O Papa Leão XIV chegou terça‑feira à Guiné Equatorial, a última etapa da sua viagem a África, onde criticou a "colonização" dos recursos africanos e a "sede de poder" num país cujo Presidente está no poder desde 1979.
O Presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang (à direita), recebeu o Papa Leão XIV no Aeroporto Internacional de MalaboFoto: Misper Apawu/AP Photo/dpa/picture alliance
Publicidade
Multidões entusiásticas no país maioritariamente católico alinharam‑se ao longo da estrada desde o aeroporto até à capital, Malabo, para saudar o primeiro Papa a visitar a Guiné Equatorial desde João Paulo II, em 1982.
O pontífice criticou a "colonização" dos recursos minerais africanos e a desigualdade social num país onde, apesar da riqueza petrolífera, mais de metade da população vive na pobreza.
A antiga colónia espanhola, situada na costa ocidental de África, é governada pelo Presidente mais antigo do continente, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, de 83 anos, acusado de corrupção e autoritarismo.
A descoberta de petróleo offshore em meados da década de 1990 transformou a economia da Guiné Equatorial. Atualmente, o petróleo representa mais de 90% das exportações do país. No entanto mais de metade dos quase dois milhões de habitantes vive na pobreza.
Organizações de defesa dos direitos humanos denunciaram que as receitas do petróleo enriqueceram sobretudo a família Obiang, em vez de beneficiarem a população em geral.
O Papa apelou às autoridades para removerem obstáculos ao desenvolvimento humano e defendeu um modelo assente na justiça social, solidariedade e dignidade humana, destacando também o papel da sociedade civil e da Igreja na defesa dos direitos fundamentais.
Críticas às desigualdades
Proveniente de Angola, o Papa aterrou ontem no aeroporto de Malabo, onde foi recebido pelo Presidente Teodoro Obiang e pela primeira-dama, juntamente com autoridades civis e religiosas.
Leão XIV manteve uma audiência, no Palácio Presidencial, com Obiang, dirigino‑se depois a autoridades governamentais, diplomatas e representantes da função pública.
Visita do Papa termina com "recado" a Angola
15:53
Assinalando que o encontro coincidiu com o primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, citou o seu antecessor para denunciar as desigualdades de rendimento, agravadas por uma economia global centrada na busca do lucro a qualquer custo.
"É hoje ainda mais evidente que a proliferação de conflitos armados é frequentemente impulsionada pela colonização de jazidas de petróleo e minerais, sem qualquer respeito pelo direito internacional ou pela autodeterminação dos povos", disse o líder da Igreja Católica.
Publicidade
Última etapa da visita a África
Esta quarta-feira, o Papa desloca-se à região continental, com uma primeira paragem em Mongomo, onde celebrará uma missa na Basílica da Imaculada Conceição da Virgem Maria, além de inaugurar o Centro Tecnológico Papa Francisco, cuja morte ocorreu há um ano.
O Bispo de Roma segue depois para Bata, onde visitará o Monumento de 7 de Março e a prisão. Manterá ainda um encontro com fiéis no estádio da cidade e visitará a catedral.
Posteriormente, regressará a Malabo, onde, na quinta-feira (23.04), celebrará uma missa campal no estádio da capital antes de partir para Roma.
Leão XIV é o segundo Papa a visitar a Guiné Equatorial. O primeiro foi João Paulo II, há 44 anos, e cuja viagem é recordada no país pela mensagem de paz e reconciliação.
Os chefes de Estado há mais tempo no poder
São presidentes, príncipes, reis ou sultões, de África, da Ásia ou da Europa. Estes são os dez chefes de Estado há mais tempo no poder.
Foto: Jack Taylor/Getty Images
Do golpe de Estado até hoje - Teodoro Obiang Nguema
Teodoro Obiang Nguema Mbasogo assumiu a Presidência da Guiné Equatorial em 1979, ainda antes de José Eduardo dos Santos. Teodoro Obiang Nguema derrubou o seu tio do poder: Francisco Macías Nguema foi executado em setembro de 1979. A Guiné Equatorial é um dos países mais ricos de África devido às receitas do petróleo e do gás, mas a maioria dos cidadãos não beneficia dessa riqueza.
Foto: DW/R. Graça
O Presidente que adora luxo - Paul Biya
Paul Biya é chefe de Estado dos Camarões desde novembro de 1982. Muitos dos camaroneses que falam inglês sentem-se excluídos pelo francófono Biya. E o Presidente também tem sido alvo de críticas pelas despesas que faz. Durante as férias, terá pago alegadamente 25 mil euros por dia pelo aluguer de uma vivenda. Na foto, está acompanhado da mulher Chantal Biya.
Foto: Reuters
Mudou a Constituição para viabilizar a reeleição - Yoweri Museveni
Yoweri Museveni já foi confirmado seis vezes como Presidente do Uganda. Para poder concorrer às eleições de 2021, Museveni mudou a Constituição e retirou o limite de idade de 75 anos. Venceu o pleito com 58,6% dos votos, reafirmando-se como um dos líderes autoritários mais antigos do mundo. O candidato da oposição, Bobi Wine, alegou fraude generalizada na votação e rejeitou os resultados oficiais.
Foto: Getty Images/AFP/I. Kasamani
"O Leão de Eswatini" - Mswati III
Mswati III é o último governante absolutista de África. Desde 1986, dirige o reino de Eswatini, a antiga Suazilândia. Acredita-se que tem 210 irmãos; o seu pai Sobhuza II teve 70 mulheres. A tradição da poligamia continua no seu reinado: até 2020, Mswati III teve 15 esposas. O seu estilo de vida luxuoso causou protestos no país, mas a polícia costuma reprimir as manifestações no reino.
Foto: Getty Images/AFP/J. Jackson
O sultão acima de tudo - Haji Hassanal Bolkiah
Há quase cinco décadas que o sultão Haji Hassanal Bolkiah é chefe de Estado e Governo e ministro dos Negócios Estrangeiros, do Comércio, das Finanças e da Defesa do Brunei. Há mais de 600 anos que a política do país é dirigida por sultões. Hassanal Bolkiah, de 74 anos, é um dos últimos manarcas absolutos no mundo.
Foto: Imago/Xinhua/J. Wong
Monarca bilionário - Hans-Adam II
Desde 1989, Hans-Adam II (esq.) é chefe de Estado do Liechtenstein, um pequeno principado situado entre a Áustria e a Suiça. Em 2004, nomeou o filho Aloísio (dir.) como seu representante, embora continue a chefiar o país. Hans-Adam II é dono do grupo bancário LGT. Com uma fortuna pessoal estimada em mais de 3 mil milhões de euros é considerado o soberano europeu mais rico.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Nieboer
De pastor a parceiro do Ocidente - Idriss Déby
Idriss Déby (à esq.) foi Presidente do Chade de 1990 a 2021. Filho de pastores, Déby formou-se em França como piloto de combate. Apesar do seu autoritarismo, Déby foi um parceiro do Ocidente na luta contra o extremismo islâmico (na foto com o Presidente francês Macron). Em abril de 2021, um apenas dia após após a confirmação da sua sexta vitória eleitoral, Déby foi morto num combate com rebeldes.
Foto: Eliot Blondet/abaca/picture alliance
Procurado por genocídio - Omar al-Bashir
Omar al-Bashir foi Presidente do Sudão entre 1993 e 2019. Chegou ao poder em 1989 depois de um golpe de Estado sangrento. O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu em 2009 um mandado de captura contra al-Bashir por alegada implicação em crimes de genocídio e de guerra no Darfur. Em 2019, foi deposto e preso após uma onda de protestos no país.
Foto: Getty Images/AFP/A. Shazly
O adeus - José Eduardo dos Santos
José Eduardo dos Santos foi, durante 38 anos (de 1979 a 2017), chefe de Estado de Angola. Mas não se recandidatou nas eleições de 2017. Apesar do boom económico durante o seu mandato, grande parte da população continua a viver na pobreza. José Eduardo dos Santos tem sido frequentemente acusado de corrupção e de desvio das receitas da venda do petróleo. A sua família é uma das mais ricas de África.
Foto: picture-alliance/dpa/P.Novais
Fã de si próprio - Robert Mugabe
Robert Mugabe chegou a ser o mais velho chefe de Estado do mundo (com uma idade de 93 anos). O Presidente do Zimbabué esteve quase 30 anos na Presidência. Antes foi o primeiro-ministro. Naquela época, aconteceram vários massacres que vitimaram milhares de pessoas. Também foi criticado por alegada corrupção. Após um levantamento militar, renunciou à Presidência em 2017. Morreu dois anos mais tarde.