RDC: O que precisa de saber sobre o conflito
29 de janeiro de 2025
A escalada da violência na República Democrática do Congo (RDC) tem gerado receios de uma instabilidade generalizada num dos países mais assolados por conflitos em África.
A 27 de janeiro, o grupo rebelde M23, apoiado por soldados do Ruanda, país vizinho, tomou o controlo de Goma, a maior cidade do leste da RDC. Com cerca de um milhão de habitantes, Goma desempenha um papel essencial na economia e administração do país.
A situação agravou-se ainda mais com uma fuga em massa na principal prisão da cidade, ocorrida na segunda-feira. Mais de 4.000 reclusos escaparam para as ruas, levando os residentes a trancarem-se em casa por segurança.
Manifestantes também atacaram as embaixadas da Bélgica, dos Países Baixos, do Quénia, doUganda e dos Estados Unidos, exigindo que a comunidade internacional pressione o Ruanda pelo seu alegado envolvimento no conflito.
A DW analisa as complexidades deste conflito, incluindo o controverso papel do Ruanda na RDC e o potencial para uma escalada regional mais ampla.
Qual é a origem do conflito no leste do Congo?
A República Democrática do Congo possui vastos recursos naturais, incluindo metais e minerais como ouro, estanho e coltan, essenciais para a produção de telemóveis e baterias para veículos elétricos.
Esses recursos têm alimentado um ciclo de corrupção e violência, com grupos armados, milícias locais e atores estrangeiros a disputarem o controlo do território. A RDC tem sido assolada por conflitos há mais de 30 anos, desde o genocídio ruandês de 1994.
A população tem sofrido as consequências. Os confrontos armados já deslocaram internamente mais de 7 milhões de pessoas. Organizações de direitos humanos têm documentado atrocidades generalizadas, incluindo massacres, violência sexual e o recrutamento de crianças-soldado.
No centro da crise atual está o ressurgimento do grupo rebelde M23, liderado por membros da etnia tutsi. O grupo armado rapidamente ganhou força em 2012 e tomou a cidade de Goma, mas foi expulso pelo exército congolês e pelas forças da ONU em 2013. O M23 pegou novamente em armas em 2021, alegando proteger a população tutsi no leste do Congo contra discriminação e violência.
No entanto, as autoridades da RDC, em Kinshasa, afirmam que o grupo é apenas um representante de forças externas que procuram obter o controlo dos ricos recursos minerais do país, especialmente nas áreas fronteiriças com o Ruanda e o Uganda.
Atualmente, existem mais de 100 grupos armados a operar no leste da RDC. Os esforços para pacificar a região, incluindo um acordo de paz assinado em 2013, em Nairobi, entre a RDC e os rebeldes do M23, falharam repetidamente.
Qual é o papel do Ruanda?
O envolvimento do Ruanda na RDC tem sido motivo de tensão internacional. As autoridades ruandesas negam repetidamente apoiar os rebeldes do M23, mas, desde 2012, especialistas da ONU e organizações de direitos humanos afirmam categoricamente que o Ruanda fornece apoio ao M23, incluindo logística, armamento e até pessoal militar.
Esta história tem raízes no genocídio ruandês de 1994, no qual 800.000 pessoas, sobretudo da comunidade tutsi, foram massacradas por extremistas hutus. O genocídio terminou quando o atual presidente do Ruanda, Paul Kagame, liderou uma força rebelde tutsi. Muitos hutus fugiram então para a RDC.
Kagame tem defendido a necessidade de neutralizar as Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda (FDLR), um grupo rebelde hutu que opera no leste da RDC. O seu governo alega que alguns membros deste grupo, que participaram no genocídio de 1994, representam uma ameaça direta à segurança do Ruanda.
Fações em guerra disputam o controlo do leste do Congo
No entanto, o governo congolês acusa o Ruanda de usar o conflito como pretexto para explorar ilegalmente os recursos naturais da RDC, particularmente em áreas controladas pelo M23.
O comércio de minerais, incluindo o tráfico ilegal de ouro e coltan, é um negócio altamente lucrativo que alegadamente beneficia o Ruanda, ao mesmo tempo que desestabiliza a RDC.
O Dr. Hassan Khannenje, diretor do Instituto Internacional HORN de Estudos Estratégicos, disse à DW que o Ruanda dificilmente deixará a RDC em paz.
"O Ruanda tem estado, está e continuará a estar envolvido na RDC. O país é de interesse estratégico e nacional para o Ruanda, pelo que não se trata apenas dos minerais", disse Khannenje à DW. "Contudo, os minerais alimentam o conflito", acrescentou. Segundo Khannenje, a presença de grupos rebeldes concorrentes dá ainda mais "justificação para ocupar partes da RDC".
As consequências diplomáticas têm sido graves. A 26 de janeiro, a RDC cortou relações diplomáticas com o Ruanda. Os esforços regionais para mediar o conflito têm produzido poucos resultados.
O conflito pode escalar?
De acordo com a ONU, o conflito na RDC tem potencial para escalar e transformar-se numa crise regional mais ampla. No entanto, alguns especialistas, incluindo Khannenje, consideram que isso é pouco provável.
"O que poderemos ver é, talvez, uma intensificação dos confrontos entre o governo da RDC e o M23, assim como um aumento no apoio a estas forças por parte de países da região ou de fora dela", afirmou Khannenje.
O Uganda, à semelhança do Ruanda, também foi acusado de apoiar grupos armados no leste do Congo, embora negue essas alegações.
Entretanto, refugiados da província de Kivu do Norte, no leste da RDC, já começaram a fugir para países vizinhos, aumentando os receios de uma instabilidade transfronteiriça.
Sanções foram impostas a líderes do M23 e surgiram alertas contra interferências externas.
Contudo, a resposta global tem sido pouco expressiva, deixando os países africanos a suportar o peso das consequências do conflito. A situação é grave para a população congolesa, que ultrapassa os 100 milhões de pessoas.
Organizações humanitárias alertam que a violência pode resultar em fome, surtos de doenças e mais deslocamentos em massa. Sem uma ação urgente, o conflito corre o risco de se transformar numa tragédia de grande escala, com repercussões para toda a região.