O Presidente da República de São Tomé e Príncipe nomeou como primeiro-ministro o líder do MLSTP-PSD. Jorge Bom Jesus será o sucessor de Patrice Trovoada, da ADI, partido do Presidente que esteve no Governo desde 2010.
Jorge Bom JesusFoto: DW/R. Graca
Publicidade
O Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe - Partido Social Democrata (MLSTP-PSD) foi apenas o segundo partido mais votado nas últimas eleições, elegendo 23 deputados.
Mas como o MLSTP-PSD assinou um acordo de incidência parlamentar com a coligação , que tem cinco assentos parlamentares, chegou a uma maioria absoluta (28 deputados). Assim conseguiu garantir a sustentabilidade parlamentar necessária para formar um governo composto pelas duas forças. Nestas legislativas, o Movimento Independente de Caué elegeu também dois deputados e já prometeu "apoiar o partido que tem maioria no parlamento".
Por isso, o Presidente do país, Evaristo Carvalho da ADI, assinou um decreto nesta quinta-feira (29.11) que deu posse a um Governo liderado por Jorge Bom Jesus do MLSTP-PSD.
ADI não conseguiu formar um Governo apesar de ter maioria relativa
A Ação Democrática Independente (ADI), até agora no poder, venceu as eleições apenas com maioria simples - 25 dos 55 deputados da Assembleia Nacional - e reclamou o direito constitucional de formar Governo. Mas a ADI não conseguiu alcançar uma maioria absoluta coligando-se a um dos outros partidos no Parlamento.
Falharam duas tentativas da ADI de indicar um novo primeiro-ministro: na semana passada, o ministro da Educação do governo cessante, Olinto Daio, recusou avançar na formação de novo Governo, como a direção da ADI tinha proposto. Nesta quarta-feira, o partido indicou Álvaro Santiago, antigo ministro da Educação e ex-vice-governador do Banco Central de São Tomé e Príncipe (BCSTP) para o cargo de primeiro-ministro. Patrice Trovoada, líder do partido e primeiro-ministro cessante, anunciou, ao final do dia desta quarta-feira, a suspensão das suas funções como presidente do ADI por considerar que Álvaro Santiago não tem o perfil necessário para alcançar um Governo de base alargada ou de unidade nacional, como tem defendido.
Evaristo Carvalho (à esq.) e Patrice Trovoada (foto de arquivo)Foto: DW/R. Graca
Presidente Evaristo Carvalho justifica a sua decisão
O Presidente da República de São Tomé e Príncipe, Evaristo Carvalho, justificou a sua decisão com "a atual correlação de forças" no parlamento e "os superiores interesses" do país. O chefe de Estado refere, no seu decreto, ter ouvido os partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia Nacional, resultante das eleições legislativas realizadas em 7 de outubro, justificando a sua decisão com a "atual correlação de forças políticas nessa mesma assembleia, e tendo em conta os superiores interesses da Nação".
"É, nos termos da alínea g) do artigo 81.º, conjugado com o número 1 do artigo 110.º, ambos da Constituição da República, e sob proposta do partido MLSTP-PSD, nomeado para o exercício do cargo de primeiro-ministro e chefe do XVII Governo Constitucional o senhor Jorge Lopes Bom Jesus", lê-se no decreto do Presidente são-tomense, Evaristo Carvalho. O decreto presidencial "entra imediatamente em vigor", refere ainda o documento.
Segundo a Presidência da República são-tomense, a posse do novo Governo decorrerá no próximo sábado, pelas 11:00 hora local.
Manuel Pinto da Costa, na altura do MLSTP, foi primeiro Presidente de São Tomé e PríncipeFoto: Ramusel Graca
História do MLSTP-PSD
O MLSTP-PSD, então conhecido como Comité pela Libertação de São Tomé e Príncipe, foi fundado em 1960 como um grupo nacionalista contrário ao Governo Colonial Português. Em 1972, o CLSTP muda de nome e torna-se MLSTP, partido de inspiração socialista. Depois do 25 de Abril de 1974 em Portugal e o fim do colonialismo português em África, o novo governo de Portugal entregou o poder ao MLSTP.
Depois da independência a 12 de julho de 1975, o MLSTP foi partido único em São Tomé e Principe. Manuel Pinto da Costa foi primeiro Presidente do país e Miguel Trovoada, pai de Patrice Trovoada da ADI, o primeiro-ministro.
No final de 1989, o partido iniciou uma transição para um sistema democrático multipartidário. Nas primeiras eleições democráticas de 1991, o MLSTP sofreu uma esmagadora derrota com 30,5%. Ganhou as três eleições seguintes, em 1994 (37,1%), 1998 (46,1%) e 2002 (39,6%), e obteve a maioria dos deputados na Assembleia Nacional.
Em 2006 perdeu o primeiro lugar com 29,5%. Em 2010 também ficou no segundo lugar com 32,8% dos votos, perdendo para a ADI. As eleições de 2014 tiveram o mesmo resultado: a ADI venceu e o MLSTP-PSD recebeu apenas 24,7% dos votos.
Cacau: semente do desenvolvimento de São Tomé
Após a nacionalização das fazendas de cacau, as roças, em 30 de setembro de 1975, a produção diminuiu. Hoje, as roças voltaram a ser privadas e há esperanças que contribuam novamente para o desenvolvimento do país.
Foto: DW/R. Graça
Trabalho na roça começa cedo
Antes do sol penetrar na mata da Roça Olivais Marim, na zona sul de São Tomé, os poucos agricultores já trabalham nas plantações de cacau - principal produto de exportação do país. Após a nacionalização das roças, em 30 de setembro de 1975, a produção diminuiu. A exportação do cacau não passou de 12.000 toneladas/ano. Nos anos 80, a exportação baixou ainda mais, para 3.000 toneladas.
Foto: DW/R. Graça
Má gestão levou a êxodo rural
A nacionalização das fazendas em 1975 deu origem à formação de 15 grandes empresas estatais, que entraram em declínio. A queda da produção do cacau abriu o caminho às privatizações nos anos 90. Porém, muitas terras continuaram improdutivas e iniciou-se um êxodo rural das populações nas zonas das roças. Agora, 2.500 hectares de terras estão a ser desbravadas e reaproveitadas.
Foto: DW/R. Graça
Clima ideal
Agricultora prepara viveiros para reabilitar as plantações abandonadas da Roça Granja. São Tomé e Príncipe possui as condições climáticas favoráveis ao cultivo do cacau: terras de origem vulcânica, solo fértil e boa temperatura. Estatísticas do período colonial revelam que, com apenas 15 unidades agroindustriais numa área de 60 mil hectares, os portugueses chegaram a produzir 36.000 toneladas/ano.
Foto: DW/R. Graça
Raízes brasileiras
Em São Tomé e Príncipe, a cultura do cacau começou na Ilha do Príncipe. Os primeiros cacaueiros, plantados pelos colonos portugueses em 1822, vieram do Brasil. No século XIX, durante o "Ciclo do Cacau", por falta de mão de obra local, os portugueses contrataram trabalhadores de outras colónias africanas – como Angola, Cabo Verde e Moçambique. Muitos tiveram que trabalhar sob condições desumanas.
Foto: DW/R. Graça
Produção biológica de cacau
No interior da Roça Santa Luzia, na Ilha de São Tomé, os tratores adquiridos pela Cooperativa de Exportação do Cacau Biológico (CECAB) regam os viveiros nas parcelas dos agricultores. O cacau é ideal para a produção biológica, pois cresce sob árvores de outras espécies – o que conserva uma maior biodiversidade em comparação com monoculturas de outras plantas como a soja.
Foto: DW/R. Graça
De olho no mercado internacional
O cacau amelonado, variedade proveniente da Amazônia, foi o primeiro a chegar ao arquipélago de São Tomé e Príncipe. Este tipo de cacau é muito procurado no mercado internacional por ter características genéticas de qualidade superior a outras variantes de cacau.
Foto: DW/R. Graça
Recuperação de outras variedades
Produtores de cacau tipo exportação estão a recuperar outras variedades, como o cacau híbrido. O cacaueiro tem folhas longas que nascem avermelhadas e logo ficam de um verde intenso, medindo até 30 centímetros. Seus frutos também podem medir até 30 centímetros de comprimento, apresentando coloração verde, vermelha ou amarronzada e que tendem ao amarelo quando amadurecido o fruto.
Foto: DW/R. Graça
Secagem depois da colheita
A seguir à colheita da fruta dos cacaueiros, é preciso secá-la. No caso da Roça Morro Peixe, a secagem é feita com uso da energia solar natural. Um secador solar construído de madeira e coberto de plástico garante uma boa temperatura para a secagem do cacau, antes de ser embalado.
Foto: DW/R. Graça
Trabalho minucioso
Descendentes de cabo-verdianos, no interior do secador da Roça Santa Margarida, separam o cacau na peneira. Um trabalho minucioso que antecede a embalagem. Estas trabalhadoras fazem parte dos poucos agricultores que resistiram ao êxodo rural em São Tomé e Príncipe. Já no período colonial, uma boa parte da mão de obra das roças veio de Cabo Verde, outra colónia portuguesa.
Foto: DW/R. Graça
Embalar e despachar para a Europa
O último passo antes do processamento e da exportação do cacau é a sua embalagem em sacos. Uma boa parte da produção de cacau de São Tome e Príncipe é exportada para a Europa – principalmente para a França e a Suíça, os dois principais mercados consumidores do cacau de excelência e de fama internacional reconhecida.