As ameaças à democracia no Sudão após a queda de al-Bashir
Tom Allinson
19 de dezembro de 2019
Um ano depois do início dos protestos que derrubaram o ditador do Sudão Omar al-Bashir, o país procura trilhar um caminho de paz social, apesar da fragilidades do processo de democratização.
Foto: REUTERS
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A crise económica e social e o afastamento parcial dos militares do poder ameaçam fazer descarrilar a revolução social iniciada em dezembro de 2018.
Desde a destituição do antigo chefe de Estado, Omar al-Bashir, o Sudão tem tentado introduzir mudanças estruturais. "Registámos uma mudança radical na identidade, nas instituições e na sociedade sudanesas", observa Jonas Horner, especialista da think tank internacional Crisis Group.
A nova liderança do Sudão tem prometido conduzir reformas em todos os setores, alegando que visam "melhorar a vida da população". Enquanto não é formado um novo Parlamento, um Conselho Soberano constituído por civis e militares improvisam um Poder Legislativo.
Omar al-Bashir foi condenado a dois anos de prisão pelos crimes de enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiroFoto: picture-alliance/Anadolu Agency/M. Hajaj
Segundo Horner, a nova administração tem optado por uma lógica de descentralização da governação, sobretudo no que toca a zonas de conflito, como a região do Nilo Azul, o sul do país ou o Darfur.
"Procuram ter muito mais do que arranjos politicamente corretos, tentando garantir que os grupos armados tenham um lugar no novo Governo com a participação dos seus militantes", explica.
O Governo de transição que deverá durar três anos anunciou recentemente uma lista de dez prioridades para combater a corrupção, enfrentar a crise económica e acabar com os conflitos que já duram décadas naquele país.
Mulheres querem mais direitos
Sara Abdelgalil, porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses, uma organização da sociedade civil que ajudou a derrubar o regime de al-Bashir, sublinha que embora os direitos das mulheres tenham sido considerados no inicío da transição, há apenas seis mulheres entre os 32 membros do Conselho Soberano, um número que considera insuficiente.
Crise económica ameaça a paz e transição democrática no Sudão
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"Durante a revolução, as mulheres tiveram uma presença muito visível - foram detidas, mortas e sujeitas a todo tipo de violência. Agora, que chegámos à fase das negociações, tornaram as mulheres invisíveis", alerta Abdelgalil.
O Conselho Soberano surgiu na sequência da assinatura do acordo histórico de 17 de agosto, entre o conselho militar de transição, que sucedeu a Bashir, e os líderes dos movimentos de contestação.
Combater a crise económica é a principal prioridade do Governo liderado por Abdalla Hamdok, um economista respeitado no país que foi empossado no final de agosto de 2019.
Desde então, Hamdok tem pedido o apoio da comunidade internacional para combater as dificuldades estruturais do Estado, bem como traçar um projeto rumo à estabilização social.
Extradição pendente
Milhares de pessoas mobilizaram-se contra o poder militar após a destituição de Omar al-BashirFoto: Getty Images/D. Degner
Al-Bashir, de 75 anos, está sob custódia policial desde abril, quando militares o removeram do poder, após meses de protestos em todo o país. No entanto, a revolta estendeu-se e acabou por forçar os militares a um acordo de partilha de poder com os civis.
Al-Bashir é alvo de dois mandados de detenção emitidos em 2009 e 2010 pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio no Darfur.
Até à data, o Governo de transição não autorizou a extradição do antigo líder para Haia, cidade holandesa onde fica a sede do TPI.
Sudão do Sul: Crianças da zona de guerra
No Sudão do Sul, deslocados internos são acolhidos nos campos de proteção das Nações Unidas. Muitos são crianças sem os pais. A Nonviolent Peaceforce (NP), uma organização não-governamental, tem ajudado essas crianças.
Foto: DW / F. Abreu
Entre os deslocados, pais desaparecidos
Mais de 30.000 pessoas vivem nos campos de acolhimento das Nações Unidas em Juba, capital do Sudão do Sul. Cerca de 7.000 são crianças que perderam contacto com os pais. Agora, a ONG Nonviolent Peaceforce está tentando reunir as famílias.
Foto: DW / F. Abreu
Encontrando as famílias
O primeiro passo é definir a identidade da criança. Em seguida, recolhe-se o máximo de informações possíveis que possam ajudar a localizar os pais. Os dados ficam então disponíveis na internet e podem ser acessados por todas as organizações que trabalham pela protecção das crianças no Sudão do Sul. Se uma família não pôde ser localizada, as crianças são encaminhadas para adoção.
Foto: DW / F. Abreu
Forças de Paz femininas
No Sudão do Sul, a Nonviolent Peaceforce protege mulheres e crianças. Esses grupos raramente participam dos conflitos armados, mas são muito afetados. Por isso, a organização está a criar equipas femininas de luta pela paz. Essas mulheres são especialmente treinadas para combater a violência sexual e de gênero nas comunidades.
Foto: DW / F. Abreu
Mulheres pela Paz
Além de treinamento, as equipas de Mulheres pela Paz recebem acompanhamento constante. Elas ajudam outras mulheres vulneráveis nas comunidades contra a violência sexual, de gênero e também a identificarem os riscos. Em contacto com as autoridades, contribuem para que os culpados sejam levados à justiça.
Foto: DW / F. Abreu
Ulang, no Estado do Alto Nilo
A guerra civil começou como uma disputa política. Entretanto, reacendeu o conflito entre as etnias Dinka, do Presidente Salva Kiir; e Nuer, liderada pelo rebelde Riek Machar. Ulang, região localizada no Estado do Alto Nilo, é dominada pelos Nuer. Em maio de 2015, foi alvo das tropas do Governo. O resultado? Dezenas de pessoas mortas. A única área de paz tornou-se palco de mais um conflito.
Foto: DW / F. Abreu
Proteção para as crianças de Ulang
Em Ulang, a Nonviolent Peaceforce desenvolve um projeto de proteção para as crianças. Esse é um dos seis projetos dessa organização não-governamental no Sudão do Sul. Tais projetos variam de acordo com as necessidades locais. Em Ulang, por exemplo, voluntários da comunidade garantem o lazer e o esporte às crianças.
Foto: DW / F. Abreu
Futebol num antigo campo de batalha
Na escola primária Kopuot, em Ulang, as crianças que participam do projeto agora podem jogar futebol. O prédio ao fundo ainda tem as marcas de balas nas paredes. Uma triste lembrança de que, durante a ofensiva de maio, essa escola foi alvo das tropas do Governo.
Foto: DW / F. Abreu
De volta à escola
Em maio, durante a ofensiva do Governo, todos os materiais escolares e muitos outros materiais foram destruídos. Agora, em salas de aula improvisadas, luta-se para que as crianças da comunidade tenham acesso à educação. Autoria: Fellipe Abreu