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PolíticaCabo Verde

Mundial 2026: Talento há, mas faltam condições em Cabo Verde

16 de junho de 2026

O brilho de Cabo Verde no Mundial contrasta com a realidade interna: talento há, mas falta investimento, infraestruturas e oportunidades. Para muitos jovens, o sonho do futebol perde-se antes de ter hipótese de crescer.

Mundial de Futebol de 2026 | Fase de grupos | Espanha vs. Cabo Verde | O guarda-redes Vozinha está no chão, lesionado
"Muitos jovens perdem-se por falta de apoio"Foto: Jacob Kupferman/AP Photo/picture alliance

Apesar do destaque histórico de Cabo Verde no Mundial, com um empate frente à Espanha, o desempenho da seleção volta a expor fragilidades estruturais no futebol do país.

No terreno, dirigentes e formadores apontam para uma realidade marcada pela falta de investimento na formação, infraestruturas precárias e escassez de oportunidades para os jovens atletas. Carlos Tavares, presidente de uma escola de futebol no país, não tem dúvidas: o talento existe — e é abundante —, mas está longe de ser devidamente aproveitado.

A ausência de jogadores oriundos do campeonato nacional na seleção principal é, para muitos, um reflexo direto destas lacunas.

O empate frente à Espanha mostrou o talento cabo-verdiano ao mundoFoto: Ju Huanzong/Xinhua/IMAGO

DW África: Enquanto cabo-verdiano e também profissional do desporto, como viveu o momento inicial do jogo da seleção de Cabo Verde, nomeadamente o hino nacional e a exibição dos Tubarões Azuis?

Carlos Tavares: Foi um momento ímpar, único na minha vida e, acredito, na vida da maioria dos cabo-verdianos. Mais um grande acontecimento proporcionado pelo futebol. Já tínhamos vivido algo semelhante, mas o Mundial tem uma dimensão ainda maior. Ouvir o hino e ver a nossa bandeira no estádio foi indescritível. Fiquei muito feliz e emocionado. É um grande momento para o desporto e para todo o povo cabo-verdiano.

DW África: Cabo Verde cometeu apenas uma falta durante o jogo, o que é histórico. Do ponto de vista técnico e estratégico, como avalia a prestação da equipa?

CT: Tivemos um desempenho excelente. Melhor, talvez fosse impossível. Jogámos contra a Espanha, uma das melhores seleções do mundo e uma das favoritas à vitória final. Sinceramente, não estava à espera. Cheguei a dizer a amigos que perder por quatro golos já seria aceitável. Empatar foi algo impensável. Fiquei surpreendido e extremamente feliz. É um grande resultado e fruto do excelente trabalho da equipa técnica e do investimento da Federação.

DW África: Como funciona o investimento na formação em Cabo Verde? Que condições existem para as crianças que sonham jogar futebol?

CT: Vivo o desporto intensamente. E confesso que, apesar da alegria, também senti alguma angústia. O que vimos foi uma demonstração do enorme talento que existe em Cabo Verde, mas que, infelizmente, está a ser muito mal aproveitado. Lido diariamente com centenas de crianças com grande potencial que, aos 14 ou 15 anos, acabam por enveredar por caminhos como a criminalidade ou as drogas, por falta de oportunidades.

Ainda existe pouca aposta séria na formação e nas infraestruturas, que são bastante precárias. Não temos competições regulares para crianças nem seleções de formação a funcionar de forma consistente para participar em provas africanas. Há ainda muito a melhorar.

Jovens talentos sem apoio em Cabo VerdeFoto: Chris Urso/Tampa Bay Times/ZUMA/picture alliance

DW África: Considera que isso se deve à falta de interesse ou de investimento por parte do Estado ou da Federação?

CT: Sinceramente, não sei ao certo. Já falei com uma figura governamental que me disse que o desporto não era uma prioridade para o país, o que me deixou muito triste. Desde então, fiquei com a sensação de que há uma falta de valorização desta área.

DW África: O facto de não haver jogadores da liga cabo-verdiana na seleção principal é reflexo dessa situação?

CT: Sem dúvida. É o resultado do trabalho feito a nível interno. A Federação tem feito um excelente trabalho na seleção principal, mas internamente ainda há muitas lacunas. Participámos poucas vezes em competições africanas de jogadores residentes e sem grande sucesso, o que demonstra o nível atual.

DW África: Pode dar um exemplo dessa diferença em relação a outros países?

CT: Estive num colóquio com uma universidade brasileira e disse que a realidade deles está 150 a 200 anos à frente da nossa. Aqui, levar uma equipa a um torneio internacional é um grande acontecimento. Na Europa, equipas jovens participam em mais de 20 torneios internacionais por ano. Em Cabo Verde, participar num ou dois já é motivo de festa.

DW África: Quantas crianças participam na sua escola neste momento?

CT: Trabalhamos com cerca de 300 crianças, das quais cerca de 100 são raparigas. Os escalões vão dos 5 anos até aos sub-17.

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