Polícia de Moçambique assinala no sábado meio século. A celebração ocorre num contexto marcado por duras críticas à corporação, acusada de repressão violenta e parcialidade política. Perdeu-se a confiança na Polícia.
A Unidade de Intervenção Rápida (UIR) é um dos ramos visíveis da repressão pública na Polícia da República de Moçambique Foto: Romeu da Silva/DW
Publicidade
A Polícia da República de Moçambique (PRM) celebra no próximo sábado (17.05) meio século de existência, num contexto marcado por crescentes críticas da sociedade civil à sua atuação, sobretudo em períodos de tensão política e social, como o pós-eleições.
As críticas intensificaram-se após as eleições gerais de 2024, que desencadearam violentos protestos em várias zonas do país. A Polícia foi acusada de reprimir os manifestantes de forma violenta e desproporcional.
Métodos desajustados
O académico Arcénio Cucu considera que, apesar dos investimentos significativos em formação policial, como a criação da Escola Prática de Matalane, da Academia de Ciências Policiais e da Escola Média de Sargentos em Sofala, os resultados práticos são limitados.
Várias tentativas de protestos têm sido travadas ou reprimidas pelas autoridades policiaisFoto: Romeu da Silva/DW
"A criação de escolas novas para a Polícia penso que são registos que devem ser colocados em evidência já que isto poderia ter significado a evolução da Polícia.”
No entanto, Cucu destaca a persistência no uso de métodos desadequados, como o uso de armamento de guerra para controlar manifestações pacíficas.
"Acho que é bastante visível isso quando nós verificamos a Polícia a atuar com uma arma de guerra como AKM dentro do país. A essa altura já deveria ter sido encontrado um mecanismo diferente de uso de equipamento próximo àquilo que qualquer Polícia de um Estado democrático utiliza,” sugere o académico.
Publicidade
Confiança beliscada
O jornalista moçambicano Aunício da Silva partilha a mesma preocupação, sublinhando falhas na preparação dos agentes para lidar com distúrbios sociais, como os registados após as eleições.
"A atuação não foi boa porque tivemos pessoas que perderam a vida em consequência de disparo de balas reais por agentes da Polícia", reconhece.
Jornalista moçambicano Aunício da SilvaFoto: N. Issufo/DW
Da Silva afirma ainda que os próprios agentes "estavam numa situação de não saber o que fazer."
Ambos os analistas concordam que a resposta policial aos protestos pós-eleitorais deteriorou ainda mais a relação entre a corporação e os cidadãos.
"Nós sentimos a quebra de confiança entre as autoridades públicas, no caso especial da Polícia em si e a sociedade. [...] Houve uma certa quebra dessa relação que resultou da atuação até um certo ponto à margem do respeito dos direitos humanos", afirma Arcénio Cucu.
Reforço da relação com os cidadãos
À medida que se aproxima a celebração do seu 50º aniversário, a PRM tem procurado recuperar a confiança pública através de iniciativas de aproximação comunitária.
O comandante-geral, Joaquim Sive, deslocou-se no fim de semana à cidade de Nampula para dialogar com a população de Namicopo, um dos bairros mais problemáticos da urbe. Reuniões semelhantes decorrem por todo o país, lideradas pelos comandantes provinciais.
Manica: "Polícia veio para intimidar a população"
01:36
This browser does not support the video element.
Em Cabo Delgado, durante uma dessas sessões no bairro de Paquitequete, alguns moradores acusaram a Polícia de intimidação constante.
"A maioria dos polícias tendem a intimidar a população. Não é com a intimidação que alguém deve respeitar a Polícia. Nós não devemos ter medo da Polícia, devemos ter respeito e colaborar com ela", declarou um residente de Pemba.
O 50º aniversário da PRM surge, assim, como um momento simbólico, marcado por esforços de reconciliação, mas também pela urgência de reformas estruturais na actuação policial, com vista à reconstrução da confiança entre a corporação e a sociedade moçambicana.
Terrorismo em Cabo Delgado: As marcas da destruição e a crise humanitária
Edifícios vandalizados, presença de militares nas ruas e promessas de soluções por parte de políticos contrastam com a tentativa das populações de levar a vida adiante.
Foto: Roberto Paquete/DW
Infraestruturas vandalizadas
O conflito armado em Cabo Delgado deixou um número de infraestruturas destruídas na província nortenha de Moçambique. Em Macomia, os insurgentes não pouparam nem a Direção Nacional de Identificação Civil. Os danos no prédio do órgão deixaram milhares de pessoas sem documentos. E carro da polícia incendiado.
Foto: Roberto Paquete/DW
Feridas abertas até na sede da Polícia
O edifício da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Macomia ainda carrega as marcas de um ataque em 2020. O tanzaniano Abu Yasir Hassan – também conhecido como Yasser Hassan e Abur Qasim - é reconhecido pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos e pelo Governo moçambicano como líder do Estado Islâmico em Cabo Delgado. Não está claro se o grupo é responsável pelos ataques na província.
Foto: Roberto Paquete/DW
"Eliminar todo o tipo de ameaça"
Joaquim Rivas Mangrasse (à esquerda) foi empossado chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas a 16 e março. "É missão das Forças Armadas eliminar todo o tipo de ameaça à nossa soberania, incluindo o terrorismo e os seus mentores, que não devem ter sossego e devem se arrepender de ter ousado atacar Moçambique", declarou o Presidente Filipe Nyusi (centro) na cerimónia de posse, em Maputo.
Foto: Roberto Paquete/DW
Missões constantes para conter os terroristas
Soldados das Forças Armadas de Defesa de Moçambique preparam-se para mais uma missão contra terroristas em Palma. A vila foi alvo de ataques, esta quarta-feira (24.03), segundo fontes ouvidas pela agência Lusa e segundo a imprensa moçambicana. Neste mesmo dia, as autoridades moçambicanas e a petrolífera Total anunciaram, para abril, o retorno das obras do projeto de gás, suspensas desde dezembro.
Foto: Roberto Paquete/DW
Defender o gás natural da península de Afungi
A península de Afungi, distrito de Palma, foi designada como área de segurança especial pelo Governo de Moçambique para proteger o projeto de exploração de gás da Total. O controlo é feito pelas forças de segurança designadas pelos ministérios da Defesa e do Interior. Esta quinta-feira (25.03), o Ministério da Defesa confirmou o ataque junto ao projeto de gás, na quarta-feira (24.03).
Foto: Roberto Paquete/DW
Proteger os deslocados
Soldados das FADM protegem um campo para os desolocados internos na vila de Palma. A violência armada está a provocar uma crise humanitária que já resultou em quase 700 mil deslocados e mais de duas mil mortes.
Foto: Roberto Paquete/DW
Apoiar os deslocados
De acordo com as agências humanitárias, mais de 90% dos deslocados estão hospedados "com familiares e amigos". Muitos refugiaram-se em Palma. Com as estradas bloqueadas pelos insurgentes em fevereiro e março deste ano, faltaram alimentos. A ajuda chegou de navio.
Foto: Roberto Paquete/DW
Defender a própria comunidade
Soldados das Forças Armadas de Defesa de Moçambqiue estão presentes também no distrito de Mueda. Entretanto, cansados de sofrer nas mãos dos teroristas, antigos militares decidiram proteger eles mesmos a sua comunidade e formaram uma milícia chamada "força local".
Foto: Roberto Paquete/DW
Levar a vida adiante
No mercado no centro da vida de Palma, a população tenta seguir com a vida normal quando a situação está calma. Apesar da ameaça constante imposta pela possibilidade de um novo ataque, quando "a poeira abaixa", a normalidade parece regressar pelo menos momentaneamente...
Foto: Roberto Paquete/DW
Aprender a ter esperança com as crianças
Apesar de todo o caos que se instalou um pouco por todo o lado em Cabo Delgado, a esperança por um vida normal continua entre as poulações. Na imagem, crianças de famílias deslocadas que deixaram as suas casas, fugindo dos terroristas, e foram para a cidade de Pemba. Vivem no bairro de Paquitequete e sonham com um futuro próspero, sem ter de depender da ajuda humanitária e longe da violência.