Pós-cheias em Xai-Xai: "Não temos apoio. É cada um por si"
20 de maio de 2026
Quatro meses depois da primeira vaga de cheias que atingiu Moçambique este ano, Julieta Costa continua a viver as consequências das inundações. Moradora de Xai-Xai, na província de Gaza, ainda não conseguiu regressar à sua casa.
As duas vagas de cheias - em janeiro e em fevereiro e março - deixaram um rasto de destruição em várias comunidades do país. Mais de um milhão de pessoas foram afetadas.
Além do impacto humano, os prejuízos estendem-se à economia, com empresários a registarem perdas de milhões de euros e campos agrícolas devastados. Enquanto isso, muitas famílias continuam a enfrentar dificuldades para recuperar os bens perdidos e reconstruir as suas vidas.
Em entrevista à DW África, Julieta Costa relata na primeira pessoa o drama que continua a viver após as cheias, numa realidade partilhada por muitas famílias que ainda aguardam condições para recomeçar.
DW África: A sua situação melhorou com o fim das cheias?
Julieta Costa (JC): Bom, na verdade, eu ainda me encontro em casa da família que me acolheu, porque depois da primeira cheia, viram que não conseguia voltar, porque a minha casa ainda estava inundada. Então, em seguida, veio a segunda cheia e acabei ficando por aqui à espera que a água baixasse.
A água já baixou na cidade, a situação já voltou à normalidade em algumas zonas. Mas noutras zonas ainda há um pouco de água em algumas casas. É o caso da minha casa também; ainda havia água até à semana passada. Só esta semana é que começou a secar. Então, ficamos com aquele stress de limpeza, arranjos, uma coisa ali, outra ali, tudo o que se estragou devido às cheias.
DW África: E estão a ter algum tipo de apoio para a reconstrução?
JC: Não, não temos. É cada um por si.
DW África: Houve alguma promessa das autoridades para um apoio?
JC: Pelo que eu saiba, não, ainda não ouvi nada acerca desse assunto.
DW África: E em relação aos centros de acolhimento, sabe se as pessoas continuam lá?
JC: Quando houve a segunda cheia, toda a gente se refugiou no centro de acolhimento, e só havia um único centro. Inclusive eu também fui lá, para ver de perto o que estava a se passar. Não tinha nada de especial, e nem apoio da parte do governo. Então, depois de duas semanas e meia, as pessoas começaram a serem levadas para as suas residências. Só ficaram algumas pessoas nos centros de acolhimento, cujas casas ainda estão inundadas.
DW África: E quais são as suas perspetivas para o futuro, tomando em conta que ficou sem os seus bens?
JC: É difícil responder a essa questão, porque a perspetiva é de ter algum fundo ou algum apoio da parte do governo ou de algum empresário por aí. Não posso desenhar uma perspetiva exata.
DW África: As condições estão muito difíceis?
JC: Muito difíceis. Nem água vem, nem água vai.
DW África: E em relação aos seus familiares, aos seus vizinhos, qual é a situação em que se encontram? É igual à sua?
JC: Não exatamente. A preocupação de algumas pessoas que tinham casas com melhores condições é de pintar a casa, uma ou outra coisa. Mas há pessoas como eu e outros meus vizinhos, por exemplo, que tínhamos casas precárias: as casas ficaram totalmente destruídas, foram devastadas pelas águas, caíram. Uma parede ali, outra parede ali, tem de se levantar. Mas para ter material, o material custa dinheiro. E dinheiro é o que de momento não temos.
DW África: E o que gostaria que as autoridades fizessem por si?
JC: O governo tem conhecimento e as autoridades já viram com os seus próprios olhos como é que as nossas casas estão. Eu gostaria que o governo nos apoiasse a reconstruir as nossas casas.
Por mais que não seja muito, uma mão é sempre bem-vinda, porque consegue aliviar uma ou outra dificuldade. Se o nosso governo pudesse dar-nos alguma ajuda na reconstrução das nossas casas, nós agradeceríamos, para voltarmos a ter um pouco de conforto, pelo menos para poder dormir.