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SociedadeTanzânia

Tanzânia: Quem teme o poder do voto jovem e feminino?

Khelef Mohammed
29 de outubro de 2025

Os eleitores na Tanzânia são hoje chamados a votar nas eleições gerais. Mulheres e jovens são blocos eleitorais particularmente significativos. No entanto, os seus votos são largamente ignorados pelas elites políticas.

Cidadãos de Kikwajuni verificam os seus nomes na lista de registo eleitoral nas mesas de voto em Zanzibar
Muitas mulheres na Tanzânia demonstram vontade de participar nos processos democráticos, mas poucas decidem realmente candidatar-se a cargos públicosFoto: Glenn Carnell/State House Zanzibar

A Tanzânia vai às urnas pela sétima vez desde que o multipartidarismo foi oficialmente restaurado no início dos anos 1990.

As mulheres, que ocupam 51% da demografia do país, e os jovens que representam cerca de 60%, podiam, em teoria, ser decisivos na votação. No entanto, os seus principais anseios são relegados para segundo plano pelas elites políticas.

Cerca de dois terços da população total da Tanzânia tem menos de 35 anos, e as suas principais preocupações ecoam as de outras partes do continente: criação de emprego, acesso a educação de qualidade e garantia de direitos sobre a terra.

No entanto, ao observar as campanhas eleitorais, estas questões parecem relegadas para segundo plano.

Voto jovem negligenciado

Um fator significativo que contribui para esta negligência está enraizado na própria natureza do panorama político do país: tradicionalmente, os jovens tanzanianos tendem a apoiar partidos da oposição, o que irrita o partido no poder, o Chama Cha Mapinduzi (CCM ou Partido da Revolução), que historicamente tem maior apoio entre as gerações mais velhas e lidera o país há décadas.

Entre os partidos da oposição, o principal é o Chadema (Partido para a Democracia e o Progresso), que tem tradicionalmente o maior apoio entre os jovens. Mas nestas eleições, a controversa desqualificação do Chadema deixou um vazio, que nenhum outro partido conseguiu preencher entre os jovens do país.

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"A ausência do Chadema nas eleições é uma eliminação automática de uma percentagem significativa da juventude", observa Lovelet Lwakatare, analista política sediada em Dar es Salaam.

Para a analista, este cenário deixa a juventude numa situação difícil, com as suas principais preocupações a serem abordadas apenas nos termos do partido no poder. "O partido no poder, Chama cha Mapinduzi (CCM), tem membros proporcionalmente mais velhos em comparação com o CHADEMA, e outros grupos da oposição", lembra.

Mulheres: uma força ignorada na política

Embora a visibilidade das mulheres na arena política da Tanzânia esteja a crescer, as suas principais preocupações continuam a ser igualmente negligenciadas.

Tanto o partido da oposição Chama cha Wazalendo (Aliança para a Mudança e Transparência - ACT), atualmente o terceiro maior partido político da Tanzânia, como o CCM, apresentam várias candidatas, incluindo nomes para os cargos de presidente, vice-presidente e outras posições de liderança.

A atual Presidente da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, é vista como alguém que dá pouca atenção às questões que afetam as mulheres e os jovens eleitoresFoto: CCM

Mzuri Issa, presidente da Associação de Mulheres dos Media da Tanzânia (TAMWA) em Zanzibar, salienta a "mudança positiva" registada nestas eleições com o "aumento significativo no número de candidatas nos partidos".

No entanto, lamenta que a "representação continue longe de ser proporcional", lembrando que muitas questões centrais entre as eleitoras - desde a saúde das mulheres ao combate à violência de género - raramente foram atendidas nos últimos anos.

"O maior obstáculo continua a ser os recursos financeiros. A participação política, incluindo as campanhas eleitorais, requer dinheiro, que muitas mulheres ainda não têm. Embora os seus maiores trunfos sejam a honestidade, a dedicação e as boas intenções, a sociedade muitas vezes vê com desfavor aqueles que não têm dinheiro", afirma.

Mesmo entre mulheres e jovens que não participam ativamente na formulação de políticas, o peso dos papéis de género, das normas culturais e das tradições é facilmente sentido nas urnas.

Política para além da retórica vazia

O analista político Said Miraji acredita, no entanto, que isso pode estar a mudar, apontando uma mudança recente na abordagem do CCM à saúde da mulher.

"O CCM afirmou claramente nas suas políticas que, nos primeiros 100 dias [após a eleição], a Presidente Samia Suluhu Hassan contratará muitas enfermeiras e parteiras", destacou, sublinhando que esta "promessa muito específica e mensurável" é dirigida diretamente às eleitoras.

Salome Kitomari, editora do jornal diário Nipashe, concorda que os comícios eleitorais têm abordado cada vez mais questões relacionadas com as mulheres, desde saúde ao acesso a crédito.

Apesar de ser um passo promissor rumo à verdadeira igualdade, Lovelet Lwakatare aponta uma falha crucial nestas propostas: na maioria dos casos, elas não têm origem nas próprias mulheres.

Segundo a analista, mesmo as promessas da Presidente raramente "explicam estrategicamente como [elas] ajudariam especificamente mulheres e jovens a superar os seus desafios únicos, especialmente os que vivem no setor informal ou em áreas rurais”.

"As alas juvenis e femininas dos partidos funcionam muitas vezes como meras claques para políticos estabelecidos, geralmente homens mais velhos", diz, acrescentando que grande parte dos manifestos dos partidos são redigidos pelas elites masculinas urbanas e empresariais do país, e não pelas próprias mulheres e jovens a quem se destinam.

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Pressão social nas urnas

Mesmo entre mulheres e jovens que não participam ativamente na política, o peso dos papéis de género, normas culturais e tradições sente-se fortemente nas urnas.

Muitos eleitores na Tanzânia dizem que são influenciados por fatores como a lealdade partidária herdada por gerações dentro das famílias, o forte apoio local a candidatos individuais ou pequenas doações financeiras distribuídas pelos candidatos em troca de votos. Especialmente nas zonas rurais, são poucos os eleitores que demonstram um envolvimento profundo com os manifestos dos partidos.

Por essas razões, a participação dos jovens e das mulheres da Tanzânia na política continua a ser em grande parte passiva. Mesmo num país liderado por uma mulher, Samia Suluhu Hassan, a mudança parece ser lenta.

Cerca de 37,7 milhões de eleitores irão eleger o Presidente para os próximos cinco anos, o parlamento e os conselheiros locais nestas eleições marcadas pela ausência de oposição, pela perseguição a críticos do Governo e por fortes restrições às liberdades civis.