Após informações de que as sedes estariam encerradas, a RENAMO publicou hoje um vídeo onde Ossufo Momade entra na sede do partido, em Maputo.
Sede da RENAMO em Maputo (foto de arquivo)Foto: Jaime Álvaro/DW
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Após a divulgação da informação de que todas as sedes da RENAMO no país estariam encerradas, o maior partido da oposição em Moçambique publicou um vídeo nas redes sociais, hoje, onde se vê Ossufo Momade a entrar na sede do partido, em Maputo.
"A sede política provincial de Maputo está aberta. A informação [de que estava encerrada] não corresponde à verdade", ouve-se no vídeo, enquanto membros da RENAMO acompanham o líder Ossufo Momade à entrada da sede.
O presidente da RENAMO tem sido alvo de críticas por parte de ex-guerrilheiros, que ameaçam ocupar sedes do partido e exigem a sua retirada da liderança.
Mais cedo, esta segunda-feira, foi noticiado que todas as sedes nacionais do partido estavam encerradas. "A partir de hoje, que é dia 21, podemos encerrar todas as sedes nacionais", disse aos jornalistas Samuel Faustino, representante do grupo de ex-combatentes, durante uma concentração em frente à sede da RENAMO na Matola, província de Maputo.
"Permanecem encerradas"
Ele acrescentou que as sedes do partido nas províncias de Manica, Tete, Cabo Delgado, Inhambane e Zambézia permanecem encerradas, num protesto contra a liderança de Ossufo Momade, lamentando a falta de respostas da direção do partido: "não houve nada, nenhum pronunciamento".
Em 14 de julho, ex-guerrilheiros da RENAMO anunciaram que pretendiam encerrar "em definitivo" as delegações em todo o país, por ainda não ter sido convocado um Conselho Nacional alargado, após semanas de silêncio da liderança do partido.
Os ex-combatentes asseguram que o encerramento das sedes decorre de forma pacífica, sem invasões, apenas colocando "novos cadeados" para impedir o funcionamento.
"Não há possibilidade de invasão [das sedes] porque não estão eles [os dirigentes]. Só vamos por a mostrar que tínhamos vindo aqui", acrescentou o porta-voz deste grupo, de cerca de 15 homens.
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RENAMO "ligada" ao Governo
O grupo critica o presidente da RENAMO que acusa de estar "ligado ao Governo da FRELIMO", partido no poder, e de ter traído os ideais do partido.
"Ele está a afundar o partido desde 2018. Nós não somos bandidos, somos resistentes", declarou Samuel Fautino, visivelmente revoltado.
"O que queremos aqui é o Conselho Nacional alargado, só, mais nada", concluiu, sublinhando que este grupo vai continuar com o movimento até que haja uma resposta concreta da liderança.
A RENAMO chegou a anunciar a realização do primeiro Conselho Nacional de 2025 - estatutariamente tem de organizar dois por ano - em 07 e 08 de março, que foi depois adiado, sem nova data.
Manica: Ex-guerrilheiros da RENAMO defendem Momade
02:46
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A direção do partido já reconheceu a obrigatoriedade de realizar dois conselhos nacionais por ano, mas afirma que não é obrigatório que aconteçam em semestres diferentes.
Tal como delegações e sedes em todo o país, nas últimas semanas, a sede nacional e o gabinete de Momade foram encerrados e ocupados por antigos guerrilheiros em protesto, entre 15 e 28 de maio.
Mas foram retirados a tiro e gás lacrimogéneo pela Unidade de Intervenção Rápida, com mais de 50 desmobilizados a serem levados pela polícia moçambicana.
"Não se intrometam"
Os antigos guerrilheiros da RENAMO apelaram anteriormente ao Governo, e à polícia, para que "não se intrometa nos assuntos internos do partido", alertando que qualquer interferência poderá levar a "atitudes menos desejadas".
Alvo das críticas dos antigos guerrilheiros, Ossufo Momade assumiu a presidência da RENAMO em janeiro de 2019, após a morte de Afonso Dhlakama (1953 --2018), e foi reeleito para o cargo em maio de 2024, num processo fortemente contestado internamente.
A crise que se vive na RENAMO é conduzida atualmente por antigos guerrilheiros que exigem a demissão de Ossufo Momade por alegada "má gestão", falta de pagamento de pensões e subsídios e falta do fundo de funcionamento da formação política.
A RENAMO perdeu o estatuto da segunda força política mais votada nas eleições gerais de 09 de outubro de 2024, passando de 60 deputados, nas legislativas de 2019, para 28.
Momade foi candidato presidencial nas eleições de outubro de 2024, obtendo 6% dos votos, o pior resultado de um candidato apoiado pelo partido, que foi a principal força de oposição em Moçambique desde as primeiras eleições em 1994.
Durante 16 anos, Moçambique viveu uma guerra civil, que opôs o exército governamental e a RENAMO, tendo terminado com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em Roma, em 1992, entre o então Presidente, Joaquim Chissano, e Afonso Dhlakama, líder histórico da RENAMO, abrindo-se, assim, espaço para as primeiras eleições, dois anos depois.
Afonso Dhlakama, homem de causas
O percurso de Afonso Dhlakama enquanto político e militar quase se confunde com a história de Moçambique independente. Em nome da democracia não hesitou em entrar numa guerra. Herói para uns, vilão para outros.
Foto: picture-alliance/dpa
Dhlakama, um começo na FRELIMO que não vingou
Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 em Mangunde, povíncia central de Sofala, Moçambique. Entra para a FRELIMO perto da época da independência em 1975, mas não fica muito tempo. Em 1976 sai do partido que governa o país para co-fundar a RNM (Resistência Nacional de Moçambique), um movimento armado, com o apoio da Rodésia do Zimbabué. O objetivo: por fim a ditadura.
Foto: Imago/photothek
Dhlakama: Desde cedo líder da RENAMO
A guerra civil entre a RNM, depois denominada RENAMO, Resistência Nacional de Moçambique, e o Governo começou em 1976. Dhlakama assume a liderança da RNM depois da morte de André Matsangaíssa em combate em 1979. Já era líder quando o primeiro acordo que visava por fim a guerra foi assinado entre o Governo e o regime do apartheid na África do Sul em 1984. Mas o Acordo de Inkomati fracassou.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
AGP: Democracia entra no vocabulário com Dhlakama
Depois de 16 anos de guerra Dhlakama assina com o Governo o Acordo Geral de Paz de Roma em 1992 no contexto do fim da guerra fria e do apartheid na África do Sul. Começa uma nova era para o país, depois de uma guerra que fez perto de um milhão de mortos e milhões de refugiados. A democracia passa então a fazer parte do vocabulário dos moçambicanos, com Dhlakama a auto-intitular-se o seu pai.
Foto: picture-alliance/dpa
O começo das derrotas de Dhlakama nas eleições
Moçambique entra para a era do multipartidarismo e realiza as suas primeiras eleições em 1994. Dhlakama e o seu partido perdem as eleições. As segundas eleições acontecem em 1999 e Dhlakama volta a perder, mas rejeita a derrota. E desde então não parou de perder, facto que provocou descontentamento ao partido de Dhlakama. Reclamava de fraudes e injustiças. E nasceram assim as crises com o Governo.
Foto: Reuters/Grant Lee Neuenburg
Dhlakama: O regresso às matas como estratégia de pressão
O regresso do líder da RENAMO à Serra da Gorongosa em 2013, um dos seus bastiões militares, foi uma mensagem inequívoca ao Governo da FRELIMO. Dhlakama queria mudanças reais, que passavam pelo respeito integral do AGP, principalmente a integração dos militares da RENAMO no exército nacional, e mudança da legislação eleitoral. Assim o país voltou a guerra depois de mais de vinte anos.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Armando Guebuza e Dhlakama em braço de ferro permanente
A 5 de agosto de 2014 o então Presidente Armando Guebuza e Afonso Dhlakama assinaram um cessar-fogo. Estavam criadas as condições para o líder da RENAMO participar nas eleições gerais de outubro de 2014. Dhlakama e o seu partido participam nas eleições e voltam a perder. As crise volta ao rubro e Dhlakama regressa às matas da Gorongosa.
Foto: Jinty Jackson/AFP/Getty Images
Emboscada contra Afonso Dhlakama
A 12 de setembro de 2015 a caravana em que seguia Afonso Dhlakama foi atacada na província de Manica. Ate hoje não se sabe quem foram os atacantes. A RENAMO considerou a emboscada como uma tentativa de assassinato do seu líder. A comunidade internacional condenou o uso da violência.
Foto: DW/A. Sebastião
Aperto ao cerco contra Afonso Dhlakama
No dia 9 de outubro de 2015, a polícia cercou e invadiu a casa de Afonso Dhlakama na cidade da Beira. As forças governamentais pretendiam desarmar a força a guarda do líder da RENAMO. Os homens da RENAMO que se encontravam no local foram detidos. A população da Beira, bastião da RENAMO, juntou-se diante da casa de Dhlakama manifestando o seu apoio ao líder.
Foto: picture-alliance/dpa/A. Catueira
Dhlakama e Nyusi: Menos mãos melhores resultados
O líder da RENAMO e o Presidente da República decidiram prescindir de mediadores e passaram a negociar o acordo pessoalmente. Desde então consensos têm sido alcançados, um deles relativo à revisão pontual da Constituição, no âmbito do processo de descentralização em fevereiro de 2018. A aprovação da proposta pelo Parlamento é urgente, pois as próximas eleições de 2018 e 2019 dependem dele.
Foto: Presidencia da Republica de Mocambique
Dhlakama: Não foi a bala que ditou o seu fim
Na manhã de 3 de maio o maior líder da oposição em Moçambique perdeu a vida vítima de doença. Deixa aos seus correlegionários a tarefa de negociar outro ponto controverso na crise com o Governo: a desmilitarização ou integração dos homens armados da RENAMO no exército nacional. Há quase 40 anos à frente da liderança da RENAMO teve de negociar com todos os Presidentes de Moçambique independente.