Sabino Gomes Júnior: "Vamos anunciar mais uma marcha cívica"
4 de janeiro de 2026
Caso os opositores presos durante o golpe militar na Guiné-Bissau não sejam libertados até esta quarta-feira (07.01), será realizada uma nova marcha cívica. Foi o que revelou à DW Sabino Gomes Júnior, representante da sociedade civil guineense que, juntamente com políticos, associações e todos os que assinaram o Pacto Social para a "Salvação da Democracia" da Guiné-Bissau, já tinham convocado uma marcha nacional para 31 de dezembro para exigir a restauração da ordem constitucional no país, que entretanto foi travada pelas forças de segurança.
Apesar das dificuldades e do ambiente de medo crescente, a luta vai continuar, garante o também presidente do Fórum das coligações API Cabaz Garandi e PAI - Terra Ranka, que em 2026 espera mais ação da comunidade internacional. Há abertura para o diálogo com os militares no poder, mas primeiro é preciso libertar os presos, garante em entrevista à DW.
DW África: A marcha nacional que convocaram para 31 de dezembro para exigir a restauração da ordem constitucional na Guiné-Bissau foi travada pelas forças de segurança. Como pensam continuar a vossa luta perante todas as dificuldades?
Sabino Gomes Júnior (SGJ): Com a mesma convicção e com a mesma estratégia de sempre. Nós anunciámos a marcha no dia 31, mas nunca colocámos a hora nem o local. A marcha foi realizada na mesma no dia 31, com muita dificuldade por questões de segurança, mas foi feita no momento de viragem do ano, foi feita à meia-noite. Saímos à rua. Muitos dos colegas não quiseram ser filmados. Um dos nossos colegas que estava a apanhar as imagens, algumas fotografias, ainda não foi identificado. A família está a dizer que não conseguiu ainda entrar em contacto com ele desde o dia 31 e estamos preocupados com isso. A ideia é continuar a fazer a marcha de forma contínua e sempre com a mesma estratégia, ou seja, não anunciar o local nem a hora. Se não forem libertados os presos até 7 de janeiro, vamos anunciar mais uma marcha cívica.
DW África: Há um clima muito grande de medo e repressão e o líder do alto comando militar já disse que vai ser um ano muito difícil na Guiné-Bissau. Concorda?
SGJ: Estamos a contar com isso, porque enquanto não houver o retorno à liberdade constitucional, enquanto houver raptos, tortura de pessoas e esse clima de medo, não poderemos ter um ano bom. Claramente os assinantes do Pacto Social vão pedir também que haja uma intervenção da comunidade internacional para que se responsabilizem as pessoas que estão a provocar e a criar esse clima.
DW África: Já existe algum plano para diálogo com organizações regionais, como a CEDEAO e a CPLP, que possam pressionar pela restauração da ordem constitucional no país?
SGJ: Sim, há cartas que estão a ser preparadas para pedir encontros diretos. Nesse caso, estamos a falar mesmo da sociedade civil. Já dissemos que queremos conversar também com as autoridades golpistas que estão em Bissau. A comunidade internacional, nesse caso a CEDEAO, já mencionou na última reunião dos Chefes de Estado da organização que a sociedade civil vai fazer parte dessas negociações. Só que não está a acontecer nada até agora. Nós estamos a exigir que internamente haja condições mínimas para que esses diálogos possam acontecer, mas isso passa obrigatoriamente pela libertação dos presos. Nós não vamos começar um diálogo com as pessoas presas. A sociedade civil não vai participar em nenhuma reunião e em nenhum encontro de reconciliação nacional e de saída de crise enquanto houver presos políticos, militares e civis de forma injusta.
DW África: O Pacto Social para a "Salvação da Democracia” na Guiné-Bissau foi assinado em dezembro. Qual será o papel concreto da diáspora guineense, por exemplo, e como pretendem mudar a situação política no país?
SGJ: A diáspora guineense é extremamente importante e tem sido a reserva moral da sociedade guineense. Tem sido a reserva de energia e a fonte de inspiração da sociedade civil que também está a lutar neste momento na Guiné-Bissau. Nós estamos a contar com a diáspora de formas diversas. Primeiro, estamos a falar de grupos intelectuais. São indivíduos que amam a Guiné-Bissau e que têm engajamento direto com a pátria, mas também são intelectuais que têm ideias e propostas de soluções para que a Guiné-Bissau possa encontrar o seu caminho: o caminho da democracia, da legalidade e do desenvolvimento.
Em termos práticos, queremos que essas negociações aconteçam quando houver condições mínimas para que possam acontecer. Queremos que a diáspora faça parte. A sociedade civil terá de fazer parte. Nós queremos ser os promotores desses diálogos juntamente com a comunidade internacional. Sem diáspora, esses diálogos não serão frutíferos. Já abrimos o Pacto Social a académicos, a sindicatos, a toda a gente, para que se possa refundar uma nova Guiné-Bissau. Neste ano de 2026 terá de começar essa nova Guiné-Bissau que não passará por deixar políticos ou civis ou militares na prisão de forma injusta. Têm de ser libertados para que possam participar nesse diálogo nacional que queremos que aconteça com o acompanhamento da comunidade internacional, mas sem esse clima de medo, de impedir as pessoas de se exprimirem. O clima de raptos e de tortura tem de parar.