Pronunciamentos de ex-líder do Exército "não são inocentes"
24 de dezembro de 2025
Recentemente, o antigo vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas de Moçambique "desvendou", com algum pormenor, as vulnerabilidades das Forças de Defesa e Segurança, contrariando a regra de ouro da ala castrense, o secretismo.
Bertolino Capetine expôs também uma aparente falta de seriedade da anterior governação de Filipe Nyusi contando, por exemplo, que enquanto Moçambique garantia que estava "tudo bem" em Cabo Delgado, a contraparte tanzaniana contradizia.
Capetine foi exonerado do cargo em 2024 pelo então Presidente Filipe Nyusi, após ter denunciado justamente os "cancros" da Defesa e criticado um equivocado papel da Polícia no Exército.
Os recentes pronunciamentos, feitos no contexto dos contributos ao Diálogo Nacional Inclusivo, terão sido inocentes? Para o analista político, Arcénio Cuco, foi um "discurso preparado".
DW África: Como analisa as denúncias do antigo vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas?
Arcénio Cuco (AC): Ele disse o óbvio, porque de alguma forma repetiu o que os analistas moçambicanos têm vindo a dizer, desde o início do terrorismo em Moçambique, e que se consubstanciou naquilo que dizemos da vulnerabilidade das nossas Forças de Defesa e Segurança (FDS) de Moçambique. Ou seja, desde o Acordo Geral de Paz, nunca houve apetrechamento ou criação de condições para que as FDS pudessem fazer face a qualquer situação que pudesse colocar Moçambique numa situação de instabilidade.
DW África: Bertolino Capetine expôs as deficiências do Exército. Para um setor que se pauta pelo secretismo, alegando "razões de segurança", a revelação das fragilidades não deixa o Exército mais vulnerável, como receia a ala castrense? Houve um paradoxo?
AC: É muito difícil dizer que houve um paradoxo, porque a razão da exoneração do Capetine tem a ver justamente com a sua reclamação, enquanto “número dois” das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, sobre a situação de Cabo Delgado. Houve uma tentativa, logo depois das manifestações de 2008, durante o Governo de Armando Guebuza, de se criar condições para as FDS em Moçambique. Isso incluiu, inclusive, as dívidas ocultas que todos nós soubemos que levaram à criação da ProIndicus, com a justificativa para se comprar todos aqueles barcos. Tinham também uma relação direta com a questão da defesa do território nacional. Mas Guebuza, na altura, foi bastante criticado porque via-se que essa ação parecia tender para uma militarização do Estado. Mas hoje penso que há muitas vozes que percebem que talvez houvesse um pouco de razoabilidade no que diz respeito às ações que Guebuza teve em relação às FDS.
DW África: Capetine expôs igualmente a governação de Filipe Nyusi ao contar, por exemplo, que ela foi desmascarada pelas autoridades tanzanianas quando, alegadamente, mentiu sobre a situação de segurança em Cabo Delgado. É uma prova do amadorismo vigente no anterior consulado?
AC: É preciso questionar se é amadorismo ou se foi porque se esperava que os resultados fossem estes que Moçambique está a vivenciar neste momento. Há vários questionamentos. Se se trata, na verdade, de terrorismo ou se há outras razões ocultas que não são do domínio dos moçambicanos sobre a razão da violência extrema que se vive em Cabo Delgado. Seria muito difícil que chegássemos à conclusão de que houve ingenuidade do Governo de Filipe Nyusi, porque aí teríamos de buscar entender as razões que levaram o Governo a tomar as posições que foram criticadas pela Tanzânia.
DW África: Foi uma contribuição inocente ou um trabalho abençoado pelo poder do dia para se livrar de uma carga que aparentemente não seria sua?
AC: Eu não diria que foi uma contribuição inocente, porque há antecedentes para esse discurso. Como disse, Capetine foi exonerado justamente no momento em que expôs as dificuldades que as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique tinham. Então dizer que foi inocente, seria ingenuidade nossa porque é preciso que se coloque na mesa que se trata um discurso preparado, porque sabia muito bem que a ideia central era contribuir nesse diálogo nacional que busca necessariamente a reconciliação dos moçambicanos.