SINPROF: "O Governo ainda investe muito pouco na educação"
17 de dezembro de 2025
O Sindicato Nacional dos Professores (SINPROF) de Angola decretou greve a partir de 15 de janeiro. Com a paralisação, que deverá decorrer em cinco fases, a classe exige, entre outros pontos, melhores condições laborais, ajuste salarial e o pagamento de subsídios.
Esta semana, na sequência da aprovação da proposta de Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2026, o Governo angolano avançou que prevê contratar mais seis mil professores no próximo ano.
No entanto, o SINPROF não vê o anúncio como uma "boa notícia". À DW, o secretário-geral do sindicato, Admar Jinguma, explica que essas contratações apenas irão colmatar a perda de docentes que a classe sofre todos os anos.
DW África: No arranque do ano letivo, em setembro, o SINPROF deixou claro que a greve era iminente. O que vos fez agora avançar?
Admar Jinguma (AJ): Nós temos problemas no setor da educação que não conhecem soluções. Os encontros com o Ministério da Educação resultaram numa "conversa de surdos", porque, no final do dia, os consensos encontrados não permitiram resolver essas questões. No dia 16 de julho, remetemos um novo caderno reivindicativo com as mesmas velhas questões. O caderno foi objeto de duas rondas negociais, mas depois as portas do diálogo fecharam. O nosso órgão colegial reuniu-se em outubro, decidindo então a realização de várias paralisações no setor em cinco fases diferentes.
DW África: E quais são os principais pontos deste caderno reivindicativo?
AJ: Temos a velha questão da remuneração e a questão do nivelamento das carreiras dos nossos agentes. Para se ter uma ideia, temos muitíssimos professores, que embora tenham evoluído já para os graus de licenciatura, mestrado e doutoramento, continuam a ser remunerados há muitos anos como técnicos médios. É importante nivelar a carreira dos agentes, mas infelizmente o setor não adequa a sua remuneração. Além disso, temos também a questão da progressão na carreira. Embora este processo tenha melhorado, acabou por ser mal conduzido, como é prática do Ministério, e muitos ficaram para trás.
DW África: A falta de professores em Angola é algo que o SINPROF tem vindo a pontuar. Como receberam a notícia de que o Governo prevê contratar mais de seis mil professores em 2026?
AJ: Temos um déficit muito grande, de 86 mil professores. Precisamos mais 80.000 professores. Só vamos repor o que perdemos. Estamos a perder muitos professores. Primeiro, porque alguns vão para a reforma. Outros, lamentavelmente, falecem e há muitos que estão a sair - ou porque estão a emigrar para outros países ou porque estão a abraçar outras carreiras. Todos os anos, estamos a perder entre cinco a oito mil professores. Portanto, contratar seis mil professores no próximo ano nem é uma boa notícia. Precisávamos avançar para números mais ambiciosos, mas quando se trata do setor da educação, a justificação dada é sempre a de limitações orçamentais.
DW África: Ou seja, considera que a base do problema está no próprio Orçamento Geral de Estado e na parte que é alocada à educação?
AJ: Exatamente, continua a ser um orçamento reduzidíssimo. Este ano, temos 6,4% do Orçamento Geral para o setor da educação, e a execução nem sequer atingiu os 50%. Na mesma linha, o orçamento que foi agora aprovado [para 2026] destinou uma "fatia do bolo" na ordem dos 6,49% - é uma diferença de apenas 0,49% relativamente ao orçamento que está em execução. Assim sendo, nunca chegaremos lá.
DW África: E da parte dos professores, sentem que haverá grande adesão a esta greve?
AJ: Não haja dúvidas quanto a isso. Os professores ganharam consciência reivindicativa há muito tempo e, a cada dia que passa, esta consciência aumenta. Podemos dizer que há uma "prontidão combativa", usando uma linguagem militar. Os professores só aguardam o momento do apito para o "tiro de largada".