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O que está por trás dos protestos no Senegal?

12.03.2021

Opositor Ousmane Sonko é considerado pivô da revolta contra o Governo, entenda os motivos. M2D convoca manifestações para sábado e cumpre luto em memória das vítimas da repressão aos protestos da semana passada.

O Movimento de Defesa da Democracia (M2D) convocou para este sábado (13.03) uma manifestação pacífica no Senegal.

Na semana passada, violentos protestos mortíferos geraram forte clima de tensão política num país da África Ocidental do Senegal que sempre foi considerado bastião da democracia e líder regional em diplomacia. Manifestantes incendiaram estabelecimentos comerciais e enfrentaram a polícia.

Composto por partidos de oposição e grupos da sociedade civil, o M2D cumprirá esta sexta-feira (12.03) um dia de luto nacional em memória das vítimas da repressão aos protestos - quando alega que 11 pessoas foram mortas pelas forças de segurança. Números oficiais indicam cinco mortes. Além disso, o movimento exige a libertação do que considera "prisioneiros políticos”.

As manifestações tiveram início após a detenção do líder oposicionista Ousmane Sonko, na semana passada. Foi-lhe ordenado que comparecesse a um tribunal para prestar esclarecimentos sobre acusações de violação sexual. No caminho, o político foi preso por alegadamente perturbar a ordem pública após centenas de seus apoiantes enfrentarem a polícia. Na segunda-feira, ele foi libertado da custódia policial depois de ter sido acusado de violação e ameaças de morte.

As primeiras alegações surgiram em fevereiro, quando uma funcionária de um salão de beleza onde Sonko recebia massagens apresentou uma queixa. O presidente do partido PASTEF diz que se trata de uma conspiração desenhada pelo Presidente Macky Sall para o manter o oposicionista fora das próximas presidenciais, em 2024.

Ousmane Sonko é acusado de violação

Quem é Ousmane Sonko?

A juventude senegalesa aderiu em massa aos protestos da semana passada e deve estar presente em grande número nas manifestações este sábado. Caroline Hauptmann, da fundação alemã Konrad-Adenauer no Senegal explica que Sonko conseguiu colocar os problemas que afligem os jovens novamente na ordem do dia.

"A questão do desemprego, da falta de perspectivas, a emigração clandestina... Nos últimos meses centenas de pessoas morreram, tem uma grande carga emocional”, explica

Observadores consideram que o apoio dos jovens à oposição é um sinal de frustração com as más condições de vida em plena crise económica agravada pela pandemia de Covid-19. Mas haveria também razões mais profunda. "Tem a ver com a democracia, que foi confiscada. Porque, desde que Macky Sall assumiu o poder, as liberdades diminuíram, estão em declínio”, acrescenta o rapper e ativista Fou Malade

Ousmane Sonko, de 46 anos, é um político da oposição que se tornou conhecido durante as eleições presidenciais de 2019. Ele recebeu pouco mais de 15% dos votos, terminando em terceiro lugar, mas os seus discursos condenando a corrupção e a pobreza atraiu muitos senegaleses.

Diante de questões cruciais que afetam a população - como desemprego, emigração e tolhimento de liberdades - as acusações de violação contra Ousmane Sonko parecem estar a ser ignorada.

Manifestantes invadiram estabelecimentos comerciais

Justiça independente?

"Temos uma justiça que é usada para eliminar opositores, ativistas, qualquer pessoa que contribua para despertar consciências. Neste caso, Adji Sarr [que apresentou queixa contra Sonko] não passa de uma simples vítima que o poder usou para eliminar um opositor”, opina Fou Malade.

Já o President Macky Sall rejeita estas alegações e pede aos senegaleses que deixem a justiça seguir o seu curso de forma independente.

Os problemas legais de um opositor não são, no entanto, uma novidade na governação de Sall. Karim Wade - filho do antigo Presidente Abdoulaye Wade - e Khalifa Sall foram impedidos de se candidatarem às eleições de 2019 devido a condenações judiciais que muitos descreveram como "fabricadas”.

Para a oposição política senegalesa, o processo de violação contra Sonko encaixa-se num padrão de perseguição dos opositores do Governo. "A suspeita de acusações falsas está lá, foi denunciada no passado, mas não há quaisquer provas. Por isso, não se pode fazer qualquer declaração neste momento sobre se foram ou não fabricadas”, salienta Hauptmann.

Entretanto, grupos de defesa dos direitos das mulheres têm expressado a sua preocupação perante um ambiente político cada vez mais agressivo.

Para Safiatou Diop, presidente da rede Siggil Jihuen – uma coalizão de organizações pelos direitos das mulheres – seja o Governo ou a oposição, os políticos entraram numa batalha com armas nada convencionais. "É inaceitável que atores políticos em conflito usem uma mulher para se neutralizarem”, protesta.

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