Em Nampula, no norte de Moçambique, o terrorismo está a motivar muitos jovens a se recensearem para o serviço militar obrigatório. Província quer recensear mais de 20 mil jovens.
Jovens junto a militares na mobilização para o serviço militar Foto: Sitoi Lutxeque/DW
Publicidade
Em Moçambique decorre desde o dia 2 de janeiro, e até 28 de fevereiro, o recenseamento para o serviço militar obrigatório. Na província de Nampula, muitos jovens estão aderir ao processo para se se juntarem aos outros que já combatem o terrorismo nas várias frentes, começando mesmo pelos distritos da província afetados pelo fenómeno.
Desde 2017, o terrorismo abala a província de Cabo Delgado e, entretanto, expandiu-se aos distritos de Memba e Eráti, em Nampula. Este ano, a província tem como meta recensear cerca de 23 mil jovens. No entanto, numa altura em que as chuvas afetam a transitabilidade regular das estradas, o acesso aos locais de recenseamento tem sido difícil.
Ronaldo Juma Abacar reside no posto administrativo de Nacavala, no distrito de Meconta. Espera ver o seu nome registado, ser treinado e finalmente apurado, pois os seus objetivos são claros. "Já me recenseei uma vez, mas no momento o meu nome não constava da lista", explicou, por isso "pretendo recensear-me porque estou interessado em ser militarpara defender o meu país", acrescentou.
Secretário de Estado de Nampula regista primeiro jovem Foto: Sitoi Lutxeque/DW
Importância da declaração
Mas a declaração também é um dos maiores requisitos exigidos para ter acesso a vários benefícios do Estado, e os jovens estão cientes disso.
Publicidade
"Para obtenção do emprego, carta de condução e ingresso no ensino superior é necessário que apresentemos um documento com a situação militar regularizada", disse o mesmo jovem, que acrescenta: "E para obtenção do mesmo é necessário que façamos primeiro o recenseamento militar, e isso também significa valorizar os ideais daqueles que deram as suas vidas para a libertação deste país", explicou Abacar.
A delegada provincial do Centro de Recrutamento e Mobilização Militar, Delfina António, desencoraja os jovens a aderir ao processo apenas por questões meramente profissionais, mas apela ao patriotismo.
"Verificamos uma grande 'avalanche' de jovens à procura os nossos serviços, mas muitos deles não fizeram o recenseamento militar, o que significa que não estão cumprindo com o seu dever cívico e patriótico", lamentou.
Como então? Luta antiterrorismo em Cabo Delgado corre bem?
06:51
This browser does not support the video element.
Ministério da Defesa fixa meta
Para este ano, o Ministério da Defesa Nacional atribuiu à província de Nampula a meta de recensear 23.004 jovens, dos quais 15.499 do sexo masculino e 7.505 do sexo feminino.
Para o secretário de Estado de Nampula, Plácido Pereira, o recenseamento militar é "um ato de patriotismo e um dever cívico de todos os jovens, uma oportunidade nobre [...], um ato de amor a nação e de contributo para a segurança e soberania nacional",disse.
"Apelamos e convocamos a todos os jovens de ambos sexos, nascidos em 2008, sem exceção do dia e do mês que nasceu, a dirigirem-se aos postos de recenseamento militar, até o dia 28 de fevereiro, munidos de documento de identificação, certificado de habilitações literárias e declaração de residência. O recenseamento militar é gratuito", exortou.
Para assegurar o processo, foram criados 136 postos de recenseamento militar, 126 fixos e 10 móveis, localizados nas sedes distritais, secretarias administrativas, localidades, autarquias, escolas e outros órgãos da administração pública, de modo a garantir maior cobertura territorial.
O rasto do terrorismo em Macomia teima em não desaparecer
Foto: DW
Quarta invasão
No dia 10 de maio de 2024, um grupo de terroristas invadiu Macomia, naquela que foi a quarta vez consecutiva que aquela vila de Cabo Delgado se viu entregue aos terroristas. Permaneceram na sede distrital por cerca de dois dias. Após confrontos com as tropas moçambicanas e aliados, o grupo armado abandonou a vila. Mas a destruição permanece.
Foto: DW
Rasto de destruição
Ao abandonarem o local, os terroristas deixaram edifícios públicos como registo civil, a direção de infraestruturas e a secretaria distrital completamente vandalizados. Alguns desses locais continuam de porta fechadas. O comércio vai reabrindo a conta-gotas e a medo.
Foto: DW
Agências humanitárias não escaparam
Também os escritórios e infraestruturas que albergam organizações humanitárias como a Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, entre outras, foram arrasados pelos terroristas. Desses locais, foram subtraídos medicamentos, viaturas e outros bens.
Foto: DW
Reconstrução é urgente
Autoridades governamentais de Cabo Delgado visitaram Macomia no início de junho para avaliar os danos causados pela presença terrorista. Apesar de admitirem que é uma "prioridade repor aquelas infraestruturas para gradualmente os funcionários prestarem os serviços necessários à população", os serviços continuam a funcionar a meio-gás.
Foto: DW
Paz e medo entre os habitantes
A vila tenta regressar à normalidade, mas o clima ainda é de medo. Os residentes reativaram as atividades de autossuficiência, mas não escondem o receio de um novo ataque, preocupação que paira a todo o instante.
Foto: DW
Chitunda, em Muidumbe, sem serviços públicos
Os cerca de 11 mil habitantes que tinham saído do posto administrativo de Chitunda, em Muidumbe, devido à insegurança, voltaram a casa. Mas nenhuma escola ou hospital está neste momento a funcionar, deixando milhares de crianças fora das salas de aula e os residentes sem acesso a cuidados de saúde.
Foto: DW
Governo promete reabrir escolas e hospitais
Para aceder a cuidados de saúde, a população da aldeia de Miangaleua, no posto administrativo de Chitunda, em Muidumbe, recorre ao distrito de Macomia. Mas o governo local garante que em breve os centros de saúde e as escolas na região voltarão a funcionar.
Foto: DW
Chuvas intensas agravaram a fome
A população de Miangaleua, em Muidumbe, que regressa paulatinamente a casa está a dedicar-se à produção agrícola. Porém, as chuvas intensas que caíram entre finais de 2023 e princípios deste ano arrastaram vários hectares de campos agrícolas junto ao rio Messalo. A produção de arroz e de outras culturas perdeu-se, aumentando a fome na região.
Foto: DW
Autoridades exortam população a produzir comida
O governo local ofereceu sementes de milho e feijões, enxadas, catanas e outros materiais de produção para que os camponeses voltem a semear.
Foto: DW
Corrente elétrica em falta
Os habitantes expressam também o desejo de ver restabelecida a corrente elétrica em Macomia, uma vez que as instalações elétricas também foram afetadas pelos ataques terroristas dos últimos anos. Pequenos painéis solares garantem serviços mínimos, mas não permitem a conservação do peixe que é retirado do rio, por exemplo.
Foto: DW
Mais segurança
Os residentes da aldeia de Miangaleua, em Muidumbe, pedem o reforço da presença das Forças de Defesa e Segurança, para que nunca mais tenham de fugir das próprias terras devido ao terrorismo. Mas a ajuda tarda em chegar.