Qual a posição da Europa na guerra contra o Irão?
8 de março de 2026
Desde que o conflito eclodiu, a União Europeia e o Reino Unido apelaram ao respeito pelo direito internacional e condenaram o regime iraniano.
No entanto, até ao momento, não conseguiram articular uma abordagem comum e parecem divididos como lidar com a crescente crise no Médio Oriente, que pode ter consequências para a Europa e para o mundo.
Poderá o continente permanecer neutro, mesmo após o ataque com drones iranianos ao Chipre, território da União Europeia?
Especialistas ouvidos pela DW afirmam que os países europeus parecem estar a adotar uma estratégia defensiva, em vez de se envolverem militarmente.
Acordo sobre medidas de defesa
Cornelius Adebahr, do Conselho Alemão dos Negócios Estrangeiros (DGAP), afirmou que os Estados-membros da UE e o Reino Unido estão alinhados no seu compromisso de tomar medidas de defesa caso um país europeu seja atacado. Pretendem também apoiar os países do Golfo sempre que possível.
No entanto, acrescenta Adebahr, discordam quanto aos objetivos de guerra de Trump à extensão do apoio que as operações dos EUA contra oIrão devem receber.
"Não haverá uma posição unificada sobre a guerra", disse Adebahr à DW. "Por outro lado, nenhum dos Estados-membros entrará diretamente na guerra; não desempenharão um papel ativo ao lado dos EUA ou de Israel."
Europa sob pressão dos EUA
Na quarta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, avisou que o Presidente norte-americano, Donald Trump, esperava que "todos os aliados europeus" apoiassem a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão.
Segundo ela, o objetivo era "esmagar o vil regime iraniano, que não só ameaça os Estados Unidos, como também os aliados europeus".
Anteriormente, Trump tinha manifestado irritação com os atrasos no apoio europeu.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, levantou dúvidas sobre a legitimidade da guerra, dizendo não acreditar numa "mudança de regime vinda do céu". Ainda assim, o Reino Unido permitiu que os EUA utilizassem duas bases britânicas.
Já o chanceler alemão Friedrich Merz recebeu elogios nasua visita à Casa Brancana quarta-feira. Trump descreveu Merz como um excelente líder por ter apoiado o objetivo de Trump de derrubar um regime "terrível" e por ter permitido que as forças norte-americanas utilizassem a Base Aérea de Ramstein.
A França autorizou a presença temporária de aviões americanos em algumas das suas bases. No entanto, a aprovação só ocorreu depois de a França ter obtido garantias de que as aeronaves não seriam utilizadas para realizar ataques contra o Irão e operariam exclusivamente em "apoio à defesa dos nossos parceiros na região", segundo um responsável francês citado pela Reuters.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, disse que Roma ainda não recebeu qualquer pedido dos EUA para utilizar as suas bases. No entanto, afirmou que Itália poderá fornecer sistemas de defesa aérea aos países do Golfo.
Antonio Giustozzi, do think tank RUSI, com sede em Londres, disse à DW que permitir o uso limitado das bases europeias é "um compromisso sob pressão dos EUA para fazer algo".
Irão é ameaça para a Europa e Reino Unido?
O ataque com drones iranianos a uma base aérea britânica no Chipre alarmou a Europa: em resposta, Itália, Grécia, Holanda e França mobilizaram apoio para o país.
"O Irão sabe perfeitamente que se trata de um ataque a um Estado-membro da UE", disse Trita Pars, do think tank Quincy Institute, em Washington. Teerão parece determinado a estender a guerra não só aos Estados do Golfo, mas também à Europa.
Referindo-se ao ataque a uma base francesa nos Emirados Árabes Unidos, Trita Parsi afirma que o Irão parece acreditar que "para que a guerra possa terminar, a Europa também precisa de pagar um preço, parece ser esse o raciocínio".
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, alertou que Teerão representa uma ameaça não só para Israel, mas também para a Europa. Descreveu o Irão como um "exportador do caos", responsável por "ataques terroristas e tentativas de assassinato, incluindo contra pessoas em solo europeu".
Aumento dos preços
Outras preocupações, relacionadas com o aumento acentuado dos preçosda energia e uma possível migração do Irão para a Europa através da Turquia também têm sido levantadas.
A Alta Representante da UE, Kaja Kallas, afirmou que, embora não exista atualmente pressão migratória, a UE deve estar preparada para o caso de a guerra continuar.
Alguns especialistas acreditam que o perigo para a Europa pode aumentar se esta participar activamente num conflito com o Irão. "Se os europeus se envolverem, isso pode criar uma ameaça. Esta é uma preocupação britânica e francesa ", disse o especialista do RUSI, Giustozzi.
"Esta guerra não é nossa"
Cornelius Adebahr, do DGAP, acredita que a UE carece de coesão, uma vez que os Estados-membros dão prioridade aos seus interesses nacionais e aos sentimentos políticos internos.
Por exemplo, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, opôs-se veementemente à guerra e recusou-se a conceder aos EUA o acesso às bases espanholas para ataques contra o Irão. A Alemanha, por outro lado, está no extremo oposto do espectro.
A maioria dos Estados europeus parece estar mais concentrada na Ucrânia — e nas consequências económicas das tensas relações transatlânticas.
"O sentimento é o de: Esta guerra não é nossa; temos de lidar com a Ucrânia'”, disse Adebahr.
A chefe da diplomacia da UE, Kallas, afirmou que a guerra com o Irão estava a prejudicar a Ucrânia, uma vez que o equipamento militar — como os sistemas de defesa aérea — que era realmente necessário na guerra contra a Rússia estava a ser desviado para o Médio Oriente.
Kallas alertou ainda que o aumento dos preços do petróleo e a redução da produção petrolífera pelos países do Golfo poderiam ajudar a Rússia a encontrar mais compradores para o seu próprio petróleo. Isto, por sua vez, reforçaria os cofres de guerra da Rússia e financiaria ainda mais os ataques à Ucrânia — colocando a Europa em estado de alerta máximo.