O presidente interino de Madagáscar, Michael Randrianirina, demitiu o primeiro-ministro e dissolveu o Governo, sem qualquer explicação sobre o motivo. Disse apenas que um novo primeiro-ministro seria nomeado "em breve".
Michael Randrianirina visitou o Palácio do Eliseu, em Paris, no mês passado, onde se encontrou com Emmanuel MacronFoto: Firas Abdullah/ABACA/picture alliance
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O líder militar de Madagáscar demitiu o primeiro-ministro e dissolveu o governo, apenas cinco meses após tomar o poder, apoiado por protestos liderados por jovens contra o antigo governo em Antananarivo.
O coronel Michael Randrianirina escolheu um empresário do setor privado, Herintsalama Rajaonarivelo, como primeiro-ministro depois da fuga do ex-presidente Andry Rajoelina em outubro passado.
Um porta-voz presidencial disse um comunicado que Randrianirina "anuncia que, de acordo com as disposições da Constituição, o governo está suspenso de suas funções."
Foi também anunciado que um novo primeiro-ministro seria nomeado "em breve", sem fornecer uma data nem explicar o motivo para as demissões.
O gabinete agora demitido era composto por ministros civis, alguns oficiais militares e alguns críticos de Rajoelina, que tinha tomado posse recentemente, em 28 de outubro de 2025.
Líder militar promete presidenciais em 2027
O coronel Randrianirina chegou ao poder após manifestações que começaram em setembro passado em resposta à escassez de água e energia, mas que rapidamente se transformaram em protestos antigovernamentais que o governo de Rajoelina tentou, sem sucesso, reprimir violentamente.
18 meses de golpes e tentativas de golpe na África Ocidental
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O líder militar rejeita o termo "golpe" e usa o título de Presidente da Refundação da República. Randrianirina afirma que o Tribunal Constitucional lhe "transferiu o poder" e prometeu um período de transição de dois anos.
"Os principais objetivos do meu mandato, que terá uma duração máxima de dois anos, são encontrar soluções concretas para o povo", afirmou Randrianirina ao anunciar o novo governo.
Em fevereiro, anunciou um programa que prevê consultas sobre a reforma constitucional até 2026 e eleições presidenciais no último trimestre de 2027.
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Viagens diplomáticas à Rússia e França
Estes anúncios internos coincidiram com esforços para entrar no cenário internacional em fevereiro, com visitas a Vladimir Putin na Rússia e a Emmanuel Macron na França, antiga potência colonial de Madagáscar.
Randrianirina saudou uma "nova era de cooperação" em Moscovo e uma parceria "renovada", mas "equilibrada" com Paris - a antipatia francesa foi um forte ponto focal dos protestos contra o governo anterior.
O anúncio da dissolução do governo na segunda-feira (09.03) também ocorreu poucas horas antes da reunião do Conselho de Paz e Segurança da União Africana, a quarta sobre Madagáscar desde a agitação de outubro.
Madagáscar passou por três golpes de Estado desde a sua independência da França em 1960: em 1972, 1975 e 2009.
A ilha de Madagáscar é famosa pela biodiversidade, fertilidade e riqueza em matérias primas. Mas a perene crise política paralisa a economia e agrava a pobreza da população.
Foto: DW/F.Müller
Recuo económico no país em crise
O país no Oceano Índico é rico em matérias primas, incluindo enormes reservas de titânio, níquel e petróleo no chão e ao largo da costa. Não obstante, uma grande parte da população vive na pobreza. Há quatro anos que uma crise política assola o país, que paralisa também a economia nacional. Os malgaxes vivem na incerteza, no medo e com grandes problemas financeiros.
Foto: DW/F.Müller
Isolado e empobrecido
Sob a politica económica liberal do Presidente Marc Ravalomanana, e graças a investimentos e assistência ao desenvolvimento, a economia malgaxe recuperou um pouco entre 2002 e 2008. Andry Rajoelina, encontra-se no poder desde o seu golpe de Estado em 2009, à frente de um controverso Governo de transição. Os países doadores congelaram a assistência e os preços dos alimentos básicos subiram.
Foto: DW/F.Müller
O dinheiro não chega para uma refeição quente
Nas ruas da capital, Antananarivo, um prato com arroz com um pouco de carne e legumes custa cerca de 500 ariary, o que equivale a 17 cents do euro. O que é muito dinheiro no Madagáscar. Segundo o Banco Mundial, 92% da população vive do equivalente a menos de 1,50 euros por dia. Muitas famílias passam fome.
Foto: DW/F.Müller
Colheitas pobres
Não obstante do cultivo extensivo de arroz, o principal alimento malgaxe também tem que ser importado. Mesmo havendo solos férteis e água abundante. Mas a agricultura não desenvolveu o seu potencial. Apesar de quase 90% da população trabalhar na agricultura, o sector só gera um quarto do Produto Interno Bruto, diz o Banco Mundial.
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Natureza perigosa
Partes da ilha são regularmente assoladas por ciclones, cheias e secas extremas, ameaçando as colheitas. Ainda não existe um sistema eficiente de alerta e protecção. Acresce a invasão de uma praga de gafanhotos desde a primavera de 2012. A produção de arroz arrisca-se a perdas enormes de até 630 000 toneladas por ano, estima a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO.
Foto: DW/F.Müller
Ajuda inicial para agricultores
Desde que começou a crise política e económica em 2009, muitas pessoas procuram o seu ganha pão na agricultura. É frequente não terem a formação necessária, só conhecerem técnicas antiquadas e não terem dinheiro para comprar maquinaria, diz a organização não-governamental CITE. Esta ONG ajuda os jovens agricultores a levarem os seus produtos para o mercado.
Foto: DW/F.Müller
À espera de clientes
A agricultura representa a única esperança também para Jean-Noël und Erick Régis. Por enquanto ainda se esforçam por alimentar a família trabalhando como condutores de riquixás na cidade de Antsirabe, no centro do país. Mas nem todos os dias conseguem pagar a renda equivalente a dois euros para o “pousse-pousse”. Antes da crise tinham 20 clientes nos dias bons, hoje são apenas quatro ou cinco.
Foto: DW/F.Müller
Receio pelos zebus
Para muitas famílias, os zebus são animais de trabalho, alimento e investimento e cruciais à sobrevivência. Mas com a crise aumentou a criminalidade. Quase diariamente os jornais relatam assaltos de ladrões de gado a aldeias, das quais roubam centenas de cabeças. A esta prática deu-se o nome de “dahalo”. Os conflitos com os habitantes e as forças de ordem muitas vezes resultam e mortos e feridos.
Foto: DW/F.Müller
Viver na insegurança
Eliane (atrás, à direita) perdeu o seu irmão num desses assaltos. Os “dahalo” mataram-no, diz. Juntamente com os seus familiares, Eliane colhe algodão num campo no sul seco do Madagáscar. A família vive, sobretudo, do cultivo de mandioca e milho. Mas no ano passado um ciclone destruiu grande parte da colheita. Eliane tem à sua disposição por ano mais ou menos o equivalente a 100 euros.
Foto: DW/F.Müller
Eleições para sair da crise?
Antananarivo, a capital, é o centro político do Madagáscar. Os observadores são unânimes: para que o país se liberte da crise e da pobreza é necessário pôr termo à situação de transição política. Mas as eleições já foram adiadas por várias vezes. De qualquer modo, muitos malgaxes dizem que não importa quem governa o país. Importa ter o que comer no dia seguinte.