RENAMO, um dos signatários do acordo de pacificação de Moçambique após os protestos pós-eleitorais, diz que ainda não tem elementos para mensurar o grau de satisfação em relação ao processo.
Marcial Macome, porta-voz da RENAMOFoto: Nádia Issufo/DW
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A Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), segunda maior força da oposição em Moçambique, diz ser cedo demais para avaliar a implementação do acordo de pacificação, mas destaca a importância da qualidade do processo. Para o partido, mais do que números, importa garantir resultados consistentes.
A declaração surge após o Presidente Daniel Chapo afirmar, em Sevilha, que o acordo está a ser cumprido e que os signatários estão satisfeitos. "Nunca ouvimos reclamações de quem assinou", disse, à margem de um evento da ONU.
Sobre os elevados custos deste acordo (o equivalente a 1,3 milhões de euros), o porta-voz da RENAMO, Marcial Macome, declara à DW que "o valor da paz é a própria paz — não temos como mensurar esse preço."
DW África: A RENAMO está satisfeita com a implementação do acordo de pacificação?
Marcial Macome (MM): É muito prematuro dizer se estamos satisfeitos ou não, mas o facto é que, neste momento, o diálogo propriamente dito ainda não começou. Ainda se está na fase preliminar, em que foi lançado o primeiro concurso para a integração dos membros da sociedade civil. Posteriormente, foi lançado igualmente o concurso para a contratação dos dois consultores que irão elaborar os termos de referência do diálogo. E este percurso está dentro do cronograma estabelecido pelas equipas do diálogo. Seguir-se-á o processo de seleção, eles vão produzir os termos de referência e daí vão avançar para outra fase do diálogo.
Não podemos mensurar isso porque ainda não há elementos que nos permitam mensurar o grau de satisfação deste diálogo que ainda mal iniciou.
DW África: Entretanto, a sociedade civil está insatisfeita com o número de vagas que terá neste processo - questiona a questão da representatividade, por exemplo. O que é que a RENAMO tem a dizer sobre este descontentamento?
MM: É um descontentamento legítimo. Nós defendíamos inicialmente que fossem integrados mais, mas infelizmente a lei foi aprovada nestes termos. Não conseguimos [alterar isso], porque não se trata de um posicionamento unilateral. Em outra parte, achamos que talvez fosse o caso de se pensar, neste momento, nos termos em que as coisas foram colocadas, que talvez não tenhamos muito que fazer. Talvez tenhamos, sim, de capitalizar os membros da sociedade civil que irão fazer parte, tendo em conta questões que têm a ver não com quantidade de representatividade, mas com a qualidade dos atores da sociedade civil.
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DW África: Fala de qualidade em vez de quantidade. Mas não se trata um processo onde a sociedade civil tem o poder de decidir quem serão seus representantes, mas sim de um concurso onde serão os outros, incluindo representantes da FRELIMO, que irão escolher os representantes da sociedade civil. Como se pode ter qualidade nesta situação, se considerarmos toda a circunstância que o país vive de desconfiança, principalmente em relação ao partido no poder?
MM: Nós partimos do pressuposto de que a ideia de concurso para a integração destes membros da sociedade civil foi uma ideia avançada não exclusivamente pelos partidos políticos, mas ouvindo as outras frentes. Achavam que a melhor forma de incluir os membros da civil deveria ser por concurso em detrimento de indicação.
O concurso em si é aberto, mas os integrantes dessa comissão terão um papel de escolher dentro desse pressuposto do que nós entendemos, como RENAMO, de que é preciso defender que tenhamos qualidade, já que fomos vencidos na quantidade. Ainda que, nessa ideia, tenhamos de persuadir as outras forças políticas que integram o diálogo, que acreditamos que também elas querem fazer parte deste diálogo, mas não meramente em formalismos, mas para a produção de um processo de inclusão nacional. Então, acreditamos que o concurso tem os seus auditores, que poderão optar por esta via de qualidade.
A desconfiança contra o partido no poder é visível em todos os setores públicos e privados nacionais, mas nem por isso temos que nos dar por vencidos e tirar a camisola em detrimento de lutar pelo país.
DW África: Este é um processo oneroso para um país que está com uma mão à frente e outra atrás, como se diz na gíria popular. Como é que a RENAMO se vê a participar num processo desta natureza?
MM: Nós partimos do princípio de que o valor da paz é a própria paz, não importa o que nós tenhamos que fazer. E para nós, como RENAMO, não temos um preço para mensurar o valor da paz.
Afonso Dhlakama, homem de causas
O percurso de Afonso Dhlakama enquanto político e militar quase se confunde com a história de Moçambique independente. Em nome da democracia não hesitou em entrar numa guerra. Herói para uns, vilão para outros.
Foto: picture-alliance/dpa
Dhlakama, um começo na FRELIMO que não vingou
Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 em Mangunde, povíncia central de Sofala, Moçambique. Entra para a FRELIMO perto da época da independência em 1975, mas não fica muito tempo. Em 1976 sai do partido que governa o país para co-fundar a RNM (Resistência Nacional de Moçambique), um movimento armado, com o apoio da Rodésia do Zimbabué. O objetivo: por fim a ditadura.
Foto: Imago/photothek
Dhlakama: Desde cedo líder da RENAMO
A guerra civil entre a RNM, depois denominada RENAMO, Resistência Nacional de Moçambique, e o Governo começou em 1976. Dhlakama assume a liderança da RNM depois da morte de André Matsangaíssa em combate em 1979. Já era líder quando o primeiro acordo que visava por fim a guerra foi assinado entre o Governo e o regime do apartheid na África do Sul em 1984. Mas o Acordo de Inkomati fracassou.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
AGP: Democracia entra no vocabulário com Dhlakama
Depois de 16 anos de guerra Dhlakama assina com o Governo o Acordo Geral de Paz de Roma em 1992 no contexto do fim da guerra fria e do apartheid na África do Sul. Começa uma nova era para o país, depois de uma guerra que fez perto de um milhão de mortos e milhões de refugiados. A democracia passa então a fazer parte do vocabulário dos moçambicanos, com Dhlakama a auto-intitular-se o seu pai.
Foto: picture-alliance/dpa
O começo das derrotas de Dhlakama nas eleições
Moçambique entra para a era do multipartidarismo e realiza as suas primeiras eleições em 1994. Dhlakama e o seu partido perdem as eleições. As segundas eleições acontecem em 1999 e Dhlakama volta a perder, mas rejeita a derrota. E desde então não parou de perder, facto que provocou descontentamento ao partido de Dhlakama. Reclamava de fraudes e injustiças. E nasceram assim as crises com o Governo.
Foto: Reuters/Grant Lee Neuenburg
Dhlakama: O regresso às matas como estratégia de pressão
O regresso do líder da RENAMO à Serra da Gorongosa em 2013, um dos seus bastiões militares, foi uma mensagem inequívoca ao Governo da FRELIMO. Dhlakama queria mudanças reais, que passavam pelo respeito integral do AGP, principalmente a integração dos militares da RENAMO no exército nacional, e mudança da legislação eleitoral. Assim o país voltou a guerra depois de mais de vinte anos.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Armando Guebuza e Dhlakama em braço de ferro permanente
A 5 de agosto de 2014 o então Presidente Armando Guebuza e Afonso Dhlakama assinaram um cessar-fogo. Estavam criadas as condições para o líder da RENAMO participar nas eleições gerais de outubro de 2014. Dhlakama e o seu partido participam nas eleições e voltam a perder. As crise volta ao rubro e Dhlakama regressa às matas da Gorongosa.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Emboscada contra Afonso Dhlakama
A 12 de setembro de 2015 a caravana em que seguia Afonso Dhlakama foi atacada na província de Manica. Ate hoje não se sabe quem foram os atacantes. A RENAMO considerou a emboscada como uma tentativa de assassinato do seu líder. A comunidade internacional condenou o uso da violência.
Foto: DW/A. Sebastião
Aperto ao cerco contra Afonso Dhlakama
No dia 9 de outubro de 2015, a polícia cercou e invadiu a casa de Afonso Dhlakama na cidade da Beira. As forças governamentais pretendiam desarmar a força a guarda do líder da RENAMO. Os homens da RENAMO que se encontravam no local foram detidos. A população da Beira, bastião da RENAMO, juntou-se diante da casa de Dhlakama manifestando o seu apoio ao líder.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Catueira
Dhlakama e Nyusi: Menos mãos melhores resultados
O líder da RENAMO e o Presidente da República decidiram prescindir de mediadores e passaram a negociar o acordo pessoalmente. Desde então consensos têm sido alcançados, um deles relativo à revisão pontual da Constituição, no âmbito do processo de descentralização em fevereiro de 2018. A aprovação da proposta pelo Parlamento é urgente, pois as próximas eleições de 2018 e 2019 dependem dele.
Foto: Presidencia da Republica de Mocambique
Dhlakama: Não foi a bala que ditou o seu fim
Na manhã de 3 de maio o maior líder da oposição em Moçambique perdeu a vida vítima de doença. Deixa aos seus correlegionários a tarefa de negociar outro ponto controverso na crise com o Governo: a desmilitarização ou integração dos homens armados da RENAMO no exército nacional. Há quase 40 anos à frente da liderança da RENAMO teve de negociar com todos os Presidentes de Moçambique independente.