Na rota migratória das Canárias, o mar não é a única ameaça
9 de fevereiro de 2026
Em alto mar, algures entre o sul de Marrocos e a ilha espanhola de Tenerife, começou o inferno para Ismael Ouattara. Em 24 horas, a sua filha de um ano e a sua esposa morreram. O barco deles já estava à deriva no Atlântico há vários dias.
"A minha filha morreu nos meus braços. Na manhã seguinte, a minha esposa simplesmente não acordou. Acho que foi pelo choque com a morte", lembra-se o jovem.
Como dezenas de milhares de outros, Ouattara deixou a Costa do Marfim com a sua família em busca de um emprego melhor na Europa. Nunca imaginou que a travessia se pudesse tornar numa tragédia dessa magnitude.
"Os mortos foram simplesmente atirados ao mar imediatamente", recorda Ouattara. "Ninguém se pergunta se podem fazer isso", diz.
Já se passaram quatro anos desde o incidente, mas ainda lhe dói que outros passageiros tenham tratado os corpos dos seus entes queridos com tamanha falta de respeito.
Com algum alívio, recorda que pelo menos "não houve surtos de violência entre os sobreviventes", o que não é incomum em situações extremas a bordo.
Outros relatos
Já Mohammed Manga viveu situações extremas. "Houve muita violência no nosso barco", lembra-se o jovem gambiano, que chegou às Ilhas Canárias em 2023. "No quarto dia no mar, alguns entraram em pânico e começaram a acusar-se mutuamente de serem bruxos", relata.
Essa combinação de uma situação extrema com a crença em forças mágicas, segundo antigos passageiros, torna esses eventos particularmente explosivos. Embora, segundo se recorda Mohammed Manga, ninguém tenha morrido devido à violência a bordo, houve muitos feridos.
Até onde sabe, ninguém foi responsabilizado por isso, nem quando o barco finalmente chegou às Canárias. "É muito difícil fazer qualquer coisa quando se chega. Por isso, algumas pessoas pensam que podem fazer tudo no alto-mar", afirma.
Atirados vivos ao mar
Recentemente, as travessias pela chamada rota atlântica entre a África e as Canárias espanholas diminuíram consideravelmente. De acordo com números oficiais, em 2024 mais de 40 mil migrantes chegaram às ilhas, mas esse número caiu para cerca de 18 mil no ano seguinte.
A maioria dos observadores atribui isso à maior cooperação entre a Europa e os países de trânsito tradicionais, como Mauritânia e Marrocos, e como consequência a um controlop de fronteira mais rigoroso nesses países. Ao mesmo tempo, aumentam os relatos de extrema violência, até mesmo de homicídios, a bordo das embarcações.
Em meados de 2024, três senegaleses terão espancado várias pessoas em um barco de forma tão violenta que algumas ficaram com sequelas permanentes. No outono de 2025, a polícia espanhola prendeu 19 pessoas depois que cerca de 50 passageiros de um barco entre o Senegal e Gran Canária morreram – um suposto massacre no alto-mar.
São acusados de agressões graves e homicídio. Sobreviventes relatam que os acusados atacaram dezenas de passageiros, espancaram-nos até a morte e, em alguns casos, os jogaram vivos ao mar. Não está claro se eles faziam parte de redes de traficantes ou se eram apenas passageiros.
A polícia nacional espanhola recusou-se a comentar sobre os incidentes quando contactada pela DW.
Contradições nos depoimentos
Loueila Sin Ahmed Ndiaye, advogada nas Ilhas Canárias, lida frequentemente com casos semelhantes. Explica que existem várias razões pelas quais o processo criminal contra crimes cometidos em embarcações de migrantes é extremamente difícil.
A começar pela questão da jurisdição, já que os crimes geralmente não acontecem em território espanhol e não envolvem cidadãos espanhóis. Além disso, existem enormes problemas com os depoimentos das testemunhas.
"Os inúmeros relatórios policiais que lemos mostram que as pessoas perdem a noção do tempo. O frio, a incerteza, a falta de terra à vista, o medo – tudo isso pode afetar gravemente a saúde mental delas", diz Sin Ahmed Ndiaye.
Como resultado, frequentemente ocorrem contradições nos depoimentos. "Mesmo a posição de alguém no barco, se estava na frente ou atrás, pode fazer diferença, o que torna os depoimentos incoerentes", observa.
Além disso, muitos sobreviventes recusam-se a cooperar com as autoridades espanholas. Até desconfiam dos advogados designados para eles."Depois de 10 a 14 dias no mar, eles estão apavorados e a última coisa que querem é submeter-se a um processo judicial e acusar seus companheiros de viagem", diz.
"Os grupos mais vulneráveis a bordo, como crianças, menores desacompanhados e mulheres, são geralmente as maiores vítimas", acrescenta a advogada. No fim, isso resulta, muitas vezes, "na falta de responsabilização criminal e na ausência de compensação que, na verdade, deveria ser destinada a todas as vítimas de violência e suas famílias".
Nenhum lugar para chorar
Para o migrante Ismael Ouattara, que perdeu a esposa e a filha, a compensação financeira não é o mais importante. Quatro anos após o cruel incidente no Atlântico, reconstruiu a sua vida nas Ilhas Canárias com a filha mais velha, que também sobreviveu à travessia.
Mas, até hoje, sente falta de um lugar onde possa lamentar a perda da sua esposa e filha. "Eu só tenho as lembranças. Nenhum túmulo onde eu possa levar flores. Isso torna a situação especialmente difícil de suportar", lamenta.