Especialistas em segurança apontam as fragilidades do Estado, a busca por logística e as fragilidades de segurança como as causas que estão a levar os insurgentes para o sul da província de Cabo Delgado.
Fragilidades do Estado, busca por logística e fragilidades de segurança são causas apontadas por especialistas.Foto: DW
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Chegam em catadupa os relatos da expansão da insurgência do norte de Cabo Delgado para o sul da província. Nas últimas semanas, Ancuabe, Chiúre e Balama têm sido os alvos preferenciais dos insurgentes, que aterrorizam a população, inclusive com decapitações. As tradicionais áreas em que atuam também continuam a não ter paz.
Em entrevista à DW, Calton Cadeado, especialista em segurança, apresenta possíveis causas:
"Primeiro, estão a explorar a nossa fragilidade. Segundo, estão em busca de logística. A coisa pode ficar mais completa se analisarmos a capacidade de financiamento que esse grupo tem, mas em termos de logística, há indicações que estão com problemas. O terceiro ponto é que, provavelmente, depois de muito tempo em que sofreram as ações ofensivas do Estado, reagruparam-se e voltaram para mostrar que ainda estão vivos", diz.
Mais de 57 mil pessoas foram deslocadas desde 20 de julho na província moçambicana de Cabo Delgado, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM)Foto: ALFREDO ZUNIGA/AFP/Getty Images
Consolidam estas suposições o facto, por exemplo, dos insurgentes atacarem especificamente transportadores de mercadorias e áreas de produção agrícola, onde invariavelmente furtam alimentos e outros bens para o seu sustento.
"Governo tem-se esforçado bastante"
Já relativamente às respostas das Forças de Defesa e Segurança à ofensiva insurgente, as notícias são escassas. Será que a segurança da população em Cabo Delgado foi relegada para segundo plano?
Canuma Silvestre Canuma, diretor da organização "Paz de Moçambique", acredita que não. Na sua opinião, "o Governo tem-se esforçado bastante".E prova disso, diz, é que "logo após o ataque, foi enviada uma equipa governamental que ajudou a criar centros de acolhimento".
No entanto, nota Canuma, "Moçambique não está suficientemente unido a Cabo Delgado. Quando estes ataques acontecem, parece que ocorreram noutro país; não há uma sensibilidade generalizada. As informações são escassas", lamenta.
Já o grupo Estado Islâmico (EI) aproveita-se, nos últimos dias, das incursões dos seus afiliados em Cabo Delgado para intensificar a propaganda.
No contexto desta expansão, os insurgentes têm igualmente incendiado instituições cristãs, sequestrado e recrutado cidadãos, incluindo crianças, e provocado a fuga massiva das populações para lugares mais seguros, que já começam a ser poucos, na província.
Como então? Luta antiterrorismo em Cabo Delgado corre bem?
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Rufino Sitoi, especialista em terrorismo, que vai no mesmo diapasão da análise de Cadeado, acrescenta que outro fator que favorece os atacantes é a fragilidade de segurança.
"Uma das razões que faz com que grupos, sobretudo numa região como Cabo Delgado, se expandam são as dificuldades que enfrentam nos locais onde operam - estamos a falar de Macomia, Palma, Mocímboa da Praia. Quando enfrentam dificuldades nestas regiões, tendem a mover-se para outras onde o quadro de segurança seja mais fácil, onde possam conseguir logística e conseguir recrutas. Sabe-se que têm conseguido recrutas de forma forçada. Isso talvez tenha a ver com a mudança no quadro de segurança", explica.
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Zona sul menos protegida
Uma destas zonas que tende a ser menos protegida, é precisamente o sul de Cabo Delgado. Isto, quando comparada, "com o norte onde estão as bases militares", explica.
Numa altura em que já aumentam os relatos sobre a presença de insurgentes no norte da vizinha província de Nampula, uma expansão para sul de Cabo Delgado acirra o medo e as preocupações com o alastramento da guerra para outros pontos do país.
O recrudescimento também ocorre numa altura em que a multinacional do gás TotalEnergies planeia retomar as operações na província, após um longo interregno no contexto da insurgência. Em 2021, a petrolífera suspendeu tudo invocando força maior.
Começaram em outubro de 2017 em Mocímboa da Praia e já se alastraram a outros três distritos moçambicanos. Os ataques armados na província de Cabo Delgado, que somam já mais de 130 mortos, ainda não têm solução à vista.
Foto: DW/G. Sousa
Outubro de 2017
Os primeiros ataques de grupos armados desconhecidos na província de Cabo Delgado aconteceram no dia 5 de outubro de 2017 e tiveram como alvo três postos da polícia na vila de Mocímboa da Praia. Cinco pessoas morreram. Cerca de um mês depois, a 17 de novembro, as autoridades dão ordem de encerramento a algumas mesquitas por se suspeitar terem sido frequentadas por membros do grupo armado.
Foto: Privat
Dezembro de 2017
Surgem novos relatos de ataques nas aldeias de Mitumbate e Makulo, em Mocímboa da Praia. Na primeira semana de dezembro de 2017, terão sido assassinadas duas pessoas. Vários suspeitos foram identificados, tendo os moradores dado conta que os atacantes deram sinais de afiliação muçulmana. Por sua vez, a polícia desmentiu o envolvimento do grupo terrorista Al-Shabaab nestes ataques.
Foto: DW/G. Sousa
Janeiro a maio de 2018
Apesar de ter começado calmo, 2018 revelar-se-ia um ano de terror na província de Cabo Delgado com os ataques a alastrarem-se a mais distritos. Dada a gravidade da situação, a Assembleia da República aprovou, a 2 de maio, a Lei de Combate ao Terrorismo. Mas, no final do mês, dia 27, novos ataques foram realizados junto a Olumbi, distrito de Palma. Dez pessoas morreram, algumas decapitadas.
Foto: Privat
2 de junho de 2018
Dias mais tarde, a televisão STV dava conta que as forças de segurança moçambicanas haviam abatido, nas matas de Cabo Delgado, oito suspeitos de participação nos ataques. Foram ainda apreendidas catanas e uma metralhadora AK-47, além de comida e um passaporte tanzaniano. Por esta altura, já milhares de pessoas haviam abandonado as suas casas, temendo a repetição dos episódios de terror.
Foto: Borges Nhamire
4 de junho de 2018
Ainda se "festejava" os avanços na investigação das autoridades, e consequente abate dos suspeitos quando, a 4 e 7 de junho, se registaram novos incêndios nas aldeias de Naunde e Namaluco. Sete pessoas morreram e quatro ficaram feridas. Foram ainda destruídas 164 casas e quatro viaturas. O mesmo cenário voltou a repetir-se a 22 de junho: um novo ataque na aldeia de Maganja matou cinco pessoas.
Foto: Privat
29 de junho de 2018
Fortemente criticado por não se ter ainda pronunciado acerca dos ataques, o Presidente moçambicano Filipe Nyusi resolve fazê-lo, em Palma, perante um mar de gente. Oito meses e 33 mortos [25 vítimas dos ataques e oito supostos atacantes] depois... Em Cabo Delgado, Nyusi prometeu proteção aos cidadãos e convidou os atacantes a dialogar consigo, de forma a resolver as suas "insatisfações".
Foto: privat
Agosto de 2018
Depois de, em julho, um novo ataque à aldeia de Macanca - Nhica do Rovuma, em Palma, ter feito mais quatro mortos, Filipe Nyusi desafiou, a 16 de agosto, os oficiais promovidos no exército, por indicação da RENAMO, a usarem a sua experiência no combate contra estes grupos armados que, mais tarde, a 24 do mesmo mês, tirariam a vida a mais duas pessoas, na aldeia de Cobre, distrito de Macomia.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Setembro de 2018
Setembro de 2018 voltava a ser um mês negro no norte de Moçambique. Ataques nas aldeias de Mocímboa da Praia, Ntoni e Ilala, em Macomia, deixaram pelo menos 15 mortos e dezenas de casas destruídas. No final do mês, o ministro da Defesa, Atanásio Mtumuke, afirmou que os homens armados responsáveis pelos ataques seriam "jovens expulsos de casa pelos pais".
Foto: Privat
Outubro de 2018
Um ano após o início dos ataques em Cabo Delgado, a polícia informou que os mais de 40 ataques ocorridos, haviam feito 90 mortos, 67 feridos e destruído milhares de casas. Foi também por esta altura que Filipe Nyusi anunciou a detenção de um cidadão estrangeiro suspeito de recrutar jovens para atacar as aldeias. No final do mês, começaram a ser julgados 180 suspeitos de envolvimento nos ataques.
Foto: privat
Novembro de 2018
Novos relatos de mortes macabras surgem na imprensa. Seis pessoas foram encontradas mortas com sinais de agressão com catana na aldeia de Pundanhar, em Palma. Dias depois, o cenário repetiu-se nas aldeias de Chicuaia Velha, Lukwamba e Litingina, distrito de Nangade. Balanço: 11 mortos. Em Pemba, o embaixador da União Europeia oferecia ajuda ao país.
Foto: Privat
6 de dezembro de 2018
A população do distrito de Nangade terá feito justiça pelas próprias mãos e morto três homens envolvidos nos ataques. Na altura, à DW, David Machimbuko, administrador do distrito de Palma, deu conta que "depois de um ataque, a população insurgiu-se e acabou por atingir alguns deles". Entretanto, o Ministério Público juntou mais nomes à lista dos arguidos neste caso. Entre eles está Andre Hanekom.
Foto: DW/N. Issufo
16 de dezembro de 2018
A 16 de dezembro, e após mais um ataque armado no distrito de Palma, que matou seis pessoas, entre as quais uma criança, Moçambique e Tanzânia anunciaram uma união de esforços no combate aos crimes transfronteiriços. 2018 chegava assim ao fim sem uma solução à vista para os ataques que já haviam feito, pelo menos, 115 mortos. O julgamento dos já acusados de envolvimento nos ataques continua.
Foto: privat
Janeiro de 2019
O novo ano não começou da melhor forma. Sete pessoas morreram quando um grupo armado intercetou uma carrinha de caixa aberta que transportava passageiros entre Palma e Mpundanhar. Na semana seguinte, outras sete pessoas foram assassinadas a tiro no Posto Administrativo de Ulumbi. Um comerciante foi ainda decapitado em Maganja, distrito de Palma, no passado dia 20.