Nigéria: 'Genocídio cristão' ou uma crise de narrativas?
5 de novembro de 2025
As redes sociais e alguns círculos políticos internacionais têm dado destaque a alegações de um suposto genocídio contra cristãos na Nigéria. A polémica aqueceu agora, depois do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar que "o cristianismo enfrenta uma ameaça existencial” na maior economia da África Ocidental.
Trump chegou a amaeçar uma intercenção militar norte.americana. Em resposta, o Presidente nigeriano, Bola Tinubu, refutou as alegações, afirmando que essa imagem da Nigéria como um país intolerante não corresponde à realidade, escreveu na rede social X.
O porta-voz do estadista nigeriano, Daniel Bwala, classificou a publicação de Trump como "uma falha de comunicação". Bwala acrescenta que uma avaliação baseada em dados reais e não em relatórios e vídeos nas redes sociais deve orientar as conclusões internacionais.
Mas as denúncias continuam a circular, com influenciadores, líderes religiosos e até senadores norte-americanos a apontarem para ataques contra comunidades cristãs, especialmente nas regiões central e norte do país.
O senador Ted Cruz acusou o Governo nigeriano de permitir "o assassinato em massa de cristãos por jihadistas islâmicos” e propôs sanções contra o país.
Apenas problemas de segurança
O ministro da Informação da Nigéria, Mohammed Idris, reconheceu os problemas de segurança, mas rejeitou a ideia de que haja um ataque sistemático contra cristãos.
Desde que Tinubu assumiu a Presidência, em 2023, cerca de 10 mil pessoas morreram, de acordo com Amnistia Internacional e milhões foram obrigadas a abandonar as suas casas. Os estados de Benue e Plateau são os mais afetados, com ataques a aldeias, escolas, clínicas e locais de culto.
Especialistas alertam que a violência não é apenas religiosa. Disputas por terras, pobreza, alterações climáticas e falhas na governação também estão na origem dos conflitos.
O padre Atta Barkindo, de Abuja, diz que o problema é mais profundo: "Não acredito que o Governo queira matar cristãos. O que vemos é a falha em proteger os cidadãos. E como muitas vítimas são cristãs, isso alimenta essa ideia”.
À DW, o investigador Samuel Malik também rejeita a ideia de genocídio. Afirma que "não há provas de uma campanha coordenada para exterminar cristãos. A insegurança vem de problemas como corrupção, pobreza e crime organizado.”
Segundo Malik, esta narrativa pode prejudicar a imagem da Nigéria e dificultar a ajuda internacional.
O lado positivo?
Apesar das divisões, o padre Barkindo acredita que o debate pode ter um lado positivo: "Está a chamar atenção para questões importantes de segurança. Precisamos de falar sobre isso”.
A violência tem deixado marcas profundas. Comfort Isfanus, residente no estado de Plateau, conta que perdeu o marido num ataque: "Fugimos com os nossos filhos, mas ele ficou com o irmão. Foram mortos. As nossas casas foram queimadas. Agora estamos sem comida, sem abrigo, sem escola para as crianças.”
Karimatu Aminu também perdeu o marido e diz que os ataques não têm um único alvo. "Hoje queimam casas dos fulani, amanhã são as dos cristãos. Todos estão a sofrer”, lembra.
A desconfiança entre comunidades cristãs e muçulmanas tem raízes antigas. Muitos acreditam que há uma tentativa de expulsar agricultores cristãos das suas terras — uma herança da jihad islâmica que marcou o norte da Nigéria há séculos.
As Nações Unidas condenaram ontem, as ameaças de intervenção militar de Donald Trump na Nigéria, apelando aos dois países que respeitem o direito internacional.