do transportador”, lamenta António Chele, presidente da Associação dos Transportes Rodoviários de Sofala (ASTROS).
Chele assegura que, para minimizar os custos de operação, os transportadores associados à ASTROS estão a ensaiar a subida dos preços no transporte de cargas, o que poderá encarecer o custo dos produtos para o consumidor final.
"Precisamos que a sociedade perceba que não se trata de má-fé dos transportadores. É mesmo para acompanharmos a dinâmica do processo dos combustíveis, porque, caso contrário, não sobrevivemos”, sublinha Chele.
Convulsões sociais
O Governo parece não ter soluções à vista para o triplo problema: crise de divisas, combustíveis e transportes. Em conferência de imprensa, na última terça-feira (19.05), o porta-voz do Executivo, Inocêncio Impissa, admitiu que ainda não há uma solução para a crise dos transportes e dos combustíveis.
Impissa afirmou que o Governo está a trabalhar com várias associações de transportadores e com governos provinciais e municipais para conter os ânimos.
No entanto, sem uma solução a curto e médio prazo, esta crise pode provocar convulsões sociais, alerta a investigadora Teresa Boene.
"Esta situação terá impacto na vida da população através da inflação, que já está a subir, e, consequentemente, no aumento do custo de vida, o que pode contribuir para convulsões sociais”, explica a economista.
António Chele acrescenta que, se não forem tomadas medidas mais arrojadas pelo Executivo para reverter a atual crise, o futuro será sombrio. "Vai ser um colapso total. Precisamos reagir rapidamente antes de derraparmos”, alerta.
Falando em medidas, a economista Teresa Boene recomenda a flexibilização cambial e a diversificação da economia nacional. Não aconselha, porém, a aposta em subsídios aos transportadores, considerando que isso "a curto e longo prazo poderá ter impacto nas finanças públicas”.
Reservas "confortáveis"
Entretanto, nesta segunda-feira (25.06), o governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, negou que o pagamento integral da dívida ao FMI tenha afetado as contas da instituição, "pelo contrário".
"O Banco de Moçambique não ficou mais fraco, débil e vulnerável por causa desta decisão. Até diria o contrário. Hoje estamos seguros, em função de certos riscos que se estavam a ver, estamos bem melhores do que estaríamos se não tivéssemos tomado esta decisão", afirmou Zandamela, acrescentando que o Banco Central está com um "nível de reserva extremamente confortável".
"Está hoje praticamente a cinco meses de importação, que é bem alto, então isso não enfraqueceu", concluiu.
Artigo atualizado