Moçambique: Terroristas geram medo em Muidumbe e Ancuabe
4 de dezembro de 2025
Os populares do distrito de Muidumbe têm "medo" de se deslocarem para os campos agrícolas, face à circulação de alegados rebeldes que protagonizam ataques armados.
"Estamos mal, os homens circulam em todas as zonas baixas das aldeias Muambula, Namacande e Namacule, e nós temos medo porque estão a alastrar-se e isso dificulta quem realmente quer ir roduzir", disse à agência de notícias Lusa uma fonte, a partir de Muidumbe.
Os supostos terroristas circulam no perímetro entre a zona baixa de Lipelwa e Ingundi, em Muambula, Litapata, Namacande, Chilivalo e Namacule, todas comunidades de Muidumbe.
A circulação começou com intensidade em novembro passado, momento em que algumas comunidades foram atacadas, resultando em mortos, feridos e raptados.
"Isso começou em novembro, na mesma altura em que atacaram Muambula e Nampanha, daí para cá nunca mais pararam, por isso temos medo de ir às nossas machambas [campos agrílocas]", disse outra fonte, também a partir de Muidumbe.
Os últimos ataques de alegados rebeldes em distritos de Cabo Delgado têm sido registados, maioritariamente, em campos agrícolas, com populares a relatar decapitações, raptos e corpos encontrados naquelas regiões.
Encontrados restos mortais em Ancuabe
Populares também relataram hoje à Lusa que encontraram restos mortais de três pessoas que terão sido baleadas por supostos rebeldes nas matas de Intutupue, a cerca de 40 quilómetros da sede de Ancuabe.
Segundo o líder de uma localidade próxima de Intutupue, as vítimas eram residentes da aldeia Nacussa e Natocua, no distrito de Ancuabe, e foram surpreendidas quando estavam a caçar ratazanas, no perímetro entre as comunidades de Intutupue e Missufine, ao longo da Estrada Nacional 1 (EN1).
"Há quatro dias os terroristas atravessaram a estrada nacional EN1, em direção ao norte e, nesta passagem, encontraram três pessoas a caçarem ratazanas, foi quando balearam mortalmente por suspeitarem de serem cristãos", disse o líder local, a partir de Ancuabe.
As mortes aconteceram no domingo passado e os corpos foram encontrados e sepultados na segunda-feira, no mesmo local, após suspeita de populares face à demora no regresso da caça.
Segundo o líder comunitário, há uma semana que as comunidades de Intutupue, Aldeia Miguel, em Ancuabe e Nanlia e Nancaramo, em Metuge, alertam para a circulação frequente de supostos terroristas, sobretudo atravessando a EN1 para o norte, após ataques, em Memba, província vizinha de Nampula.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) estima que Cabo Delgado foi palco de 14 eventos violentos entre 10 e 23 de novembro, envolvendo extremistas do Estado Islâmico, dos quais resultaram 12 mortos.
Sem plano para travar violência
A oposição parlamentar moçambicana criticou hoje a proposta do Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE) 2026, por considerar que não apresenta estratégia para travar a violência extremista no norte do país e proteger os deslocados.
"O PESOE 2026 não apresenta metas concretas e nem estratégia clara para reduzir ataques terroristas, proteger civis em Nampula e Cabo Delgado [províncias do norte alvos de ataques] e restabelecer a segurança territorial nos próximos 12 meses. Como falar de unidade nacional", questionou o deputado Jafete Caetano, do partido Povo Otimista para o Desenvolvimento de Moçambique (Podemos).
A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) também criticou o documento em debate, pedindo o seu chumbo referindo que também não tem plano de combate ao tráfico de drogas e raptos, incluindo o "fraco investimento" nos setores sociais como educação e saúde.
"Senhor ministro da Defesa, o povo manda-me pedir paz na zona norte, onde Cabo Delgado se encontra à deriva, Niassa já foi atacada e neste momento Nampula está em pânico, na medida em que os ataques são constantes", apontou a deputada da Renamo Abiba Abá, pedindo chumbo ao PESOE, por considerar que não protege as comunidades dos ataques.
O Movimento Democrático de Moçambique (MDM) também dá voto negativo ao PESOE 2026, justificando que representa falta de investimentos em infraestruturas vitais, para além de ignorar o conflito no norte do país, que gera milhares de deslocados.
"Não tenhamos dúvidas que este PESOE tem a intenção de branquear a miséria que afeta milhares de moçambicanos, observa-se que os setores da educação e saúde estão longe de responder as atuais dinâmicas, porque o Governo não aloca recursos em alinhamento com compromissos internacionais assumidos", disse o deputado Francisco de Sousa.
Já a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), o partido no poder, pediu voto a favor do PESOE 2026, por considerar que vai resolver os problemas dos moçambicanos, alavancando a sua economia após destruições e vandalizações de bens durante protestos pós-eleitorais, elogiando a reabilitação de infraestruturas antes destruídas durante ataques terroristas.