Pela primeira vez na história da UE, um chefe de Estado foi homenageado com uma cerimónia fúnebre no Parlamento Europeu, em Estrasburgo. O antigo chanceler foi sepultado em Speyer, na Alemanha.
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"Pai" da reunificação alemã e arquiteto do alargamento da União Europeia, Helmut Kohl morreu a 16 de junho, aos 87 anos. Duas dezenas de chefes de Estado e de Governo e várias centenas de personalidades assistiram este sábado à inédita homenagem europeia ao antigo chanceler alemão, no hemiciclo do Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
O caixão, coberto com a bandeira europeia e transportado por oito militares alemães, foi colocado no centro do hemiciclo para a cerimónia. A parte institucional do evento contou com os discursos dos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, e do Conselho Europeu, Donald Tusk.
"Helmut Kohl era um verdadeiro europeu e um amigo. A Europa deve-lhe muito", afirmou Jean-Claude Juncker. O presidente da Comissão Europeia despediu-se de Helmut Kohl, "um gigante do pós-guerra”, agradecendo em várias línguas no final do seu discurso: "Obrigado. Descansa em paz. Mereces”.
É a primeira vez que a UE organiza uma homenagem do género, em honra de um dos três dirigentes considerados "cidadãos honorários da Europa", disse Juncker. Os outros dois são o francês Jean Monet, que morreu em 1979, e Jacques Delors, de 91 anos.
Manter o legado
No final do seu discurso, a chanceler alemã Angela Merkel curvou-se perante o caixão, coberto com uma bandeira com as cores da Europa e declarou que Helmut Kohl era um grande Europeu e um político de classe mundial. A chanceler mostrou reconhecimento pelas oportunidades que Kohl lhe deu ao escolhê-la para ministra e admitiu que "algumas divergências" os opuseram, mas sublinhou o papel do antigo chanceler na reunificação da Alemanha.
"Sem Helmut Kohl, a vida de milhões de pessoas que até 1990 viviam atrás do muro teria sido completamente diferente. A minha também. Caro chanceler Helmut Kohl, se eu estou aqui hoje, também o devo, em parte, a si", disse Merkel.
Merkel recordou que pertence a uma geração de alemães que viveu "as noites de terror e de bombas" do nacional-socialismo e que Kohl protagonizou um combate indispensável "por uma Europa onde não houvesse mais guerras". "Milhões de pessoas" estão em dívida para com Kohl, arquiteto da reunificação e grande impulsionador da União Europeia. "Coisas como o euro não existiriam sem ele", disse. A chanceler alemã exortou a atual geração política a "manter o legado" de Helmut Kohl.
Pontes em vez de muros
Um dos outros dos intervenientes na cerimónia, o Presidente francês, Emmanuel Macron, elogiou Kohl pelas "decisões corajosas" que tomou, "por vezes contra a sua opinião pública", e disse-se disposto a continuar o legado do antigo chanceler na UE. "A História também nos julgará um dia. Terá severamente em conta as concessões que fizermos, os cálculos a curto prazo e os egoísmos nacionais, [mas também] a sinceridade do compromisso com a paz e a amizade dos povos", disse Macron.
"O pragmatismo, o sentido da realidade e a habilidade política são francamente úteis, mas não constroem nada. São os ideais, iluminados pela amizade, que dão corpo aos nossos projetos, que os fazem durar", acrescentou. Macron recordou que Helmut Kohl "preferia as pontes às fronteiras e aos muros" e que, com François Mitterand, lutou pelo "sonho de um destino europeu comum", o qual, frisou, deve ser recuperado pelos atuais dirigentes políticos.
Vários antigos dirigentes que conviveram com Kohl não puderam assistir à cerimónia por razões de saúde, entre os quais, Jacques Delors, Valery Giscard d'Estaing, Jacques Chirac e Mikhail Gorbachev.
Em representação de Moscovo, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev falou do antigo chanceler alemão como um "verdadeiro amigo da Rússia”. Foi com o antigo líder soviético Mikhail Gorbachev que Helmut Kohl negociou a reunificação com a antiga Alemanha de Leste. Em troca, a Alemanha ajudou a Rússia a lidar com as dificuldades económicas. "Ele foi o arquitecto da ordem mundial”, disse Dmitry Medvedev.
Já o antigo Presidente norte-americano Bill Clinton, também presente na cerimónia, destacou a capacidade de Helmut Kohl de estabelecer ligações, colocando a cooperação internacional à frente dos interesses nacionais em momentos-chave da história. "Estamos todos aqui porque Helmut nos deu a oportunidade de participar em algo maior do que nós”, lembrou.
Após a cerimónia fúnebre no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o caixão de Kohl foi transportado de helicóptero para Ludwigshafen, cidade natal do político, de onde partiu, num cortejo com honras militares, para o navio MS Mainz, no rio Reno. Na embarcação, seguiu para Speyer, onde Kohl foi enterrado numa cerimónia privada com familiares e amigos no cemitério da catedral histórica da cidade.
A trajetória política de Helmut Kohl
Kohl governou a Alemanha ao longo de 16 anos, mais do que qualquer outro chanceler federal. A reunificação das duas Alemanhas e a União Europeia são os pontos altos da carreira política de Kohl, que morreu em 2017.
Foto: picture-alliance/dpa/U. Baumgarten
O pai da reunificação alemã
Helmut Kohl governou a Alemanha ao longo de 16 anos, mais do que qualquer outro chanceler federal. A reunificação das duas Alemanhas e a União Europeia são os pontos altos da carreira política de Kohl, que morreu em 16 de junho de 2017. "Sem ele, a União Europeia de hoje não teria sido possível", disse a chanceler atual, Angela Merkel.
Foto: picture-alliance/dpa/U. Baumgarten
Nos passos de Adenauer
Kohl entrou para a União Democrata Cristã (CDU) em 1946, ainda como estudante da escola secundária com apenas 16 anos. Foi eleito deputado estadual da Renânia-Palatinado em 1959, aos 29 anos. Em 1966, tornou-se presidente estadual da CDU. A foto de 5 de janeiro de 1967 mostra Kohl e o primeiro chanceler federal da Alemanha pós-Guerra, Konrad Adenauer, na festa dos seus 91 anos, em Bonn.
Foto: picture alliance / dpa
Primeiro-ministro aos 39 anos
Em 1969, com a renúncia do então primeiro-ministro da Renânia-Palatinado, Peter Altmeier, Kohl foi eleito seu sucessor. Ele comandaria o estado até dezembro de 1976. Sempre manteve uma ligação forte a este estado onde também será sepultado no cemitério da catedral de Speyer, no dia 1 de julho de 2017. A foto é de 1971, ano em que a CDU obteve a maioria absoluta no parlamento regional.
Foto: Imago
Em família
A família foi muito importante para a formação da imagem pública de Kohl. Ele costumava passar suas férias de verão com a esposa e os filhos sempre no mesmo lugar, no lago Wolfgangsee, na Áustria. Esta foto é de 1974, e mostra Kohl ao lado da esposa Hannelore e dos filhos Peter (d) e Walter (e) na residência da família, em Oggersheim.
Foto: imago/Sven Simon
Kohl na chancelaria federal
Em 1973, Kohl se tornaria presidente nacional da CDU. Mas ele ainda não tinha atingido sua grande meta: a chancelaria federal. Foi só em 1982, quando divergências entre social-democratas e liberais levaram ao fim da coligação do então chanceler federal Helmut Schmidt, que Kohl finalmente conseguiu alcançar seu objetivo. Na foto, de 1º de outubro de 1982, Schmidt parabeniza o sucessor.
Foto: picture-alliance/dpa
Chanceler federal por 16 anos
Kohl foi três vezes reeleito para a chancelaria federal, ocupando o cargo ao longo de 16 anos, de 1982 a 1998. Ele permaneceu na presidência da CDU, para a qual havia sido eleito em 1973, até 1998. A partir de 2000, passou a ser o presidente de honra do partido. A foto é de 11 de setembro de 1989, quando Kohl foi reeleito para a presidência da CDU.
Foto: picture alliance/Martin Athenstädt
Gesto de reconciliação
Esta foto, que mostra Kohl ao lado do Presidente da França, François Mitterrand, correu o mundo. Ela foi tirada em 22 de setembro de 1984, durante um evento para celebrar a reconciliação franco-alemã, perto do cemitério de Verdun, onde estão enterrados soldados que morreram na Primeira Guerra Mundial. De mãos dadas, os dois líderes criaram uma forte imagem de unidade e reconciliação europeia.
Foto: ullstein bild/Sven Simon
Queda do Muro
Kohl foi literalmente surpreendido pela queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. Ele estava em viagem pela Polónia quando os cidadãos da Alemanha Oriental invadiram a fronteira interna alemã, com a anuência dos guardas do lado oriental. Kohl interrompeu imediatamente sua visita à Polónia. Na foto, de 10 de novembro de 1989, ele é cercado por berlinenses na avenida Kurfürstendamm.
Foto: picture-alliance/dpa
Negociações com a União Soviética
Na foto Kohl (d) aparece junto com Mikhail Gorbatchov (centro), e o ministro alemão do Exterior, Hans-Dietrich Genscher (e), durante uma visita ao Cáucaso, em 15 de julho de 1990, para discutir a reunificação alemã. Durante uma caminhada com Gorbatchov, Kohl obtivera do então chefe do Kremlin a aprovação da reunificação do país e da retirada das tropas soviéticas da Alemanha Oriental.
Foto: picture-alliance/dpa
Acordo entre as Alemanhas
Na presença do chanceler da Alemanha Oriental, Lothar de Maizière (esq. atrás) e do chanceler federal Helmut Kohl (centro atrás), os ministros das Finanças da Alemanha Ocidental e Oriental, Theo Waigel (dir.) e Walter Romberg (esq.), assinam, em 18 de maio de 1990, o acordo da união monetária das duas Alemanhas. O acordo abriria o caminho para a reunificação das duas Alemanhas (RFA e RDA).
Foto: picture-alliance/dpa
Chanceler da reunificação
A reunificação alemã, em 3 de outubro de 1990, foi o ponto alto da carreira de Helmut Kohl. Ele entraria para a história como o "chanceler da reunificação". Na foto, tirada em frente do edifício do Parlamento alemão em Berlim, Kohl aparece ao lado da esposa Hannelore, do ministro do Exterior Hans-Dietrich Genscher (e) e do Presidente Richard von Weizsäcker (d).
Foto: picture-alliance/dpa
"Paisagens florescentes"
No início dos anos 1990, Kohl é festejado pelos alemães-orientais como promotor da Reunificação. É dessa época a famosa expressão "paisagens florescentes", que ele usou para se referir ao futuro imediato da antiga Alemanha Oriental, a República Democrática Alemã (RDA). A foto mostra o então chanceler cercado por admiradores em Leipzig, durante uma campanha eleitoral, em 14 de março de 1990.
Foto: picture-alliance/dpa
Mentor de Angela Merkel
Sem Kohl, o sucesso da atual chanceler federal alemã, Angela Merkel, é praticamente inconcebível. Foi ele que apoiou a política oriunda da Alemanha Oriental no início da sua carreira nacional, escolhendo-a para ser ministra da Família e, mais tarde, do Meio Ambiente. A foto é de 16 de dezembro de 1991, quando Merkel era ministra da Família. Mais tarde, Merkel viria a ser a primeira chanceler.
Foto: picture-alliance/dpa
A derrota de 1998: Fim de uma era
Em setembro de 1998, a CDU e Kohl perderam as eleições parlamentares. Venceu o SPD e o seu candidato Gerhard Schröder, que governou pela primeira vez na história alemã com uma coligação entre social-democratas e verdes. A foto mostra uma cerimónia de despedida para Kohl, em Berlim, com honras militares.
Foto: picture-alliance/dpa
Escândalo de caixa dois
Em 1999, a imagem de Kohl é duramente atingida por um escândalo de doações ilegais para campanhas eleitorais da CDU ao longo dos anos 1990. O partido vira as costas para Kohl, e a primeira a fazê-lo é Merkel, sua protegida. Na foto, de dezembro de 1999, Kohl deixa mais cedo uma entrevista coletiva sobre o caso. Ao fundo, o presidente da CDU, Wolfgang Schäuble, e a secretária-geral Angela Merkel.
Foto: picture-alliance/dpa
Relação rompida
Kohl acabou admitindo que sabia das doações, mas se recusou a dar o nome dos doadores, anônimos até hoje. O processo contra Kohl foi arquivado em troca de uma multa milionária, e ele se afastou da política. Merkel tentou várias vezes se reconciliar com seu antigo mentor, que rejeitou todas as tentativas de aproximação. A foto mostra os dois na festa de 75 anos de Kohl, em Berlim, em 2005.
Foto: picture-alliance/dpa
Segundo casamento e isolamento social
Em 2001 a primeira mulher de Kohl, Hannelore Kohl, cometeu suicídio. Sete anos mais tarde, Kohl casou-se pela segunda vez com Maike Richter (e). Os últimos anos da vida foram marcados por um isolamento social. Após uma queda em 2007, teve dificuldades a falar. Cortou as relações com os seus filhos. Poucas pessoas tiveram acessos a sua casa em Oggersheim, onde morreu em 16 de junho de 2017.