O custo humano, económico e político da barragem da Etiópia
11 de setembro de 2025
Uma revista etíope causou polémica depois de ter divulgado que pelo menos 15 mil pessoas poderão ter morrido durante a construção da Grande Barragem do Renascimento da Etiópia (GERD), que custou quase 5 mil milhões de dólares (4,2 mil milhões de euros), ao longo de 14 anos.
Numa entrevista à DW, o ministro etíope da Água e Energia, Habtamu Itefa, não quis confirmar nem negar as alegações. "Quanto aos números que estão a ser citados, a pergunta está errada, e a resposta também está errada. Para informações sobre isto, têm de recorrer às instituições competentes," disse à DW.
As mortes reportadas incluem engenheiros e trabalhadores, forças de segurança, motoristas e residentes que contribuíram ou apoiaram o projeto de várias formas.
O antigo diretor-geral do projeto GERD, Simegnew Bekele, é uma das figuras de destaque que faleceu em circunstâncias pouco esclarecidas, com especulações de que poderá ter sido assassinado devido à sua ligação à construção da barragem, em julho de 2018. Simegnew foi encontrado com uma ferida de bala no seu carro, no centro de Adis Abeba.
A cerimónia de inauguração da barragem, a 9 de setembro, atraiu dignitários de todo o continente. Esta grande barragem hidroelétrica deverá duplicar a produção de eletricidade da Etiópia.
Como financiou a Etiópia a construção da barragem?
Devido à sensibilidade geopolítica associada à barragem, a Etiópia não recebeu apoio financeiro dos principais financiadores internacionais, como o FMI, o Banco Mundial ou mesmo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD). Para financiar o projeto, o país recorreu à emissão de obrigações do Estado, mobilizou doações da população e chegou mesmo a incentivar os funcionários públicos a contribuírem com uma parte dos seus salários.
O projeto uniu os etíopes, superando divisões políticas, étnicas e económicas, com milhões a contribuir financeiramente através da compra de obrigações e de doações.
Empréstimos chineses ajudaram a estabelecer infraestruturas auxiliares como linhas de transmissão de energia e turbinas, mas a construção principal da parede da barragem foi inteiramente autofinanciada. A ousada decisão de usar fundos internos deu ao país controlo total sobre a barragem e poderá ser um modelo para outros países africanos.
"Quando alguns países africanos vêm aqui, perguntam como mobilizámos a sociedade para financiar e construir uma barragem assim," disse Asfaw.
Quem se opõe à barragem?
Os vizinhos a jusante, o Sudão e o Egito, têm manifestado há muito tempo preocupações de que a barragem possa afetar severamente os seus abastecimentos de água. O Egito, que depende quase exclusivamente do Nilo para o seu abastecimento de água doce, teme que a barragem possa reduzir a sua quota, o que considera uma ameaça existencial.
Apesar de anos de negociações, os três países ainda não chegaram a um acordo sobre a partilha da água. No entanto, a Etiópia rejeita as alegações, afirmando que respeitou a Declaração de Princípios de 2015, assinada pelos três países, e que tem partilhado regularmente atualizações com os países vizinhos.
"Acreditamos que esta barragem é para todos. A Etiópia está pronta para qualquer discussão," disse Itefa à DW, acrescentando que a Etiópia tem partilhado dados do fluxo do rio com o Sudão nos últimos três anos para criar confiança com os seus vizinhos.
"A comunidade internacional deve compreender que permitir ao nosso povo uma vida melhor, incluindo os nossos países irmãos, Sudão e Egito, significa uma vida melhor para todos", acrescenta.
A Etiópia obteve o apoio de países a montante, como o Uganda, que apoia um acordo regional para a utilização equitativa da água, mas o Egito e o Sudão ainda não aderiram.
A Etiópia recebeu apoio de países a montante, como o Uganda, que defendem um acordo regional para a utilização equitativa da água, mas o Egito e o Sudão ainda não subscreveram o acordo.
"O nosso desejo é que as negociações possam continuar pelo tempo que for necessário, através da União Africana. A barragem está concluída e estamos a transitar para as operações," disse Gedion Asfaw, presidente do Comité Técnico da Equipa Etíope de Negociação, à DW. "As negociações continuarão com base na utilização justa e razoável", acrescenta.
O Tratado das Águas do Nilo de 1959
O Tratado das Águas do Nilo de 1959, frequentemente referido como Tratado Egito-Sudão, foi um acordo bilateral entre o Egito e o Sudão.
O Egito baseia atualmente a sua quota das águas do rio no tratado de 1959, que lhe atribuiu 55,5 mil milhões de metros cúbicos de água por ano. O Sudão reservou para si 18,5 mil milhões de metros cúbicos das águas do Nilo.
O Nilo Azul e o Nilo Branco unem-se no Sudão antes de fluírem para o Egito e em direção ao Mediterrâneo.
A Etiópia, amplamente considerada a fonte do Nilo Azul, que contribui com 85% do caudal do rio, não foi incluída no tradado de 1959. Adis Abeba não reconhece o tratado.
O Nilo Branco, o afluente mais longo do Nilo, atravessa 11 países, incluindo Uganda, Quénia, Tanzânia, Ruanda, Burundi, República Democrática do Congo e Sudão do Sul. Estes países ribeirinhos não eram independentes em 1959 e também foram excluídos do tratado.
A exclusão da Etiópia e dos outros estados ribeirinhos é uma das principais razões pelas quais o tratado continua a ser controverso até hoje.
O local da barragem foi inicialmente identificado pelo Departamento de Reivindicação dos EUA durante o levantamento do Nilo Azul, realizado entre 1956 e 1964 durante o reinado do imperador Haile Selassie.
No entanto, devido ao golpe de 1974 na Etiópia, que derrubou Selassie, à invasão da Somália à Etiópia em 1977-78 e à guerra civil etíope de 15 anos, o projeto não avançou até ao início dos anos 2000. O Governo etíope realizou avaliações do local em outubro de 2009 e agosto de 2010.
Um projeto para a barragem foi submetido em novembro de 2010, e o investimento de 5 mil milhões de dólares foi anunciado a 31 de março de 2011. O ex-primeiro-ministro Meles Zenawi lançou a primeira pedra da GERD a 2 de abril de 2011.