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O outro lado da queda do preço do petróleo em Angola

Nádia Issufo 27 de janeiro de 2015

Afinal nem tudo é tão mau na queda do preço do petróleo a nível internacional. Há quem tenha ganhos, como por exemplo as potências económicas. Já para Angola eles só serão visíveis a longo prazo se houver investimento.

Plataforma petrolífera da Total em AngolaFoto: AFP/Getty Images

Se por um lado estão claras as consequências nefastas para a economia angolana da baixa no preço do petróleo no mercado internacional, por outro se vislumbram oportunidades de alavancar outros motores da economia, como a agricultura e a indústria transformadora.

Economistas ouvidos pelo Jornal angolano "Sol" partilham desta visão, tal como o economista Francisco Filomeno Vieira entrevistado pela DW África: "Pode haver aqui uma grande oportunidade para o desenvolvimento de outros setores e, pela primeira vez, pensar-se de forma mais séria na diversificação da economia angolana."

Mas Filomeno Vieira apresenta algumas ressalvas, argumentando que "o impacto dessa diversificação não é imediato porque a organização da economia angolana exige mais tempo e esforços. Portanto, não vamos ter um impacto imediato, vamos ter naturalmente um efeito a médio e longo prazo."

Indústria angolana é fraca

Filomeno Vieira, economista e também membro de um partido político, o Bloco DemocráticoFoto: Alexandre Solombe

Mas a crise é contudo desvalorizada por um outro economista, António Sapalo. Segundo ele, ao longo destes anos Angola teve receitas elevadas traduzidas em reservas que hoje deveriam ser usadas.

E ao longo destes anos o país deveria ter-se preocupado mais com a diversificação da sua economia, acrescenta. E Sapalo deixa um alerta: "Esses setores todos só podem crescer no mínimo a médio e não a curto prazo. E se nós precisamos a médio prazo evoluir, do ponto de vista estrutural, então tem que haver a longo e médio prazos uma definição de medidas políticas mais consentaneas, porque caso contrário o país terá problemas graves."

O economista António Sapalo também questiona a capacidade da indústria angolana de conseguir tirar vantagens do momento: "Atualmente não podemos falar da indústria angolana como algo capaz de suportar a vida económica e social deste país. Neste momento de crise ela estaria preparada se no passado investimentos substanciais tivessem sido efetuados."

Potências económicas ganham mais

Mas quem colhe maiores benefícios com a queda do preço do petróleo no mercado internacional são principalmente os importadores.

O dólar está em alta e em falta no mercado cambial angolanoFoto: Fotolia/Africa Studio

De acordo com Francisco Filomeno Vieira a economia global lucra com a baixa de derivados do petróleo: "Países que tenham uma economia de mercado organizada vão ter a gasolina, gasóleo e outros derivados do crude mais baixos. Portanto, há aqui uma percepção de que isso irá acontecer a nível internacional e por consequência poderá criar alguns impactos positivos nestes países. Os consumidores poderão fazer mais poupanças e assim investir em certas áreas."

Ao nível da valorização da moeda o economista lembra que "também no caso do Estados Unidos da América temos registado já uma apreciação do dólar. Neste contexto o dólar está a ficar mais forte."

Angola tem mais perdas que ganhos

Voltando as consequências ao nível de Angola, o economista lembra que o país acumula mais perdas do que ganhos. Filomeno Vieira recorda que o petróleo produz uma grande receita para Angola e, por consequência, o nível de crédito que a economia nacional dispunha no passado deixará de dispor.

O aumento do preço do combustível deixou muitos angolanos revoltadosFoto: DW/C.V. Teixeira

Contrariamente ao dólar o kwanza está em desvalorização, o que irá ditar o aumento das importações a curto prazo. O economista angolano deixa claro que a gestão desta crise económica depende também de uma boa governação: "Se a nível dos poderes públicos existir uma certa consciência dos desperdícios que no passado fizemos e que agora deve existir uma melhor gestão na aplicação de fundos, poderá então daí resultar um efeito extremamente positivo. Mas isso depende muito da capacidade da classe política no sentido de poupar no consumo exagerado por parte desta elite."

Um paradoxo com lógica

Entretanto, o país vive ainda um paradoxo; o preço do combustível sofreu um aumento de 20%, apesar da queda no preço do crude no mercado internacional. Este aumento, por sua vez, origina o encarecimento de outros produtos e serviços, tornando ainda mais difícil o quotidiano da população angolana.

Mas há ganhos e até uma lógica nesta contradição, segundo Francisco Filomeno Vieira: "Poderá ter um efeito positivo nas finanças públicas. O preço do crude baixa, mas como o preço dos derivados a nível do consumo é subsidiado, o Estado tem um ganho porque a subvenção, em príncipio, diminui devidio ao custo mais baixo do trabalho na refinaria. Neste momento existe uma subvenção do Estado, mas que se tenta eliminar".

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