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PolíticaSíria

O regresso do ditador sírio Bashar al-Assad?

Cathrin Schaer
16 de janeiro de 2023

Comentários recentes de líderes árabes indicam que Assad e o regime sírio podem estar de regresso ao plano internacional. Apesar das acusações de crimes de guerra, as barreiras à sua aceitação mundial estão a diminuir.

Foto: OMAR HAJ KADOUR/AFP

Milhares de sírios continuam a protestar contra o regime no norte do país. No entanto, apesar dos protestos em curso, o líder da Síria, Bashar al-Assad, está lentamente a preparar a sua reabilitação no palco regional, se não mesmo mundial.

Pouco depois do início da revolução na Síria, em 2011, e da brutal repressão contra protestos pacíficos anti-governamentais, a maioria das nações árabes cortou os laços com Assad.

Mas cerca de uma década depois, a maré parece estar a mudar à medida que os líderes regionais reconsideram os laços com Damasco, tendo em vista aspetos como a migração, a própria segurança e temas económicos.

Há pouco mais de uma semana, o ministro dos Negócios Estrangeiros dos Emirados Árabes Unidos, Abdullah bin Zayed Al Nahyan, esteve em Damasco para se encontrar com Assad. Recentemente, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan - tido como inimigo de longa data de Assad - disse que também ele se poderia encontrar em breve com o governante sírio e os seus aliados russos.

Acolhimento regional favorável

Durante anos, a Síria beneficiou do apoio dos Emirados Árabes Unidos. Em finais de dezembro de 2018, os Emirados e o Bahrain reabriram as suas embaixadas em Damasco, depois de ambas terem sido encerradas em 2011.

Desde 2018, o apoio ao Governo de Assad, que é acusado de crimes de guerra e contra a humanidade, tem aumentado gradualmente.

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Em setembro de 2021, os ministros da Energia da Jordânia, Síria, Líbano e Egito concordaram que o Líbano importaria gás egípcio e eletricidade da Jordânia através da Síria.

Em outubro de 2021, o rei jordano, o primeiro líder árabe a pedir a demissão de Assad, telefonou ao líder sírio. Foi a primeira conversa entre os dois no espaço de uma década e aconteceu após vários meses de cooperação sírio-jordaniana em matéria de segurança e comércio.

Vários países, incluindo o Iraque, o Líbano e a Argélia, apelaram também para que a Síria voltasse a ser acolhida na Liga Árabe, que é composta por 22 membros e fomenta os laços regionais. A Síria foi suspensa do organismo em 2011.

Obstáculos à reconciliação

Mas o caminho de Bashar al-Assad até à reabilitação total "continua bloqueado por três obstáculos significativos: os Estados Unidos, a União Europeia e a NATO", escreveu Christopher Phillips, professor de relações internacionais na Queen Mary University de Londres, numa análise publicada no jornal Washington Post, em 2019, após uma onda de gestos pró-Assad no mundo árabe.

Ainda assim, este mês, depois do Presidente da Turquia especular sobre uma reunião de alto nível, as barreiras referidas por Phillips poderão em breve cair por terra.

Os comentários de Erdogan surgiram depois de altos funcionários turcos e sírios se terem reunido em Moscovo. A Rússia, um importante aliado sírio, tem estado fortemente envolvida na guerra civil no país e tem insistido em melhorar as relações entre a Turquia e a Síria. Os ministros dos Negócios Estrangeiros dos três países provavelmente irão reunir-se ainda no final deste mês.

Recep Tayyip Erdogany, Presidente da TurquiaFoto: DHA

Mas é preciso algum cuidado ao considerar a abertura demonstrada por Erdogan como uma verdadeira reconciliação, disse Phillips à DW. Há uma grande diferença entre um encontro entre ministros dos Negócios Estrangeiros e uma "reconciliação total", diz.

"Há enormes obstáculos a isso, sobretudo em Idlib e no norte da Síria, as áreas que a Turquia controla atualmente", explica o académico.

A Turquia tem apoiado a oposição síria durante o conflito e Idlib, o último território dominado pelos rebeldes na Síria, é protegido pela Turquia, tal como outras áreas mais pequenas no norte do país. É, por isso, pouco provável que a Turquia queira retirar-se destas regiões rapidamente.

A política interna da Turquia

Observadores consideram que Erdogan quer usar este aspeto da política externa para reforçar a sua popularidade junto dos eleitores nas próximas eleições, que deverão ter lugar em junho deste ano. A política externa turca enfatiza que algumas partes da Síria são controladas por grupos sírio-curdos, que a Turquia considera inimigos do Estado.

"Especialmente quando se trata de questões curdas, não vejo como [a Síria e a Turquia] podem realmente chegar a um acordo", afirma Bente Scheller, da Fundação Heinrich Böll, em Berlim.

As declarações do líder turco também têm que ver com os mais de 3 milhões de refugiados sírios na Turquia. "Erdogan está agora em modo de campanha e, claro, vê um grande potencial na publicidade de que os milhões de refugiados sírios na Turquia poderiam finalmente regressar à Síria", acrescenta Scheller.

Apesar das dúvidas sobre Erdogan e sobre a possibilidade de uma completa reabilitação diplomática do regime sírio, entre os especialistas não há dúvidas de que, em muitos aspetos, Assad já conseguiu o que pretendia.

Antes da guerra civil síria, Assad (à direita) e Erdogan (à esquerda) encontravam-se frequentemente e tinham uma relação cordialFoto: BULENT KILIC/AFP/Getty Images

"Ele já ganhou, no sentido de que a guerra era principalmente sobre se ele estava no comando", diz Phillips. "E ele ainda está no comando da maior parte da Síria. Em termos militares, a oposição já não é uma alternativa viável. Mas, obviamente, é uma vitória de Pirro, porque grande parte do país foi destruído", lembra.

Esta "vitória" também resultou numa abordagem cada vez mais pragmática por parte dos vizinhos regionais.

Há precedentes históricos, acrescenta Phillips, que recorda que tanto o Sudão como o Egito foram ambos isolados pelos seus vizinhos árabes. O Sudão foi ostracizado nos anos 90 pelo seu apoio a organizações terroristas islamistas e o Egito foi suspenso da Liga Árabe durante uma década a partir de 1979, porque assinou um tratado de paz com Israel.

"Não seria invulgar que Assad fosse acolhido de novo no seio do rebanho regional", argumenta Phillips. "Mas penso que é muito mais difícil para os governos ocidentais reconciliarem-se com Assad, a menos que recebam algo significativo em troca", acrescenta.

Impacto da guerra na Ucrânia sobre aliado da Rússia

No entanto, grandes concessões do regime de Assad relativamente ao Ocidente são improváveis, o que significa que podem ainda manter-se os dois outros grandes obstáculos à reabilitação de Assad.

A dada altura, alguns Estados-membros da União Europeia (UE) pareciam estar divididos sobre se deveriam continuar a isolar a Síria. Para países como a Grécia, Roménia, Bulgária e mesmo Itália e Espanha, há laços históricos através do Mediterrâneo, além de questões a ter em conta como a migração irregular, a ajuda humanitária, a estabilidade regional e a exploração de gás.

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No entanto, a guerra na Ucrânia mudou tudo isso, diz Phillips. "Antes [da invasão da Ucrânia pela Rússia] havia uma hipótese realista de que alguns Estados do sul da Europa teriam considerado uma normalização silenciosa com Assad. Mas a guerra da Ucrânia uniu mais firmemente os europeus em oposição à Rússia", argumenta.

Atualmente, ninguém quer reconciliar-se com Assad, um dos aliados mais firmes de Moscovo.

É ainda menos provável que os Estados Unidos relaxem a sua posição em relação à Síria. "Não vamos normalizar e não apoiamos outros países a normalizar as relações com o regime de Assad", disse o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Ned Price, numa conferência de imprensa a 5 de janeiro, quando instado a comentar uma potencial reunião entre Erdogan e Assad.

Do lado dos sírios

Phillips acredita que a única coisa que poderá mudar o status quo é se o apoio sírio for subitamente necessário internacionalmente.

Por exemplo, no início dos anos 90, depois de durante anos Washington olhar para a Síria com suspeita devido à posição anti-israelita do país, a Síria tornou-se parte de uma coligação liderada pelos EUA que lutava contra as forças iraquianas no Kuwait na sequência da invasão de Saddam Hussein.

Mas ativistas sírios continuam a rejeitar esta perspetiva, por muito pragmática que possa parecer a outros países. E com razão, diz Laila Kiki, diretora da organização The Syria Campaign, baseada no Reino Unido.

"A normalização do regime envia uma mensagem a milhões de sírios, que foram sujeitos a atrocidades, de que o seu sofrimento é negligenciado", disse à DW. "Este é um regime que matou a tiro manifestantes pacíficos e que bombardeou indiscriminadamente dezenas de milhares de pessoas do seu próprio povo. É vital que os líderes de toda a comunidade internacional, e em particular da UE, se mantenham ao lado dos sírios apelando à liberdade e à democracia, pronunciando-se contra a normalização", conclui Kiki.

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