Angola: "Potencial" de cada província pode ajudar economia
28 de agosto de 2025
Angola enfrenta dificuldades económicas devido à falta de infraestrutura adequada, à forte presença da economia informal e à dependência do petróleo, que caiu 8% no último trimestre. Em entrevista à DW, a analista de política e economia internacional Emília Pinto fala sobre os principais entraves ao desenvolvimento económico de Angola. Temas que estarão em análise até sexta-feira (29.08), na terceira edição do Angola Economic Forum.
Para Emília Pinto, faltam quadros qualificados no país. A analista propõe investir no turismo, na agricultura e na capacitação, com políticas adaptadas a cada província.
DW África: O ministro de Estado para a Coordenação Económica defendeu, na terça-feira (26.08), que a economia angolana precisa de ser suficientemente forte para não depender apenas do setor petrolífero. Na sua opinião, o que é necessário fazer, na prática, para diversificar a economia e aproveitar o potencial existente noutras áreas?
Emília Pinto (EP): Nos últimos tempos, vamos observando várias iniciativas do Governo para a diversificação da economia. Só que não há uma visão clara das estratégias do Governo para a formação de quadros que servirão para catapultar ou desenvolver esse projeto de diversificação económica. E depois, temos um grande desafio em Angola, que é a economia informal, que é muito forte, e que acaba por arrecadar muito mais receitas do que a economia formal. Só que, por não estar devidamente identificada e formalizada, o Estado acaba por perder este grande potencial da economia angolana.
O setor petrolífero tem um grande contributo para o PIB do país e, a essa altura, acaba por ser um bocadinho perigoso continuarmos a enveredar por esta questão. Podíamos é criar mecanismos para potencializar setores que possam dar-nos retornos mais imediatos, a título de exemplo, o setor do turismo. Porque o setor do turismo acaba por movimentar várias infraestruturas, desde questões de logística, restauração, hotéis e transportes que estimulam o consumo e fazem com que se gerem receitas imediatas, que é aquilo que se precisa numa altura em que há uma grande desaceleração económica no país por causa das questões ligadas à inflação.
DW África: Que estratégias deverão ser implementadas?
EP: Os dois setores têm um problema em comum, quer o agronegócio, como o setor do turismo, têm um problema comum, que são as vias de comunicação. Infelizmente, não temos vias de comunicação suficientes para fazer com que haja circulação de comércio.
Há cerca de duas semanas, o país realizou a Feira dos Municípios e Cidades de Angola, onde, no certame, estiveram expostas todas as potencialidades do setor agrícola do país e da agropecuária. Só que existem municípios que produzem em grande escala, mas que não se consegue chegar à mesa do consumidor final por falta de vias de comunicação, falo de estradas, mais propriamente dito, e de serviços de transporte e logística para tirar estes produtos do local de produção e colocá-los no mercado para a sua comercialização e acabam por se perder somas avultadas de investimento por essa falta de comunicação.
O mesmo acontece com o setor do turismo. Infelizmente, é muito difícil fazer viagens terrestres com qualidade no país, porque as estradas não estão em condições. Este é dos maiores problemas ou dos maiores impasses para a economia real angolana.
DW África: A economia angolana durante os 50 anos de independência vai estar em análise esta semana no Angola Economic Forum. Que balanço se pode fazer e quais são, a médio e longo prazo, os principais desafios que o país terá de ultrapassar para garantir um crescimento sustentável?
EP: Nestes 50 anos, eu vou separar 23, porque nós só temos o país verdadeiramente funcional há 23 anos, que foi depois da guerra civil angolana.
Infelizmente, ultimamente tem-se notado uma necessidade de quadros qualificados para a implementação de algumas políticas, e também precisamos de seguir alguns modelos internos que demonstraram ser funcionais. Falo de mecanismos que determinados governos provinciais adotaram para alavancar o seu desenvolvimento e que deviam ser matéria de estudo para os demais governos provinciais. Ou seja, precisamos de dados estatísticos, não só de quantos são, de como somos ou de onde vivemos, mas sim do que seria melhor para adaptar a cada realidade.
Nesse momento, temos 21 províncias, e cada uma delas oferece um potencial diferente que pode muito bem contribuir para o desenvolvimento da economia. E devíamos separar essas províncias em grupos. Ou seja, quais são as províncias que poderão contribuir no presente para o setor do turismo? Então, quando se identificarem essas províncias, tem que se criar políticas de incentivo para a criação de infraestruturas que permitam que a cadeia do turismo funcione naquela região. Quais são as províncias com maior potencial de distribuição de alimentação? Um dos principais temas a nível mundial é, sem sombra de dúvida, a segurança alimentar. Então, essas províncias, depois de identificadas, devem servir, sim, de pulmão do país. Ou seja, é preciso criar infraestruturas, oferecer mão de obra qualificada para a extração e transformação destes produtos, com a adição de novas tecnologias que acabam por reduzir o tempo de produção e fazem com que os produtos cheguem mais rápido às pessoas.
Tentar dar mais inputs para que surjam mais indústrias de transformação e que as que já existem consigam dar respostas mais robustas, em função de políticas de incentivos, não só fiscais, de modo a criar um ambiente de negócio justo.