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Que Moçambique temos um ano após as eleições?

9 de outubro de 2025

Moçambique assinala um ano das eleições mais contestadas da sua história. 400 pessoas morreram. O país está “sair dos escombros”, embora ainda enfrente “sequelas muito fortes da polarização”, diz jornalista.

Protestos pós-eleitorais
Moçambique ainda ferido, um ano após eleições contestadasFoto: Siphiwe Sibeko/REUTERS

Assinala-se esta quinta-feira (09.10) um ano desde a realização das sétimas eleições gerais em Moçambique. A votação foi a mais contestada da história democrática moçambicana, desencadeando uma onda de protestos violentos que provocaram a morte de mais de 400 pessoas.

Desde então, o jornalista moçambicano Luís Nhachote afirma que Moçambique está a "sair dos escombros”, embora ainda enfrente "sequelas muito fortes da polarização” provocada pela contestação dos resultados eleitorais.

Nhachote recomenda uma maior abrangência e honestidade no Diálogo Nacional Inclusivo atualmente em curso no país, como condição essencial para a estabilidade nacional.

Luís Nhachote (LN): Um país a sair dos escombros em que esteve durante um longo período após as eleições. E desde então, desde que o Presidente Daniel Chapo e o candidato Venâncio Mondlane se encontraram em Março, creio eu, o país começou a regressar minimamente à normalidade. Ainda persistem sequelas muito fortes da polarização extrema que a política impôs aos moçambicanos, colocando-os uns contra os outros. Mas estamos a regressar, de forma titubeante, com algum receio, mas lentamente estamos a voltar aos carris daquilo que somos como povo moçambicano. No entanto, a celeuma permanece. As feridas serão muito difíceis de sarar.

DW África: Mas, Nhachote, olhando para a história das eleições em Moçambique, estas últimas foram as que mais evidenciaram polarização. O que pode justificar este extremar de posições por parte dos moçambicanos?

Eleições de 2024 foram as mais contestadas na história democrática moçambicanaFoto: Zinyange Auntony/AFP

LN: Bom, antes de mais, é preciso dizer que esse extremar resultou, em parte, da emergência de um fenómeno novo em Moçambique, impulsionado pelas redes sociais, à semelhança do que aconteceu na Primavera Árabe.

Hoje, praticamente todo o cidadão comum tem acesso a um telemóvel e passou a acompanhar os acontecimentos em tempo real. E, no meio disso, houve também oportunistas que utilizaram essas plataformas para fomentar agitação social e tirar proveito da situação. Se antes, nas eleições anteriores, os resultados em algumas zonas do país eram conhecidos apenas através das ondas da rádio, hoje qualquer pessoa passou a ter acesso imediato às informações, incluindo convocatórias para manifestações, com códigos, palavras-chave, datas, horas e prazos. Então, imagine que a dado momento, o país esteve sob um comando digital.

DW África: Que lições deve o país retirar desta realidade das redes sociais, onde a juventude participa cada vez mais ativamente na política, para os próximos processos eleitorais e para a própria estabilidade nacional?

Cerca de 400 pessoas morreram nos protestos pós-eleitoraisFoto: Siphiwe Sibeko/REUTERS

LN: Bom, eu sempre defendi que precisamos de fortalecer as nossas instituições. Estas últimas eleições, e tudo o que delas resultou, vieram revelar, de certa forma, a fragilidade das nossas instituições. Não podemos ter protagonistas institucionais a substituir o protagonismo que deve pertencer aos eleitores. E foi isso que vimos nestas últimas eleições.

DW África: Acredita que o actual Diálogo Nacional, em curso no país, pode reformar as instituições para que estas ganhem essa capacidade?

LN: Isso vai depender muito da honestidade do processo. Este processo de [Diálogo Nacional] tem de demonstrar, por si só, a sua abrangência e transparência. Isso será fundamental para que as pessoas se sintam motivadas a participar, porque acredito que é um processo do qual ninguém deve ficar de fora. Mas tem de ser, como disse no início, aberto, honesto, claro e transparente. 

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