Governo moçambicano impede partida de navio rumo à China por suspeitas de exportação ilegal de madeira. Empresa nega irregularidades e acusa o Estado de extorsão.
Suspeita de exportação ilegal leva Governo a travar navio no Porto da BeiraFoto: Arcénio Sebastião/DW
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O Governo de Moçambique travou a partida do navio Africa Two, da companhia CMA, que estava prevista para as 13 horas da última quinta-feira (21.08), na sequência de uma ordem judicial emitida após um pedido de providência cautelar apresentado pela AQUA — Agência Nacional para o Controlo de Qualidade. Aconteceu no porto da cidade da Beira, centro de Moçambique.
A medida surge após denúncias sobre um alegado esquema de exportação ilegal de madeira em touro e em viga, formatos cuja exportação está proibida no país desde 2017.
O processo de descarregamento e reverificação da mercadoria terminou ao início da noite. De acordo com Arsénio Chelengo, chefe do Departamento Central de Fiscalização da AQUA, não foi detetada madeira em touro nos 111 contentores inspecionados. No entanto, outras incongruências referidas na denúncia serão analisadas nas próximas horas.
"A existência de madeira em touro foi, para já, descartada. Seguiremos agora para uma nova fase, que consiste na análise da legalidade do processo de exportação", afirmou Chelengo.
A madeira em causa tem origem nas províncias de Inhambane, Tete, Zambézia e Sofala.
Navio retido em Moçambique por suspeitas de fraudeFoto: Arcénio Sebastião/DW
Licença suspensa e empresa moçambicana sob investigação
A empresa responsável pela exportação, Safe Timber, encontra-se com a licença de exportação de madeira nativa suspensa desde 6 de agosto, por decisão do ministro da Agricultura, Ambiente e Pescas. Caso se confirmem irregularidades, esta poderá ser a última operação autorizada.
A suspensão foi motivada por discrepâncias significativas entre os relatórios de inspeção e os dados de processamento da madeira em processos anteriores.
"É fundamental verificar se há coerência entre o produto e o que está descrito nos documentos. Se são peças de mobiliário, pranchas ou outro tipo de produto, e se a espécie indicada corresponde à que observamos fisicamente nos contentores", sublinhou Chelengo.
Em comunicado, a Safe Timber alegou ter sido notificada com sete dias de atraso e acusou o Governo de extorsão e de violação dos procedimentos administrativos. No final da operação de reverificação, a empresa recusou prestar declarações.
Beira: Depois da tempestade, a reconstrução
A Beira tenta reerguer-se após o ciclone Idai. Autoridades e habitantes estão focados na limpeza da cidade e na reabilitação de infraestruturas.
Foto: DW/A. Kriesch
Beira em obras
Seis semanas depois da passagem do ciclone Idai, reconstruir é palavra de ordem na Beira. Quase todos os telhados foram arrancados ou danificados. O Banco Mundial estima em 2 mil milhões de dólares (1,78 mil milhões de euros) os prejuízos nos países afetados - Moçambique, Malawi e Zimbabué.
Foto: DW/A. Kriesch
Viver sem teto
André Lino ficou sem telhado à passagem do ciclone e não tem como pagar um novo. Vive aqui com a família desde 1977, a 100 metros da praia. "O mar está a aproximar-se", afirma. "Isso assusta-me". Se tivesse dinheiro suficiente, ia-se embora, conta.
Foto: DW/A. Kriesch
O mar cada vez mais perto
Partes da Beira estão abaixo do nível do mar. No passado, a cidade sofreu várias vezes com graves inundações. E há ameaça de novos desastres: o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas estima que o nível do mar deverá subir entre 40 a 80 centímetros até 2100.
Foto: DW/A. Kriesch
Cabanas frágeis à beira-mar
Os habitantes das zonas mais pobres da cidade, como a Praia Nova, foram os mais afetados. As suas cabanas desmoronaram-se rapidamente. Muitos pescadores também perderam os seus barcos devido ao ciclone.
Foto: DW/A. Kriesch
Projeto de gestão das águas contra as cheias
No centro da cidade, foram construídos há alguns anos milhões de quilómetros de canais e estruturas para controlar as marés, com a ajuda do banco estatal alemão de desenvolvimento KfW. A instituição contribuiu com 13 milhões de euros para o financiamento dos trabalhos de construção.
Foto: DW/A. Kriesch
Menos danos graças à cancela
"No dia do ciclone, começou também a chuva", lembra Eduardo dos Santos, que opera uma das cancelas construídas para proteger a Beira de inundações. "Abrimos as comportas para que a água pudesse regressar ao mar. Se não o tivéssemos feito, teria havido cheias ainda piores na cidade".
Foto: DW/A. Kriesch
Edil contra as mudanças climáticas
"Já estamos habituados a inundações", diz o edil Daviz Simango. "Mas um ciclone assim foi algo novo para nós. Agora, temos de reagir". Simango está a organizar uma conferência de doadores na Beira, em junho. O edil espera angariar fundos para preparar a cidade para as mudanças climáticas.
Foto: DW/A. Kriesch
Trabalhos de limpeza continuam
As autoridades continuam empenhadas em restaurar a ordem. Em algumas zonas da cidade já há eletricidade e água corrente. Noutras áreas ainda são visíveis os destroços causados pelo ciclone.
Foto: DW/A. Kriesch
Uma frente de voluntários
Voluntários como Magdalena Louis ajudam nos trabalhos de reconstrução. Há várias semanas que está aqui a trabalhar e, em troca, a cidade da Beira dá-lhe apenas o almoço. "Só quero que a nossa cidade esteja limpa outra vez. Ninguém tem de me pagar por isso", afirma.
Foto: DW/A. Kriesch
Campos de refugiados na cidade
Há organizações humanitárias de todo o mundo por toda a cidade. Milhares de pessoas continuam a viver em tendas e a depender de ajuda alimentar. A saúde também é uma preocupação: a Beira foi atingida por uma crise de cólera e registam-se vários casos de malária.
Foto: DW/A. Kriesch
Sem colheitas, não há comida
Nos arredores da Beira, o ciclone destruiu grandes áreas de cultivo. "Todo o milho, todo o arroz... foi-se tudo", conta a agricultora Elisa Jaque, de 61 anos. Já está a plantar novamente, mas só dentro de seis meses deverá voltar a ser capaz de alimentar a sua família.
Foto: DW/A. Kriesch
Regresso à rotina
Apesar de tudo, há sinais de regresso à rotina e à normalidade. Um jogo amigável do Grupo Desportivo da Companhia Têxtil do Púnguè atrai centenas de adeptos - apesar de o telhado do estádio ter sido também atingido pelo Idai.
Foto: DW/A. Kriesch
Rumo à normalidade
Quem não pode pagar o bilhete para ver o jogo, encontra soluções criativas. À volta do estádio, mini-autocarros e carrinhas estacionados funcionam como bancadas improvisadas gratuitas. O cenário deve repetir-se no fim de semana, com o arranque do Moçambola e o Têxtil do Púnguè - União Desportiva do Songo agendado para 27 de abril.