Negligência em hospitais de Luanda reacende debate na saúde
30 de março de 2026
O tema não é novo, mas voltou a dominar as conversas do dia a dia. Sobretudo, por causa de dois casos que chocaram Luanda: alegados maus-tratos a uma criança no Hospital Infantil Azancot de Menezes e a morte de uma paciente no Hospital Mãe Jacinta Paulino, suspeita de negligência médica.
São dois casos que trouxeram à tona a velha questão do atendimento nas unidades de saúde angolanas. "Nós primamos pelo bem 'vida' e pelo tratamento humanizado dos nossos utentes. Isso está do ADN do Ministério da Saúde", reiterou recentemente a ministra da Saúde de Angola, Sílvia Lutucuta.
Mas a experiência de muitos cidadãos refuta as afirmações da ministra: faltam profissionais qualificados, há longas listas de espera e faltam medicamentos, como diz o paciente Lindo Filipe: "O atendimento nos hospitais é mau, porque só conseguem fazer análises e dar receitas aos pacientes. Não conseguem dar medicamentos."
A frustração cresce. Outro paciente, Fernando João, refere que, além de ser humanizado, o sistema tem de ser, primeiro que tudo, funcional. "Há tanta burocracia em termos de atendimento... Você vai para lá, para fazer uma consulta hoje, a questão é urgente, mas pede-te para regressar na próxima semana", lamenta.
Falta de financiamento e de materiais
E a estes juntam‑se outros problemas: hospitais sem financiamento durante meses, falta de materiais básicos e até cirurgias adiadas por falta de equipamento.
Perante as polémicas no Hospital Infantil Azancot de Menezes e no Hospital Mãe Jacinta Paulino, a ministra da Saúde prometeu a abertura de inquéritos para apurar responsabilidades. Silvia Lutucuta disse que o setor que dirige não tolera casos de maus-tratos.
"Foram suspensos todos os profissionais envolvidos e medidas disciplinares duras vão ser tomadas. A tolerância é mesmo zero", disse Sílvia Lutucuta
Sistema de saúde frágil
Mas será este o verdadeiro problema? Ou há algo mais profundo por detrás de tudo isto?
O secretário-geral do Sindicato dos Enfermeiros de Luanda, Afonso Kileba, entende que o problema do mau atendimento não se resolve apenas com medidas disciplinares. Para ele, o cerne da questão é outro: "A fragilidade do sistema nacional de saúde angolano, devido à falta de recursos humanos e de materiais de apoio para colmatar as debilidades que o sistema nos apresenta.”
Para humanizar o atendimento nos hospitais angolanos, os especialistas defendem que é essencial investir mais na formação de técnicos e profissionais de saúde, garantir melhores condições de trabalho e oferecer salários que realmente motivem quem está na linha da frente.