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Njinga Mbande: A rainha angolana que fez frente aos portugueses

18.04.2018

Diplomata e chefe militar do século XVII, Njinga Mbande usou todos os seus meios para combater o poder colonial português em Angola. É considerada uma das maiores personalidades da resistência africana ao colonialismo.

Nasceu: No território que é hoje Angola, por volta de 1583, na região do Ndongo. Morreu a 17 de dezembro de 1663 na região de Matamba.

Reconhecida por: Ter combatido toda a sua vida a administração colonial portuguesa usando, tanto a sua perspicácia diplomática, como as suas habilidades militares.

Criticada por: Não ter escrúpulos, por alegadamente ter matado o seu sobrinho para obter o reinado de Ndongo e por ter facilitado o tráfico de escravos no seu território através de acordos com os portugueses e os holandeses. Além disso, foi acusada de canibalismo por adotar os hábitos dos seus aliados – conhecidos como Imbangalas ou Jagas.

Njinga, a insubordinada: Em 1622, o então rei Ngola Mbande, irmão de Njinga, enviou-a a Luanda para negociar um tratado de paz para a região do Ndongo com o governador português. Quando lá chegou, Njinga recebeu um tapete em vez de uma cadeira para se sentar, o que significava que ela era considerada subordinada. Njinga ordenou que um dos seus servos se ajoelhasse no chão e servisse de cadeira. E continuou as negociações falando de igual para igual.

Njinga e a educação: Falava várias línguas nativas, entre as quais português. Era uma pessoa culta, tendo escrito ela própria todas as cartas enviadas aos governantes coloniais aquando das negociações. O seu contacto inicial com missionários e comerciantes portugueses é apontado como uma das razões para o seu conhecimento da língua portuguesa. Njinga tinha uma grande sensibilidade para as questões diplomáticas e militares, o que jogou a seu favor no momento de lidar com os portugueses e os holandeses.

Njinga, a lutadora: Foi o seu pai, o rei Kiluanji, que a levou para o campo de batalha. No seu reinado, lutou como soldado na frente do exército, provando a sua masculinidade. Segundo alguns historiadores, Njinga recusou, mais tarde, o título de rainha. Em vez disso, ela assumiu-se como um rei, tornando-se socialmente um homem e tendo um harém com vários concubinos vestidos de mulher.

Njinga não se deixou humilhar pelo governador português

No início do século XVII, os portugueses expandiram rapidamente a sua influência na costa central de África. O território que é hoje a capital de Angola, Luanda, estava sob o domínio português. É nesta época que Njinga Mbande aparece como membro da família real do reino Ndongo e se insurge contra o colonizador.

Nascida em 1583, Njinga Mbande viveu num período em que o poder colonial português no sudoeste africano e o tráfico de escravos transatlânticos estavam a crescer rapidamente.

Njinga começou a sua carreira política como diplomata. Foi o seu irmão, o rei do Ndongo, que a enviou a Luanda, em 1622, para um encontro com o governador português João Correia de Sousa, que tinha como objetivo a negociação de um acordo de paz. À chegada, quando percebeu que não havia uma cadeira para se sentar, ordenou que um dos seus criados se ajolhasse e servisse de banco. A mensagem era clara: Njinga Mbande não aceitou ser humilhada e inferiorizada, tendo imposto uma sessão de negociações de igual para igual.

Em entrevista à DW, Luzia Moniz, socióloga, jornalista e ativista angolana dos direitos das mulheres, lembra a personalidade forte de Njinga. "É preciso pensarmos que estamos no século XVII e temos uma mulher africana naquilo que é hoje o territóirio angolano que se bate de igual para igual com Portugal, uma potência europeia, usando a inteligência e sobretudo a perspicácia diplomática", afirma.

E é também por esta altura que Njinga Mbande toma uma das suas memoráveis decisões estratégicas. "Njinga simula uma conversão, que de facto não é efetiva, para tornar mais fácil a negociação com os portugueses, os invasores", recorda Luzia Moniz. Mbande convenceu os portugueses de que ela "se tinha tornado cristã", tornando a partir daí a negociação mais fácil, acrescenta a socióloga. Como parte do seu esforço para conquistar a confiança dos portugueses, Njinga Mbande deixa-se batizar com o nome português Ana de Sousa.

No entanto, e apesar de Njinga Mbande ter saído desta reunião com um tratado de paz, o seu sucesso não foi efetivo. Os portugueses não cumpriram com o pacto e atacaram a região de Ndongo, levando o seu povo como escravo.

Njinga não desistiu

No final da década de 1620, os portugueses uniram forças com os adversários de Njinga e Ndongo ficou perdido. No entanto, a rainha Njinga, que sucedeu o seu irmão no trono em 1623, conseguiu estabelecer outras alianças. Tornou-se rainha de Matamba e conseguiu o apoio dos holandeses alguns anos mais tarde, quando estes ocuparam Luanda. Njinga reinou e fez sempre parte das negociações com os portugueses até à sua morte, em 1663.

Como relembra o historiador angolano Manuel dos Santos, Njinga Mbande não baixava os braços. "Ela não foi uma rainha que ficou sentada no trono à espera de resolver os problemas", diz o historiador, frisando que Njinga não só foi rainha como chefe do exército. "Uma chefe que enquanto esteve no seu vigor físico participou nas ações militares", acrescenta.

Tal como nas suas táticas diplomáticas, também no campo de batalha qualquer meio era justo para garantir a vitória e a independência dos invasores portugueses. Njinga lutou ferozmente durante décadas, acabando por construir, juntamente com os seus aliados holandeses, um grande negócio à volta do comércio de escravos.

"Era uma mulher à frente para a sua época", considera Manuel dos Santos. "Era uma chefe militar que percebeu que ser mulher não era, de facto, impedimento para comandar exércitos e comandá-los com objetividade para aqueles que eram os seus fins", afirma.

A rainha Njinga Mbande é reconhecida como um símbolo da resistência africana ao poder colonial.

O projeto "Raízes Africanas" é financiado pela Fundação Gerda Henkel.

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Património religioso

No complexo da Cidade Velha está a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, conhecida por ser um dos patrimónios arquitetónicos mais antigos de Cabo Verde, com mais de 500 anos. Assim como em Cabo Verde, o período colonial português deixou outros edifícios ligados à Igreja Católica em praticamente todos os PALOP.

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Na cidade da Praia, em Cabo Verde, a residência presidencial é uma herança do período colonial português no país. Construído no século XIX, o palácio abrigou o governador da colónia até a independência cabo-verdiana, em 1975.

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Casa Grande

Em São Tomé e Príncipe, é impossível não reconhecer os traços da colonização portuguesa nas roças. Estas estruturas agrícolas concentram a maioria das edificações históricas do país. A imagem mostra a Casa Grande, local onde vivia o patrão da Roça Uba Budo, no distrito de Cantagalo, a leste de São Tomé. As roças são-tomenses foram a base económica do país até a indepência em 1975.

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Palácio reconstruído em Bissau

Assim como em Cabo Verde, na Guiné-Bissau o palácio presidencial também remonta o período em que o país esteve sob o domínio de Portugal. Com arquitetura menos rebuscada, o palácio presidencial em Bissau foi parcialmente destruído entre 1998 e 1999, mas foi reconstruído num estilo mais moderno em 2013 (foto de 2012). O edifício, no centro da capital guineense, destaca-se pela sua imponência.

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O Teatro Elinga, no centro de Luanda, é um dos mais importantes edifícios históricos da capital angolana. O prédio de dois andares da era colonial portuguesa (século XIX) sobreviveu ao "boom" da construção civil das últimas décadas. Em 2012, no entanto, foram anunciados planos para demolir o teatro. Como resultado, houve fortes protestos exigindo que o centro cultural fosse preservado.

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Arquitetura colonial moderna

O período colonial também deixou traços arquitetónicos modernos em alguns países. Em Angola, muitos cinemas foram erguidos nos anos 40 com a influência do regime ditatorial português, o chamado Estado Novo. Na foto, o Cine-Teatro Namibe (antigo Moçâmedes), um dos mais antigos do país, é um exemplo. Foi o primeiro edifício de arquitetura "art déco" na cidade de Namibe.

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Carla Fernandes (Lisboa)