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ReligiãoAmérica do Norte

Um ano de Papa: Tradição e frontalidade ao serviço da paz

8 de maio de 2026

Um ano após a sua eleição, o Papa Leão XIV é visto como um importante contraponto ao Presidente norte-americano Donald Trump. Continua, porém, por definir claramente para onde pretende conduzir a Igreja Católica.

Angola, Saurimo 2026
Um ano após a eleição, Papa Leão assume-se como uma das vozes mais influentes da diplomacia mundialFoto: Andrew Medichini/AP Photo/dpa/picture alliance

Usa vestes mais solenes e tradicionais do que o seu antecessor. Além disso, o Papa Leão XIV, ao contrário do Papa Francisco, voltou a residir no Palácio Apostólico, sobranceiro à Praça de São Pedro. E retira-se regularmente — algo que Francisco nunca fez — para a residência papal de verão em Castel Gandolfo.

Ao nível das aparências, o norte-americano Robert Prevost, eleito pelo conclave a 8 de maio de 2025 como chefe da Igreja Católica e que adotou o nome de Leão XIV, faz portanto muitas coisas de forma diferente em relação ao seu predecessor.

Ainda não é claro para onde caminha este Papa do ponto de vista teológico

No que diz respeito à orientação teológica e político-eclesial do seu pontificado, tudo continua pouco definido. Até agora, Leão ainda não publicou qualquer encíclica, um dos grandes documentos doutrinais de um Papa, sublinha o historiador da Igreja Jörg Ernesti, da Universidade de Augsburgo, em declarações à DW. Assim, permanece "em aberto o rumo teológico deste Papa”. Parece manter-se deliberadamente reservado quanto a isso.

As primeiras palavras pronunciadas por Leão, a 8 de maio de 2025, poucas horas após a sua eleição, da varanda da Basílica de São Pedro, foram: "A paz esteja convosco!” Nenhum outro conceito surgiu tantas vezes nesse discurso como a palavra "paz”. Leão apelou a uma "paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante”. Com isso, alinhou amplamente com o seu predecessor, que repetidamente se pronunciou sobre a guerra de agressão russa contra a Ucrânia e sobre o conflito em Gaza.

Sobretudo a política externa fortemente militarizada do Presidente Trump dá especial relevância ao tema da paz — desde a intervenção norte-americana na Venezuela, às ameaças contra Cuba e a Gronelândia, até à guerra contra o Irão.

Foi precisamente o ataque ao Irão — cujo alegado esforço para obter armas nucleares suscita há muitos anos preocupação internacional — que acabou por provocar um confronto aberto entre os dois norte-americanos mais influentes do mundo atual: o Papa, conhecido pelo seu tom ponderado, e o Presidente, famoso pela sua retórica agressiva.

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Durante a guerra com o Irão, Trump ameaçou abertamente, após a Páscoa, destruir o país. "Uma civilização inteira morrerá esta noite”, afirmou. Quando o Papa classificou esse aviso como "verdadeiramente inaceitável” e alertou para "fantasias de omnipotência” cada vez "mais imprevisíveis e agressivas”, Trump atacou-o pessoalmente. Chamou-lhe "muito à esquerda politicamente” e, no que toca à política externa, "terrível”. Talvez Trump ignore a importância da Venezuela, de Cuba e também do Líbano para a Igreja Católica. Os três países têm uma forte tradição católica. 

Ataque ao Papa: "nem Hitler, nem Mussolini, nem Napoleão”

O historiador da Igreja Jörg Ernesti, autor de vários livros sobre o papado e sobre diversos pontífices, considera o ataque de Trump a Leão algo sem precedentes. "Ninguém se expressou de forma tão depreciativa sobre a pessoa de um Papa. Hitler não o fez, Mussolini não o fez, Napoleão também não.” Além disso, considera "completamente absurdo” entrar em conflito com uma autoridade moral como o Papa. Segundo Ernesti, Leão reagiu de forma muito inteligente e serena, remetendo calmamente para a dignidade do seu cargo. Mais tarde, durante um voo para África, o Papa afirmou aos jornalistas que não tinha medo de Trump.

O ataque do Presidente norte-americano acabou por dar projeção mundial às declarações críticas do chefe da Igreja Católica, feitas numa breve intervenção numa noite escura em Castel Gandolfo. Para isso poderá também ter contribuído o facto de, nos últimos meses, terem surgido relatos em vários países ocidentais — incluindo os Estados Unidos — sobre um renovado interesse pela religião e pela Igreja.

Menor atenção recebeu uma controvérsia entre o Vice-Presidente JD Vance e o Papa. No entanto, em termos de princípio, essa disputa poderá ter sido ainda mais relevante para Leão do que as provocações do Presidente. Vance, que apenas se converteu ao catolicismo em 2019 e se inspira mais em correntes teológicas conservadoras e reacionárias, aconselhou prudência ao Papa quando este fala de teologia. O melhor seria "que o Vaticano se limitasse às questões morais”. Mais tarde, Vance adotou um tom mais conciliador.

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Até agora, sem críticas dirigidas à Europa

Ao contrário do seu predecessor, os discursos e declarações do Papa Leão não revelam qualquer desdém pela Europa ou pela Igreja nos países europeus. O Papa Francisco utilizava ocasionalmente palavras duras, acusando a Europa de se ter tornado cansada e fechada sobre si própria. Leão, por sua vez, mostra-se sempre cordial quando recebe representantes de países europeus. Em junho, tem prevista uma visita de seis dias a Espanha.

Ainda assim, é evidente que África ocupa um lugar central no seu coração e na sua atenção. Em abril de 2026, passou onze dias em visita a quatro países africanos. Com isso, permaneceu mais tempo em África do que Bento XVI durante os seus oito anos de pontificado. Desde o início do seu pontificado que pensava numa viagem ao continente africano, afirmou Leão em várias ocasiões.

África ultrapassa a Europa

Para o especialista em papado Jörg Ernesti, esta "decisão muito consciente de Leão” insere-se num contexto mais vasto. Há já 150 anos que África "está no radar dos Papas”. Atualmente, a Igreja em África cresce cerca de 3% ao ano, enquanto a Igreja europeia estagna. "Os equilíbrios dentro da Igreja Católica estão a mudar”, afirma Ernesti. Cada vez mais africanos trabalham no Vaticano. Esta valorização e aproximação do Papa aplica-se igualmente à sua visão da Ásia e da América Latina.

Desde o conflito aberto entre Trump e o Papa, muitos observadores deixaram de acreditar que Leão, nascido em Chicago, visite os Estados Unidos durante os anos da presidência Trump. Rumores de que a administração norte-americana gostaria de contar com a presença do chefe da Igreja Católica nas celebrações do 250.º aniversário da Declaração de Independência dos EUA, a 4 de julho, são respondidos pelo Vaticano à sua maneira. Precisamente nesse dia, em que os norte-americanos celebram o seu país em todo o mundo, o Papa Leão visitará a ilha mediterrânica de Lampedusa.

Lampedusa tornou-se um símbolo da fuga e do sofrimento dos refugiados, sobretudo desde o verão de 2013, quando o Papa Francisco visitou a ilha poucos meses após a sua eleição e lamentou a morte de milhares de migrantes afogados durante travessias perigosas rumo à Europa.

Também para Leão, Lampedusa tem um significado programático. Tal como Francisco, sublinha o sofrimento de milhões de pessoas obrigadas a fugir em todo o mundo.

Isso torna-se particularmente evidente no programa da sua visita a Espanha. Os dois últimos dias da viagem serão passados em duas ilhas Canárias, Gran Canaria e Tenerife. Ambas são destinos turísticos muito procurados, onde desembarcam cada vez mais refugiados vindos de África em embarcações precárias. Também para eles se dirigirá o olhar de Leão. Nessas ilhas de férias de tantos europeus, o Papa recordará que a migração e o destino dos refugiados continuam a ser temas centrais.

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