A suspensão das emissões da Voz da América (VOA) na África Lusófona está a gerar preocupações entre jornalistas e ouvintes. Em Angola, a decisão impacta parceiros locais e deixa mais de dez correspondentes no desemprego.
Políticas de cortes da administração de Donald Trump vão levar ao fim de emissões da VOA em ÁfricaFoto: Bonnie Cash/AFP/Getty Images
A Rádio Nova, um órgão privado angolano, era o único parceiro oficial da Voz da América em Angola. Semanalmente, emitia reportagens exclusivas da VOA sobre política norte-americana. No entanto, desde que foram anunciados os cortes e a suspensão das emissões, a situação mudou drasticamente.
João Pinto, diretor para a informação da "Rádio Notícia", explicou à DW "o impacto imediato" da decisão da administração de Donald Trump. O jornalista destaca que a sua estação e os ouvintes ficarão sem a "pedagógica e literacia da política dos Estados Unidos".
João Pinto, diretor da Rádio Nova, lamenta a decisão da administração Trump e alerta para o desemprego de vários jornalistasFoto: Manuel Luamba/DW
"Sobretudo, porque também através da Voz da América tínhamos conhecimento de vários assuntos que, muitas vezes, são encapotados aqui no nosso país. E era possível recorrer sempre aos nossos parceiros para ultrapassarmos algumas dificuldades que aqui temos em termos de fontes. Este é o impacto imediato”, frisou.
João Pinto esclarece ainda que uma delegação do serviço em português da VOA deslocar-se-ia a Luanda, a meio deste ano, para reforçar a cooperação e estabelecer novas parcerias.
"Os contactos também já tinham sido feitos também a nível da própria embaixada porque havia essa simbiose com o adido cultural. Essa parceria não era de ajuda financeira, era mesmo para abrir portas à informação e nós podermos chegar e, quem sabe, no futuro ter, inclusive, ações de formação”, explicou.
A VOA é uma das mais antigas rádios internacionais e emitia em 48 línguas, incluindo o português.
Na redação em Washington, trabalhava Mayra de Lassalete, uma jornalista multimédia angolana. Em Angola, vários correspondentes foram afetados pela medida.
Pedro Miguel, secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA), lamenta a situação: "São muitos angolanos que se encontram na situação de desemprego – jornalistas. Só em Angola são mais de dez correspondentes da Voz da América", sublinhou.
Diretor da DW critica cortes de Trump na Voz da América
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Além da Rádio Nova, em Angola, a VOA também era parceira de outras estações da África Lusófona, como a Rádio Comercial de Cabo Verde.
O jornalista angolano José Gama comenta que "em África, sobretudo nos países da lusofonia onde a sociedade depende muito dos canais ou meios de comunicação controlados pelo Estado, tem como alternativa recorrerem a rádios independentes como a DW, a Voz da América e a RFI".
Gama acrescenta que a suspensão dos serviços da VOA deixará um vazio nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). "E vai fazer com que a sociedade possa estar ainda mais dependente dos meios de comunicação controlados pelos seus governos", lamentou.
Gana é o país africano mais bem classificado no "<i>Ranking</i> Mundial da Liberdade de Imprensa" dos Repórteres sem Fronteiras. A Eritreia é o pior em África e, a nível mundial, só é melhor que a Coreia do Norte.
Foto: Esdras Ndikumana/AFP/Getty Images
Eritreia - posição 179º lugar
A liberdade de imprensa é considerada "não existente". Em 2001, uma série de medidas repressivas contra <i>media</i> independentes levaram a uma onda de detenções. O Presidente Isaias Afeworki é visto como um “predador” da liberdade de imprensa e usa os meios de comunicação nacionais como seus porta-vozes. Escritores, locutores e artistas são censurados e a informação é escondida dos cidadãos.
Foto: picture-alliance
Sudão - 174º lugar
Na capital Cartum, pratica-se a chamada “censura pré-publicação". O Governo detém jornalistas arbitrariamente e interfere abertamente na produção de notícias. A "Lei da Liberdade de Informação de 2015" é vista como uma outra forma de exercer controlo governamental sobre a informação pública. Os jornalistas têm de passar por um teste e obter uma permissão para trabalhar.
Foto: Getty Images/AFP/A. Shazly
Burundi - 159º lugar
Repressão estatal contra a liberdade de imprensa e intimidação de jornalistas é comum no país. <i>Media </i> controlados pelo Estado substituem cada vez mais estações de rádio independentes, depois de a maior parte delas ter sido forçada a fechar, após uma tentativa de golpe de estado há três anos. Centenas de jornalistas fugiram do país desde 2015. Na foto, protesto de jornalistas no país.
Foto: Esdras Ndikumana/AFP/Getty Images
República Democrática do Congo - 154º lugar
Defensores dos <i>media</i> falam em jornalistas mortos, agredidos, detidos e ameaçados desde que Joseph Kabila sucedeu ao pai na presidência do país em 2001. Orgãos de comunicação internacionais queixam-se que o Governo interfere nos sinais de rádio ou corta mesmo a transmissão. Protestos da oposição levaram as autoridades a interromper ou cortar o acesso à Internet.
Foto: picture-alliance/dpa/M. Kappeler
Suazilândia - 152º lugar
Esta monarquia absoluta tem a reputação de obstruir o acesso à informação e impedir os jornalistas de fazerem o seu trabalho. Os <i>media</i> estão sujeitos a leis restritivas e repórteres são frequentemente chamados a tribunal pelo seu trabalho. Auto-censura é comum. Um editor saiu recentemente do país depois de fazer uma reportagem sobre negócios obscuros ligados ao Rei Mswati III (na foto).
Foto: picture-alliance/dpa
Etiópia - 150º lugar
O Governo tem uma mordaça sobre os órgãos de comunicação e os jornalistas trabalham sobre condições muito restritivas. Com a Eritreia, este país tem uma das mais altas taxas de jornalistas detidos na África subsariana. Na foto, o jornalista etíope Getachew Shiferaw, que foi condenado a 18 meses de prisão por ter falado com um dissidente.
Foto: Blue Party Ethiopia
Sudão do Sul - 144º lugar
Os jornalistas são obrigados pelo Governo a evitar fazer cobertura do conflito. Órgãos de comunicação internacionais denuciaram casos de assédio e foram banidos deste jovem país, onde pelo menos 10 jornalistas foram mortos desde 2011. Na foto, dois jornalistas do Uganda que tinham sido detidos por autoridades no Sudão do Sul.
Foto: Getty Images/AFP/W. Wudu
Camarões - 129º lugar
O Governo chamou às redes sociais uma “nova forma de terrorismo”, e bloqueia frequentemente o acesso às mesmas. Emissões de rádio e televisão foram bloqueadas duas semanas em março, durante o período eleitoral. Jornais que publicam conteúdos que desagradam políticos no poder são banidos e jornalistas e editores são detidos.
Foto: picture alliance/abaca/E. Blondet
Chade - 123º lugar
Os jornalistas arriscam-se a detenções arbitrárias, agressões e intimidações. Nos últimos meses, o Governo tem vindo a reprimir plataformas de <i>social media</i> e ciber-ativistas. A Internet tem estado bloqueada no país desde 28 de março, no seguimento de um “apagão” da Internet devido a manifestações da sociedade civil e protestos dos órgãos de comunicação num chamado “dia sem imprensa”.
Foto: UImago/Xinhua/C. Yichen
Tanzânia - 93º lugar
Críticos dizem que o Presidente John Magufuli tem vindo a atacar a liberdade de expressão deliberadamente, desde que tomou posse em 2015. Jornalistas foram presos ou dados como desaparecidos. Orgãos de comunicação social foram fechados ou impedidos de publicar durante longos períodos de tempo. Leis que podem ser usadas contra os <i>media</i> foram apertadas.