Mudança na política migratória afeta africanos no Brasil?
Júlia Faria
15 de janeiro de 2019
Pesquisadores afirmam que imigrantes ainda são protegidos pela lei brasileira, mas alertam para impactos de política mais restritiva. Atualmente, cerca de 35 mil africanos, a maioria angolanos, residem no Brasil.
Imigrantes africanos em trabalho informal em Porto Alegre (2015)Foto: DW/L. Nagel
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Do reconhecido posto de nação acolhedora, o Brasil dá passos em direção a uma política migratória mais restritiva. No dia 8 de janeiro, o governo do recém-empossado presidente Jair Bolsonaro anunciou a saída do Pacto Global de Migração da ONU, um conjunto de boas práticas, sem efeito legal assinado por mais de 160 nações. Justamente pelo pacto não estabelecer nenhuma obrigação aos signatários, a desassociação brasileira não deve ter impactos imediatos. Mas, diante desse cenário, surge a questão: o que a guinada na postura brasileira acarreta na recepção a imigrantes e refugiados?
Tradicionalmente, o Brasil não tem forte presença na rota de imigração mundial. A Polícia Federal brasileira estima em 0,4% o percentual de imigrantes no total da população. Apesar disso, nas últimas décadas o país registou um boom na chegada de africanos.
Imigrante no mercado informal em Porto Alegre (2015)Foto: DW/L. Nagel
No começo dos anos 2000, pouco mais de mil viviam legalmente em território brasileiro. Hoje, são quase 35 mil. Os angolanos lideram a lista: são cerca de 8 mil. Na sequência, aparecem os senegaleses, nigerianos e guineenses. Nos últimos sete anos, do total de pedidos por reconhecimento da condição de refugiado, 30% vieram de imigrantes africanos de Angola, Senegal, Nigéria, República Democrática do Congo e Gana.
Para o advogado Cleyton Abreu, que já coordenou o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados, os imigrantes africanos que vivem no Brasil não precisam temer a saída do Pacto Global da ONU. Apesar da decisão brasileira, o país ainda tem uma legislação que protege o imigrante.
"O Brasil tem um histórico de boa legislação, de boas práticas em relação à imigração. A gente tem uma constituição garantidora de direitos, uma nova lei de migrações também garantidora de direitos. Não há o que se temer para o migrante", afirma o advogado.
Lei de migraçãoem risco?
A legislação a que se refere o advogado tem como ponto central a lei de migração, sancionada há menos de dois anos, sob aplausos de organizações de direitos humanos. A norma deixou de considerar o imigrante como uma ameaça à segurança nacional. O pesquisador da Universidade de São Paulo, Allan Rodrigo de Campos Silva, que estuda a imigração africana para o Brasil, acredita, porém, que a lei fica no olho do furacão, com a nova sinalização do governo federal no que diz respeito à política migratória."Nada impede que uma nova lei seja estudada já o quanto antes. O governo Bolsonaro centra muito fogo na questão ideológica e um dos fundamentos dessa oposição ideológica depende muito da xenofobia, esse tipo de nacionalismo regressivo que estamos vendo no mundo inteiro. Acho que é uma bandeira que o Bolsonaro está levantando e eu espero que o próximo passo seja uma nova lei migratória, de caráter mais reacionário e anti-humanitário”, diz.
Foto: picture alliance/dpa/E. Peres
Aumento da xenofobia
Pelo Twitter, o presidente Jair Bolsonaro comunicou que o Brasil jamais recusará ajuda aos que precisam, mas, segundo ele, a imigração não pode ser indiscriminada. Quem imigrar para o Brasil deverá, nas palavras de Bolsonaro, "estar sujeito às nossas leis, regras e costumes, bem como deverá cantar nosso hino e respeitar nossa cultura”. A declaração se alinha ao já conhecido tom nacionalista adotado desde as eleições pelo atual presidente. A defesa de um patriotismo exacerbado pode acentuar a xenofobia já vivida por imigrantes e refugiados no país, como alerta o advogado Cleyton Abreu:
"Ela auxilia o agravamento da situação, porque algumas pessoas acabam se sentindo à vontade para cometer esse tipo de violência. Mas xenofobia é crime. Continua sendo crime.”
Mudança na política migratória afeta africanos no Brasil?
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Africanos em busca de uma vida melhor
Para os pesquisadores, são variados os motivos que levam africanos a imigrarem para o Brasil. Uma motivação recorrente está relacionada à presença económica brasileira em países como Angola e Moçambique. Além do conforto de encontrarem falantes da mesma língua, os imigrantes oriundos desses países se apegam à ideia do Brasil como uma potência económica, pronta a lhes oferecer um bom posto de trabalho.
A expectativa, no entanto, é frustrada por uma realidade marcada por condições precárias e até mesmo análogas à escravidão. O geógrafo Allan Rodrigo de Campos Silva explica que muitos imigrantes africanos permanecem no Brasil por longo tempo em um processo de avaliação para concessão da condição de refugiado. Nessa situação, eles chegam a ter uma carteira de trabalho brasileira, mas acabam restritos a empregos temporários.
"O Brasil cria esse tipo de limbo jurídico, que acaba sendo muito apropriado para um determinado setor da economia brasileira, que faz um uso agressivo dessa força de trabalho em situação vulnerável. É um arranjo muito problemático, muito violento para o trabalhador. Há denúncias que demonstram que esses trabalhadores ficam sujeitos a condições de trabalho análogas a escravos, quando eles são obrigados a cumprir segunda e terceira jornada de trabalho não-remunerado" explica o pesquisador.
Os dez músicos brasileiros que mais se empenharam para fazer a ponte África-Brasil
A música torna-se um dos maiores aliados para eliminar diferenças e polémicas como, por exemplo, se o samba é brasileiro ou de Angola. Estes dez artistas colocam África em destaque de forma inovadora e revolucionária.
Foto: W. Montenegro
Viagens em livros e muita música
Martinho da Vila faz um verdadeiro manifesto anti-racista no livro "Kizombas, Andanças e Festanças", lançado pela primeira vez em 1972. O cantor e compositor, que assina alguns dos maiores sucessos da música brasileira, aparece no topo da lista dos músicos brasileiros que mais contribuíram para a ponte Brasil-África de acordo com diferentes instituições e especialistas ouvidos pela DW África.
Foto: Getty Images/R. Dias
"Marrom" graças ao amor pelas origens
Alcione Dias Nazareth, a Marrom, viajou diversas vezes para apresentações em países africanos, como Angola e Moçambique. Depois de 25 anos sem ir a Cabo Verde, a maranhense fez uma apresentação, em 2011, para celebrar os seus 40 anos de carreira. Do arquipélogo, inclusive, gravou "Regresso" (Mamãe Velha), composição histórica de Agostinho José que usou um poema de Amílcar Cabral.
Foto: Getty Images/F.Calfat
Sons e política em oração
Gilberto Gil, músico e ex-ministro da Cultura do Brasil, procurou desconstruir equívocos na música "Mão da Limpeza", em 1983, levando em conta o pejorativo termo de que "negro quando não suja na entrada, suja na saída". Cantada ao lado de Chico Buarque, valoriza a contribuição dos afro-brasileiros na gastronomia e cultura brasileiras. Em 1985, lançou a "Oração Pela Libertação da África do Sul".
Foto: FAO/Giulio Napolitano
"A carne mais barata do mercado é a carne negra"
Elza Soares é militante assumida numa carreira de mais de 60 anos e apresenta em muitas das suas músicas a realidade do negro, tomando como ponto central a mulher. Nascida na favela da Moça Bonita, Rio de Janeiro, em 1937, Elza não perde oportunidade para gravar canções como "A Carne", de Seu Jorge, Marcelo Yuca e Wilson Capellette. O mais recente trabalho é "A Mulher do Fim do Mundo" (2016).
Foto: Getty Images/K.Betancur
Composições e inspiração para novos artistas
Mateus Aleluia (esq.) morou 20 anos em Angola e sempre procurou ligações com outros artistas para dar vida à África perdida na história do Brasil. O músico nascido no estado brasileiro da Bahia inspira trabalhos de nomes como Carlinhos Brown, Nação Zumbi e Cidade Negra. Aleluia integrou o legendário "Tincoãs", nos anos 1970. Na foto, está ao lado de Bule-Bule (centro) e Raimundo Sodre (dir).
Foto: picture-alliance/ dpa/S.Creutzmann
Morena de Angola, Moçambique e Brasil
Clara Nunes (1942-1983) fascina quem pesquisa sobre o Brasil e está em África. O inédito nela é ter cantado sobre elementos fora do dia-a-dia das pessoas, como em "Mãe África", do marido Paulo César Pinheiro e Sivuca. Foi desta forma que rompeu paradigmas, vendendo mais de 100 mil cópias. É retratada no documentário Clara Estrela (2017), dirigido pelos brasileiros Susanna Lira e Rodrigo Alzugui.
Foto: W. Montenegro
O Sul do mundo em lágrimas
Milton Nascimento compôs a Missa dos Quilombos, em 1981, para denunciar as consequências da escravidão e do preconceito no Brasil. Criado por pais adotivos brancos, impulsionou a criação dos Tambores de Minas, nos anos 1990, e trabalhou com projetos envolvendo novos talentos. Com mais de 50 anos de carreira, escreveu Lágrima do Sul, ao lado de Marco Antônio Guimaraes, do grupo Uakti.
Foto: picture-alliance/dpa/M.Cruz
Afro-brasileiro fora da África e do Brasil
Desde o início da sua carreira, nos anos 1960, Jorge Ben Jor manteve-se mais próximo dos aspectos afro-brasileiros, afastando-se da Bossa Nova que dominava a cena musical brasileira. O guitarrista, cantor e compositor gravou "África Brasil", em 1976. É deixando-se ser marcado por esta influência que se apresenta em diversos pontos do planeta, como no Festival de Montreux, na Suíça (foto).
Foto: picture-alliance/dpa/S.Campardo
Sem dar adeus à Àfrica
Naná Vasconcelos (1944-2016) já começou sua carreira intitulando o primeiro disco de "Africadeus", em 1973. Respeitado no mundo inteiro por valorizar as culturas africana e negra em seu trabalho, ganhou oito prémios Grammy. De 1983 a 1990, foi o Melhor Percussionista do Ano, da revista Down Beat. Em 2010, o pernambucano reuniu meninas e meninos de Angola, Brasil e Portugal no projeto Língua Mãe.
Foto: picture-alliance/dpa/S.Moreira
Revolução em lugares inesperados
Já no início da carreira, nos anos 1960, Maria Bethânia fazia invocações africanas e revolucionou aglutinando dois continentes dentro de boates! Com uma trajetória sólida, em 1986, gravou com o grupo sul-africano Lady Smith Black Mambazo. Ao lado de Mingas, Mia Couto e Agualusa, a intérprete baiana acaba de lançar o documentário "Karingana, Licença para Contar" (2017), de Monica Monteiro.