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População do Uíge pede respostas após mortes na maternidade

18 de setembro de 2026

Dois meses após protestos desencadeados por denúncias de mortes de mulheres na Maternidade do Hospital do Uíge, a população continua a exigir esclarecimentos. A UNITA defende a realização de um inquérito independente.

Maternidade do Hospital Geral do Uíge, no norte de Angola
Várias utentes queixam-se das condições de atendimento na maternidadeFoto: Borralho Ndomba/DW

O dia 20 de abril ficou marcado na vida de Simão Francisco. Foi nesse dia que o jovem perdeu a noiva. Ela deu entrada de madrugada, na Maternidade do Hospital Geral do Uíge, no norte de Angola. Até ao meio-dia, a família não tinha informações oficiais sobre o seu estado clínico. Mais tarde, soube que ela tinha sido dada como morta às sete da manhã.

Simão Francisco conta que a noiva não chegou a realizar o parto de gémeos. "Pensámos que haviam feito algum procedimento e que conseguiram salvar as crianças e a mãe, mas não. Infelizmente, nem a mãe, nem as crianças conseguiram salvar. Não nos explicaram até hoje. Desde que ela morreu, ninguém do hospital nos chamou para explicar o que aconteceu. Isso foi muito triste e continuamos até hoje tristes", contou à DW.

A DW contactou a administração do hospital e também não obteve respostas.

Denúncias até hoje sem resposta

O relato de Simão Francisco é apenas um dos muitos recolhidos pela DW no Uíge. Várias famílias pediram para não gravar entrevista.

Nas redes sociais, circularam várias denúncias relacionadas com alegadas mortes de parturientes na maternidade. Em julho, houve uma vigília em que participaram centenas de pessoas, a pedir respostas. Mas até agora não foram prestados quaisquer esclarecimentos públicos sobre os casos denunciados.

Várias utentes queixam-se também das condições de atendimento. Maria Rosa afirma sentir-se insegura em recorrer à maternidade. "Enquanto mulher, enquanto membro de uma família não me sinto segura, nem para dar à luz, nem para levar um familiar gestante para dar à luz lá. Tudo por causa dos maus-tratos que as mulheres sofrem lá e por causa do excesso de mortes registados nos últimos meses", lamenta.

Até ao momento, não foram anunciadas publicamente quaisquer conclusões de investigações sobre os casos denunciadosFoto: Borralho Ndomba/DW

Outro morador da cidade do Uíge, Nkinkani Ngangu, considera que há desigualdade no acesso ao atendimento. "Há muita negligência naquela maternidade. Muitas das vezes, para a sua mulher ser bem atendida no serviço de parto, tem que ter influência no hospital para acompanharem bem a senhora. Se não, fica abandonada pelos estagiários", relata.

Além da Maternidade do Hospital do Uíge, a DW contactou o Gabinete Provincial da Saúde, mas também não obteve resposta até ao momento.

UNITA pede abertura de inquérito 

A União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), que participou na organização da vigília em julho, defende a abertura de um inquérito independente. Em declarações à DW, o secretário provincial do maior partido da oposição angolana, Damião José, afirma que tentou visitar a maternidade, mas não foi autorizado.

"Já morreram mais de dez senhoras. Todos os dias há mortes na maternidade. Não sabemos as razões. Quando pedimos para visitar a maternidade, a visita foi-nos negada. Vamos escrever ao governo para criar estratégias e compreender o que se está a passar. Tem de haver um inquérito para compreender as causas das mortes", sublinha.

Até ao momento, as autoridades de saúde do Uíge não anunciaram publicamente quaisquer conclusões ou resultados de investigações sobre os casos denunciados.

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