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ConflitosEstados Unidos

Tentativas de "mudança de regime" por intervenções dos EUA

4 de março de 2026

Enquanto o conflito entre Irão, EUA e Israel se intensifica, uma retrospectiva das mudanças de regime na Líbia, no Iraque e no Afeganistão, entre outros países, mostra as consequências das intervenções norte-americanas.

Carregamento de munições de um F/A-18F no USS Abraham Lincoln durante a Operação "Fúria Épica"
Carregamento de munições dos EUA durante a Operação "Fúria Épica"Foto: Kulani Lakanaria/U.S. Navy/Planet Pix/ZUMA/picture alliance

Um dos objetivos claros da ofensiva conjunta dos EUA e de Israel no Irão é o colapso do regime teocrático iraniano. O Presidente norte-americano, Donald Trump, instou a população iraniana a tomar o poder. E a morte do líder supremo, Ali Khamenei, confirmou a intenção de destituição do regime que comanda o Irão há mais de quatro décadas. 

Nenhum país tem mais experiência nas chamadas operações de "mudança de regime" do que os Estados Unidos. Só durante a Guerra Fria, segundo um estudo, os EUA realizaram 72 tentativas de alterar as relações de poder no estrangeiro a seu favor. Foi assim que, em 1953, a Agência Central de Inteligência (CIA) americana, em conjunto com o serviço de inteligência estrangeira do Reino Unido – MI6, conseguiu derrubar o então primeiro-ministro iraniano, Mohammed Mossadegh.

No entanto, como consequência, o xá Mohammed Reza passou a ser cada vez mais visto como um "lacaio dos EUA" e acabou deposto no âmbito da Revolução Islâmica de 1979. O regime teocrático - e cada vez mais repressivo - então instaurado, é agora visado nos ataques.

No último sábado, o Presidente dos EUA, Donald Trump, fez um apelo ao povo iraniano: "Quando terminarmos, assumam o controlo do vosso Governo. Esta será provavelmente a vossa única oportunidade por muitas gerações. Durante muitos anos pediram ajuda à América, mas nunca a obtiveram."

As tentativas de mudança de regime na região são vistas com ceticismo por especialistas. A situação atual lembra o histórico desastroso de ações similares no Afeganistão, Iraque e Líbia, onde intervenções externas desencadearam conflitos civis e não levaram à ascensão dos prometidos Governos democráticos. 

Líbia (2011)

Quando em 2011 a chamada Primavera Árabe alimentou a esperança de mudança em todo o norte de África, também na Líbia cresceu a resistência contra o ditador Muammar Kadhafi

Os EUA, sob a presidência de Barack Obama, rapidamente se aliaram aos seus opositores, o chamado Conselho Nacional de Transição. Juntamente com a França e o Reino Unido, os EUA realizaram ataques aéreos. 

Quase 15 anos depois, a Líbia continua politicamente dividida e marcada por forte instabilidade.

Iraque (2003)

Após uma década de sanções e ações pontuais contra o Iraque, os EUA decidiram derrubar o regime de Bagdad através de uma invasão militar. Poucas semanas após a queda do ditador Saddam Hussein, o então Presidente dos EUA, George W. Bush, proclamou o suposto fim da guerra no Iraque: "A transição da ditadura para a democracia levará tempo, mas vale a pena todos os esforços. A nossa coligação permanecerá até o nosso trabalho estar concluído. Então partiremos e deixaremos um Iraque livre."

Contudo, durante o período de ocupação que se seguiu, não se instalaram nem a paz nem a estabilidade. As instituições estatais estavam enfraquecidas e o vizinho Irão apoiava milícias xiitas, que travavam combates cada vez mais violentos com unidades sunitas. 
Diante do vazio de poder, a organização terrorista Estado Islâmico tornou-se um ator poderoso e desestabilizou ainda mais o Iraque, a Síria e toda a região.

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Segundo o historiador norte-americano Joseph Stieb, "os decisores políticos americanos partiram do princípio de que os valores liberais, a democracia e o capitalismo globalizado constituíam um sistema universal. Acreditavam que regimes como o do Iraque seriam relativamente fáceis de substituir após a sua queda."

Afeganistão (2001)

Há outra guerra com o objetivo de uma "mudança de regime" associada a George W. Bush. Apenas quatro semanas após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, as forças armadas dos EUA lançaram a "Operação Liberdade Duradoura" no Afeganistão. O regime talibã foi rapidamente derrubado, mas também aqui o novo governo apoiado pelos EUA só conseguiu manter-se no poder durante algum tempo.

Depois de as forças internacionais, das quais a Alemanha também fazia parte, terem reduzidos os seus contingentes em 2014, os Talibãs recuperaram terreno passo a passo. Desencadearam ataques e enfraqueceram visivelmente o governo de unidade. 

No último ano do seu primeiro mandato, Donald Trump acordou com os Talibãs a retirada dos soldados americanos restantes, que, em troca, não seriam atacados. Imediatamente após a retirada dos últimos soldados, realizada por Joe Biden em 2021, os Talibãs retomaram o controlo total e voltou ao sistema político vigente antes da invasão americana.

Panamá (1989)

Na década de 1980, o ditador Manuel Noriega governava o Panamá. Esteve durante anos na folha de pagamentos da CIA, antes de se tornar um fardo para o governo dos EUA. Durante o seu regime, o Panamá era um centro de tráfico de drogas. Além disso, os EUA temiam não ter qualquer papel na prevista ampliação do Canal do Panamá.

Em maio de 1989, o político da oposição Guillermo Endara venceu as eleições presidenciais, mas Noriega não reconheceu a vitória. Ao longo de 1989, a situação agravou-se até que, em dezembro, o Presidente dos EUA George H. W. Bush ordenou uma operação militar para destituir Noriega. 

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A 20 de dezembro, Endara tomou posse como Presidente. Duas semanas depois, Noriega rendeu-se. Posteriormente, cumpriu várias penas de prisão nos EUA, França e Panamá, tendo falecido em 2017. Os custos da operação militar foram posteriormente estimados em 331 milhões de dólares.

Granada (1983)

A partir de 1979, o Estado caribenho de Granada aproximou-se cada vez mais da União Soviética em termos políticos. Quando o primeiro-ministro em exercício, Maurice Bishop, tentou apaziguar os EUA, foi destituído do poder e assassinado por unidades militares. 

Nessa situação, o Presidente dos EUA, Ronald Reagan, apoiado por vários países caribenhos, lançou uma invasão, sob forte resistência do governo britânico, que via o membro da Commonwealth como sua própria esfera de influência. Após a retirada das tropas americanas, a rainha Isabel II instituiu um governo de transição.

República Dominicana (1965)

Após vários golpes de Estado, a República Dominicana ameaçava mergulhar numa guerra civil em 1965. Após uma votação da Organização dos Estados Americanos, o Presidente americano Lyndon B. Johnson iniciou uma invasão. 

A prioridade era proteger os cidadãos americanos, mas, extraoficialmente, também impedir que surgisse uma "segunda Cuba", ou seja, um Estado socialista nas imediações, em plena Guerra Fria. Assim, os EUA garantiram que um chefe de governo do seu agrado assumisse o poder.

O caso recente da Venezuela

O caso mais recente de possível "mudança de regime", com intervenção dos EUA, pode ter acontecido já em janeiro, na Venezuela, quando Trump mandou raptar o chefe de Estado, Nicolás Maduro, acusado de tráfico de droga. Será julgado em Nova Iorque por "terrorismo relacionado com drogas".

Na Venezuela, a vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu a chefia do Estado. Embora faça parte do regime de Maduro, Trump anunciou que irá cooperar com ela. Em troca, os EUA devem obter acesso às gigantescas reservas de petróleo do país sul-americano. Entretanto, dois meses após a intervenção pontual dos EUA, ainda não está claro em que direção o país irá evoluir.

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