Milhares de pessoas estão em fuga na província angolana do Namibe após conflito entre as etnias Mucubal e Nhaneka. Em causa, o acesso a uma represa de água. Ativistas acusam Governo de falta de visão para resolver seca.
Representante do Fórum Regional para o Desenvolvimento Universitário (FORDU) explica que "situação [de conflito] é antiga" e piorou nos últimos três mesesFoto: Borralho Ndomba/DW
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Na base do conflito entre membros das comunidades Mucubal e Nhaneka, no município de Cacimba, está o acesso a uma represa de água utilizada para dar de beber ao gado, aponta um relatório do Serviço de Proteção Civil e Bombeiros.
Em entrevista à DW, Oséias Manuel Caxinde, ativista e representante do Fórum Regional para o Desenvolvimento Universitário (FORDU), explica que "a situação é antiga" e piorou nos últimos três meses.
Segundo ele, os confrontos começaram, no sábado (16.08), "quando os Mucubal invadiram a comunidade onde estavam os Nhaneka-Umbi". O ativista conta que a situação continua e provocou a fuga de milhares de pessoas dos municípios de Cacimba e Camucuio - estão a fugir para a sede do município da Bibala.
Padre Pio Wakussanga diz que desarmamento da população "não vai resolver o problema"Foto: Borralho Ndomba/DW
"A crispação começou porque na zona conflituosa existe uma represa em que há água praticamente o ano todo. É numa localidade mais próxima dos Nhanekas", acrescenta Oséias Manuel Caxinde.
Segundo ele, "os conflitos remontam à era colonial" e as suas causas são conhecidas por todos.
"Esse conflito de fronteiras, de espaços, de recursos e de identidades é muito mais antigo e é recorrente. O problema não é haver conflitos. O problema é que, primeiro, o modelo de governação está tecnicamente falido. Este modelo centralizado, onde tudo se pensa no gabinete na Cidade Alta para todo o país, infelizmente não funciona. Em segundo lugar, o Governo não tem uma visão das comunidades angolanas do interior, das minorias", diz.
Por outro lado, "se uma parte do problema tem a ver com recursos, mais concretamente a água, não é muito difícil de se resolver", considera o padre Wacussanga.
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"Situação preocupante"
As autoridades confirmaram que os confrontos de domingo resultaram na morte de 12 pessoas, mas o ativista Oséias Manuel Caxinde garante que o número já ultrapassa as duas dezenas.
"Temos informações de que existem mais de 20 mortos nesta situação. E ainda há corpos na mata. Isto é uma situação preocupante", afirma.
Reaproveitar a água da chuva em tempos de seca
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Em resposta ao sucedido, e após uma reunião com os líderes tradicionais, na segunda-feira, o governo da província do Namibe ordenou o desarmamento dos cidadãos dos municípios de Cacimba e Camucuio. Esta é uma medida que, aos olhos do padre Wakussanga, não vai alterar a situação.
"Isso é teatro", comenta. "Você tira, por exemplo, a azagaia. Tira a flecha. Tira a lança. Mas haverá reincidência. Aliás, não é preciso muito para lutar - há pedras, por exemplo."
Para além disso, diz Wakussanga, o encontro de segunda-feira não contou com a participação dos que participaram nos confrontos. Este é um problema também focado pelo representante do FORDU.
"Projetos megalómanos" não são solução
Oséias Manuel Caxinde alerta que a situação deverá continuar nesta época sem chuvas. Por isso, critica as promessas do governo provincial para a construção de seis grandes barragens e a reabilitação de 43 represas que, a acontecer, não será no curto prazo.
"Temos um governo que gosta de projetos megalómanos enquanto ignora projetos de curto prazo [...]. Queremos acreditar que o projeto das barragens, mais do que propaganda política, é um projeto de médio e longo prazo. Enquanto isso, poderiam criar-se estratégias de curto prazo, como a criação de mais furos e de estratégias de apoio a essas famílias".
Por seu lado, o padre Wakussanga questiona: "Até que ponto é que o que vamos fazer foi realmente resultado de uma ampla auscultação? Tenho muitas dúvidas".
Wakussanga defende que a resolução deste tipo de conflitos específicos passa pelo trabalho conjunto com as comunidades.
"Os chamados rios secos que só correm água durante o tempo da chuva, têm muita água no seu lençol freático. Era só trabalhar com as comunidades", sugere. "Elas iriam indicar os sítios onde podiam colocar cacimbas melhoradas ou mesmo furos ou represas de pequena dimensão em cada zona."
Pobreza no meio da riqueza no sul de Angola
Apesar da riqueza em petróleo, em Angola vive muita gente na pobreza, sobretudo no sul do país. A região é assolada por uma seca desde 2011 e as colheitas voltaram a ser pobres neste ano. Muitos angolanos passam fome.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Sobras da guerra civil
A guerra civil (1976 -2002) grassou com particular violência no sul de Angola. Aqui, o Bloco do Leste socialista e o Ocidente da economia de mercado livre conduziram uma das suas guerras por procuração mais sangrentas em África. Ainda hoje se vêm com frequência destroços de tanques. A batalha de Cuito Cuanavale (novembro de 1987 a março de 1988) é considerada uma das maiores do continente.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Feridas abertas
O movimento de libertação UNITA tinha o seu baluarte no sul do país, e contava com a assistência do exército da República da África do Sul através do Sudoeste Africano, que é hoje a Namíbia. Muitas aldeias da região foram destruídas. Mais de dez anos após o fim da guerra civil ainda há populares que habitam as ruínas na cidade de Quibala, no sul de Angola.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Subnutrição apesar do crescimento económico
Apesar da riqueza em petróleo, em Angola vive muita gente na pobreza, sobretudo no sul. A região sofre de seca desde 2011 e as colheitas voltaram a ser más no ano 2013. Muitos angolanos não têm o suficiente para comer. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) diz que nos últimos anos pelo menos um quarto da população passou fome durante algum tempo ou permanentemente.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
O sustento em risco
Dado o longo período de seca, a subnutrição é particularmente acentuada nas províncias do sul de Angola, diz a FAO. As colheitas falham e a sobrevivência do gado está em risco. Uma média de trinta cabeças perece por dia, calcula António Didalelwa, governador da província de Cunene, a mais fortemente afetada. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) também acha que a situação é crítica.
Foto: DW/A. Vieira
Semear esperança
A organização de assistência da Igreja Evangélica Alemã “Pão para o Mundo” lançou um apelo para donativos para Angola na sua ação de Advento 2013. Uma parte dos donativos deve ser reencaminhada para a organização parceira local Associação Cristã da Mocidade Regional do Kwanza Sul (ACM-KS). O objetivo é apoiar a agricultura em Pambangala na província de Kwanza Sul.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Rotação de culturas para assegurar mais receitas
Ernesto Cassinda (à esquerda na foto), da organização cristã de assistência ACM-KS, informa um agricultor num campo da comunidade de Pambangala, no sul de Angola sobre novos métodos de cultivo. A ACM-KS aposta sobretudo na rotação de culturas: para além das plantas alimentícias tradicionais como a mandioca e o milho deverão ser cultivados legumes para aumentar a produção e garantir mais receitas.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Receitas adicionais
Para além de uma melhora nas técnicas de cultivo, os agricultores da região também são encorajados a explorar novas fontes de rendimentos. A pequena agricultora Delfina Bento vendeu o excedente da sua colheita e investiu os lucros numa pequena padaria. O pão cozido no forno a lenha é vendido no mercado.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Escolas sem bancos
Formação de adultos na comunidade de Pambangala: geralmente os alunos têm que trazer as cadeiras de plástico de casa. Não é só em Kwanza Sul que as escolas carecem de equipamento. Enquanto isso, a elite de Angola vive no luxo. A revista norte-americana “Forbes” calcula o património da filha do Presidente, Isabel dos Santos, em mais de mil milhões de dólares. Ela é a mulher mais rica de África.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Investimentos em estádios de luxo
Enquanto em muitas escolas e centros de saúde falta equipamento básico, o Governo investiu mais de dez milhões de euros no estádio "Welvitschia Mirabilis", para o Campeonato Mundial de Hóquei em Patins 2013, na cidade de Namibe, no sul de Angola. Numa altura em que, segundo a organização católica de assistência “Caritas Angola” dois milhões de pessoas passaram fome no sul do país.
Foto: DW/A. Vieira
Novas estradas para o sul
Apesar dos destroços de tanques ainda visíveis, algo melhorou desde o fim da guerra civil em 2002: as estradas. O que dá a muitos agricultores a oportunidade de venderem os seus produtos noutras regiões. Durante a era colonial portuguesa, o sul de Angola era tido pelo “celeiro” do país e um dos maiores produtores de café de África.
Foto: Jörg Böthling/Brot für die Welt
Um futuro sem sombras da guerra civil
Em Angola, a papa de farinha de milho e mandioca, rica em fécula, chama-se “funje” e é a base da alimentação. As crianças preparam o funje peneirando o milho. Com a ação de donativos de 2013 para a ACM-KS, a “Pão para o Mundo” pretende assegurar que, de futuro, os angolanos no sul tenham sempre o suficiente para comer e não tenham que continuar a viver ensombrados pela guerra civil do passado.