1. Ir para o conteúdo
  2. Ir para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Porque a França apoia Mahamat Idriss Deby?

Daniel Pelz | AFP
26 de abril de 2021

França deposita esperanças no novo líder do Chade, Mahamat Idriss Deby, filho do ex-Presidente morto. O interesse da França não é a democracia, mas estabilidade, diz analista. Mas isso não agrada a oposição chadiana.

Tschad l Beerdigung von Präsident Idriss Déby Itno | Präsident Macron
Mahamat Idriss Deby (esq.), novo Presidente do Chade, e Emmanuel Macron, Presidente da França, no funeral de Idriss DebyFoto: Christophe P. Tesson/Epa/AP/picture alliance

Idriss Deby Itno, que esteve no poder por três décadas, foi morto no início da última semana enquanto participava de uma ofensiva contra os rebeldes. No funeral do ex-líder do Chade, o Presidente da França, Emmanuel Macron, foi o único chefe de estado ocidental presente.

A França há muito que considerava Idriss Deby Itno um dos seus mais importantes aliados africanos e um alicerce na luta contra o terrorismo na região do Sahel.

De fato, o apoio da França ao ex-líder do Chade e a ausência de qualquer crítica à sua ascensão ao poder - que incluiu a suspensão da Constituição e do Parlamento do país – suscitou mesmo muitas críticas por parte da oposição e da sociedade civil.

Segundo o renomado analista francês Roland Marchal, o principal interesse da França no Chade não é a democracia, mas a estabilidade.

"A [França] acredita que a instabilidade pode ocorrer muito rapidamente no Chade devido às divisões dentro do aparelho militar e de segurança e à existência de rebeliões armadas. E, por isso, deve-se evitar um vazio", afirma.

Há espaço para o diálogo?

O Chade acolhe atualmente cerca de 5 mil soldados franceses da operação "Barkhane", uma missão militar que combate os jihadistas na conturbada região do Sahel, na África Ocidental. É também o grande contribuinte das tropas do G5 Sahel, uma força regional que luta contra os extremistas.

Idriss Déby Itno tinha sido reeleito para o cargo de Presidente do Chade nas eleições de 11 de abrilFoto: Idriss Deby Itno/Facebook

No funeral do antigo Presidente do Chade, Macron apelou ao recém-nomeado Governo militar para promover a "estabilidade, a inclusão, o diálogo, e a transição democrática".

Já os partidos da oposição apelaram a um diálogo conjunto com o conselho militar sobre o caminho a seguir. Mas peritos disseram ser pouco provável que isso se torne realidade em breve.

Helga Dickow é analista no Instituto Arnold Bergstraesser, da Alemanha e faz a seguinte leitura: "Eu duvido que o clã Zaghawa e o conselho militar possam aceitar isso. Atualmente, sobretudo os Zaghawas estão ao leme e o seu alvo é permanecer no poder para continuar a beneficiarem-se dos recursos naturais do país".

Prioridade é democracia ou estabilidade?

E isso significa que o novo Governo pode não ser muito diferente do anterior. Nos seus 30 anos no poder, o ex-Presidente dirigiu um regime autocrático que restringiu severamente a liberdade política, reprimiu os opositores e reprimiu qualquer forma de dissidência.

É por isso que críticos não esperam que a França exerça muita pressão sobre o novo homem a liderar o Chade. O analista Seidick Abba diz: "Não ouvimos nada de França quando a Internet foi bloqueada [no Chade], quando pessoas foram presas e políticos mais importantes da oposição se retiraram das eleições presidenciais".

E para Abba "a França não acreditava que a democracia iria morrer no Chade. Hoje, após a morte de Déby, creio que a sua principal preocupação é que a luta contra o terror continue".

Praça da Nação na capital do Chade, N'djamena Foto: Issouf Sanogo/AFP

Especialistas apontam a presença do alto representante da União Europeia para a política externa Josep Borrell, que também participou no funeral de Deby, como um sinal de que a França não é o único país ocidental a apoiar o Chade.

Mas para o analista francês Roland Marchal, "a União Europeia veio apoiar valores como os direitos humanos e políticos, mas o que estão a fazer agora em África é apenas apoiar um golpe militar”, no qual, segundo o analista, "o filho chega ao poder depois do pai, tal como [o que vimos] nos anos 60".

Acusações à França

A oposição chadiana e organizações da sociedade civil acusaram, neste sábado (24.04), a França de apoiar o que denominam um "golpe” no Chade, e apelam a "uma manifestação pública" na terça-feira (27.04) para exigir a dissolução do Conselho Militar de Transição, liderado pelo filho do ex-Presidente, o General Mahamat Idriss Déby. 

Na noite de domingo (25.04), os militares no poder desde a morte do Presidente Idriss Déby Itno anunciaram a sua recusa em negociar com os rebeldes que lançaram uma ofensiva contra a capital há duas semanas, e que tinham dito estarem dispostos a um cessar-fogo.

Chade: Dançar contra o terrorismo

03:46

This browser does not support the video element.

Saltar a secção Mais sobre este tema